A indústria alimentar e de bebidas está a acelerar a reformulação de produtos com recurso a açúcares raros, como a allulose e a tagatose, numa resposta direta à crescente procura por opções mais saudáveis que mantenham o sabor tradicional do açúcar. De acordo com a consultora GlobalData, estes ingredientes estão a deixar de ser nicho para se tornarem ferramentas centrais na inovação “better-for-you”.
Segundo o inquérito global realizado pela consultora no quarto trimestre de 2025, junto de 22.613 consumidores em 42 países, 66% dos inquiridos afirmam que as suas compras alimentares são sempre ou frequentemente influenciadas pelo impacto dos produtos na saúde e bem-estar. Este dado reforça a pressão sobre fabricantes para reduzirem o teor de açúcar e comunicarem benefícios associados à saúde metabólica.
Sabor e funcionalidade como fatores críticos
Sainul Abidin, consumer analyst da GlobalData, sublinha que os açúcares raros respondem simultaneamente a duas prioridades: redução de açúcar e manutenção de uma experiência sensorial próxima da sacarose. Ao contrário de muitos edulcorantes intensivos, a allulose e a tagatose contribuem para textura, volume e sensação na boca – aspetos determinantes para a aceitação do consumidor.
Além da vertente nutricional, a funcionalidade técnica distingue estes ingredientes. Em aplicações como pastelaria e confeitaria, oferecem capacidade de volume e reação de Maillard (escurecimento), permitindo preservar textura e aparência mesmo com menor teor de açúcar convencional. A escolha entre allulose e tagatose depende, contudo, do objetivo da formulação – intensidade de doçura, estabilidade térmica ou desempenho no escurecimento.
Enquadramento regulatório e avanços tecnológicos impulsionam adoção
Nos Estados Unidos, a allulose obteve estatuto GRAS (Generally Recognized as Safe), beneficiando ainda de tratamento diferenciado na rotulagem nutricional face aos açúcares tradicionais, o que facilita alegações de redução de açúcar. Aprovações semelhantes noutros mercados estão a ampliar as oportunidades para fabricantes e fornecedores de ingredientes.
Paralelamente, os avanços tecnológicos têm contribuído para a escalabilidade e redução de custos. Técnicas como fermentação de precisão e bioconversão enzimática estão a tornar a produção de açúcares raros mais viável para aplicações de grande volume, como bebidas, snacks e laticínios – categorias onde o equilíbrio entre fidelidade de sabor e custo é crítico.
Marcas globais já incorporam allulose e tagatose
A adoção já é visível em várias marcas internacionais. A Quest Nutrition utiliza allulose em barras proteicas para proporcionar doçura com impacto mínimo na glicemia. A Magic Spoon recorre ao mesmo ingrediente para replicar o perfil de sabor e crocância típico dos cereais tradicionais. Já a Chobani integra allulose na sua gama de iogurtes zero açúcar, mantendo um perfil doce e cremoso.
No segmento da confeitaria, a The Hershey Company sinalizou a intenção de investir na escalabilidade da produção de allulose e tagatose. Por sua vez, o ASR Group – proprietário de várias marcas de açúcar – estabeleceu parcerias com produtores de açúcares raros para introduzir tagatose em canais industriais, com foco em aplicações como chocolate e pastelaria.
Do lado dos ingredientes, empresas como a Tate & Lyle e a Ingredion reforçaram as suas ofertas de allulose para clientes de grande escala. Na região Ásia-Pacífico, a expansão de capacidade produtiva – incluindo investimentos da Samyang Corporation – evidencia o papel crescente da região na cadeia de fornecimento destes ingredientes.
Vetor estratégico para a próxima fase da inovação
Para a GlobalData, os açúcares raros tendem a afirmar-se como uma alavanca estratégica na próxima fase da inovação alimentar. À medida que os consumidores escrutinam mais atentamente o teor de açúcar, mas recusam comprometer o sabor, os fabricantes que investirem em cadeias de abastecimento escaláveis, sistemas de adoçantes inteligentes e formulações adaptadas a cada aplicação estarão melhor posicionados para competir num mercado cada vez mais orientado para a saúde.







