Num contexto de volatilidade nos combustíveis, aumento dos custos operacionais e maior pressão sobre as margens do e-commerce, Francisco Castanheira, CEO da Delivery Express, defende que a logística deve ser encarada como um fator estratégico e não apenas como um centro de custo. Com 25% da frota já eletrificada e o objetivo de chegar a 75% até 2030, a empresa aposta na tecnologia, na inteligência artificial e na otimização de rotas para reduzir impactos, emissões e custos, sem comprometer a experiência de entrega. Num mercado em que a rapidez continua a pesar, mas em que a eficiência e a sustentabilidade ganham relevância, o futuro do last mile passará por modelos mais flexíveis, transparentes e ajustados ao verdadeiro valor da conveniência.
O sector dos combustíveis tem sido marcado por grande volatilidade e por novas subidas de preços. Que impacto direto está esta realidade a ter nas empresas de logística, distribuição e entregas?
A volatilidade nunca é positiva, seja relacionada com os combustíveis ou com qualquer fator que influencie um determinado mercado ou sector. No caso da distribuição, principalmente no last mile, a variação constante dos preços dos combustíveis tem-nos obrigado a fazer uma operação mais próxima e eficaz, em conjunto também com as marcas nossas parceiras, para que não haja grande variação de preços nas entregas para o consumidor final.
Ainda assim, as estratégias que a Delivery Express tem vindo a adotar nos últimos tempos, como a eletrificação da frota (já 25% da frota é elétrica) e a utilização de tecnologia, nomeadamente inteligência artificial (IA) na otimização de recursos e de rotas, tem vindo a ajudar a minimizar impactos para o consumidor final no panorama atual.
No caso específico das entregas associadas ao e-commerce, onde estão hoje os maiores focos de pressão: combustível, mão de obra, manutenção de frotas, tecnologia ou capacidade operacional?
Os maiores desafios são, sem dúvida, o da mão de obra, muito ligado também à capacidade operacional, pois sem uma equipa devidamente formada e empenhada é difícil continuar a dar resposta.
A operação da Delivery Express conta com cerca de 300 colaboradores, no total, e uma parte importante da equipa está na rua, todos os dias. O trabalho de manter a equipa motivada, produtiva, segura e com condições é um dos nossos maior focos e, consequentemente, dos maiores desafios. Ano após ano, temos trabalhado e melhorado bastante a nossa taxa de rotatividade entre as diferentes funções, e podemos orgulharmo-nos de estarmos a fazer um trabalho bem feito.
É possível quantificar o peso que a energia representa hoje no custo final de uma entrega?
Tem uma variação entre os 10% e os 20%. Depende dos sectores, viaturas e tipologias.
Num sector em que o consumidor se habituou a entregas rápidas, convenientes e muitas vezes gratuitas, até que ponto o modelo atual é sustentável num contexto de custos crescentes?
O facto das entregas serem gratuitas para o consumidor não quer dizer que não tenham um custo. Muitas vezes, são as próprias marcas a assumirem esse custo final, mas temos vindo a observar importantes mudanças no mercado, com o custo de entrega a ser efetivamente cobrado ao consumidor ou a ser gratuito apenas para encomendas de um determinado valor.
Mas há ainda outro tipo de mudanças na própria logística, com muitos consumidores a preferirem o levantamento em loja (e, na esmagadora maioria dos casos, com entrega gratuita para o consumidor e custo assumido pela marca), ou até em cacifos/lockers para realizarem o seu levantamento. Esta realidade faz com que o processo logístico e de distribuição seja mais simples e, consequentemente, com custos mais baixos.
O aumento dos custos logísticos vai inevitavelmente chegar ao consumidor final? Ou ainda há margem para as empresas absorverem parte dessa pressão? Podemos esperar um aumento generalizado das taxas de entrega nos próximos meses?
Já se observa em muitas marcas a transposição do custo da entrega para o consumidor, embora haja também estratégias de fidelização que passam por assumir esse custo ou ainda outro tipo de estratégias, como a oferta da entrega para o consumidor, em compras a partir de um determinado valor.
Esta realidade, em conjunto com diferentes estratégias, como os já referidos pontos de recolha (seja em cacifos ou lojas) está a mudar o sector, que tem encontrado aqui novas formas de conseguir otimizar recursos.
O consumidor português está preparado para pagar mais pela conveniência da entrega ao domicílio? A gratuitidade dos portes continua a ser um fator decisivo na compra online ou começa a haver uma maior compreensão sobre o custo real da logística?
É difícil responder de forma direta a esta questão, por não estarmos 100% conscientes das estratégias das marcas. Para a Delivery Express, o serviço é sempre pago, seja pela marca, pelo consumidor ou por parceiros com os quais trabalhamos. Aquilo que temos vindo a observar é que há cada vez menos marcas a oferecerem diretamente o custo da entrega, criando estratégias alternativas para compensarem o cliente de outra forma.
No futuro vai com certeza existir um reajustamento gradual das taxas de entrega até porque os operadores e distribuidores estão a ser pressionados com todos os aumentos que o sector enfrenta e, no final, irá refletir-se sempre na entrega.
Até que ponto os custos logísticos podem limitar o crescimento do e-commerce, sobretudo em categorias de menor margem ou com produtos de baixo valor médio?
O e‑commerce já não é um fenómeno de crescimento explosivo, mas um mercado maduro, em expansão contínua, o que coloca mais pressão na eficiência logística do que no volume em si. A forma como a Delivery Express tem vindo a trabalhar para enfrentar e otimizar os custos logísticos está muito ligada à utilização de tecnologia para otimização de rotas e de entregas, assim como através da expansão de centros logísticos de distribuição em várias polos de Portugal Continental.
As pequenas e médias empresas são particularmente vulneráveis a este contexto? Que desafios enfrentam quando não têm escala para negociar melhores condições logísticas?
Sim, as s pequenas e médias empresas (PME) são normalmente as mais vulneráveis num contexto de aumento dos custos logísticos, porque não beneficiam do mesmo poder negocial nem dos volumes que as grandes empresas conseguem apresentar aos operadores.
Os principais desafios passam por custos de transporte mais elevados por encomenda, devido a menores volumes expedidos e de uma menor capacidade de negociação de tarifas, prazos e níveis de serviço com transportadoras, bem como pela dificuldade em absorver aumentos de custos, sem impacto direto na margem ou no preço final ao consumidor.
Além disso, as PME tendem a apresentar uma cobertura geográfica mais limitada, sobretudo quando pretendem chegar a zonas de baixa densidade populacional e dispõem de uma menor capacidade de investimento em tecnologia, automação e ferramentas de otimização logística.
Por outro lado, a logística é cada vez mais um fator de diferenciação. O consumidor espera entregas rápidas, previsíveis e com custos reduzidos, independentemente da dimensão da empresa. Isso obriga muitas PME a procurar parceiros logísticos especializados que lhes permitam ganhar escala de forma indireta, acedendo a redes de distribuição e soluções que, sozinhas, dificilmente conseguiriam suportar.
“A rapidez continua a ser importante, mas a eficiência e a sustentabilidade estão a ganhar cada vez mais peso no last mile. Existe espaço para educar o consumidor para modelos de entrega mais equilibrados, desde que a proposta de valor seja clara e conveniente”
A Delivery Express tem sentido uma alteração no tipo de soluções procuradas pelos clientes, nomeadamente maior interesse por entregas mais programadas, modelos mais eficientes, consolidação de rotas ou serviços ajustados a diferentes níveis de urgência?
Temos vindo a observar uma mudança clara nas prioridades dos clientes, que estão cada vez mais focados na eficiência e na otimização de custos, sem comprometer a experiência do consumidor final.
Isso traduz-se numa maior procura por soluções de entregas programadas, modelos mais flexíveis em função do nível de urgência e operações que permitam consolidar volumes e otimizar rotas. Muitas empresas perceberam que nem todas as encomendas exigem entrega imediata e que uma gestão mais inteligente dos prazos pode gerar poupanças significativas.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por modelos que combinem diferentes opções de serviço, desde entregas urgentes de uma hora ou até duas horas ou até soluções mais económicas para encomendas menos sensíveis ao tempo, permitindo ajustar o custo logístico às necessidades reais de cada operação.
Na Delivery Express temos acompanhado esta evolução, ajudando as empresas a encontrarem o equilíbrio entre rapidez, cobertura geográfica e eficiência operacional. O objetivo já não é apenas o de entregar mais depressa, mas entregar de forma mais sustentável, previsível e economicamente mais eficiente.
Há uma mudança de paradigma em curso, em que a rapidez deixa de ser o único critério e a eficiência passa a pesar mais na proposta de valor? Há espaço para educar o consumidor para modelos de entrega mais sustentáveis e económicos, mesmo que menos imediatos?
A rapidez continua a ser importante, mas a eficiência e a sustentabilidade estão a ganhar cada vez mais peso no last mile. Existe espaço para educar o consumidor para modelos de entrega mais equilibrados, desde que a proposta de valor seja clara e conveniente.
Parte desse papel tem cabido às marcas, que incluem essas estratégias nos seu planos de ESG mais amplos, mas empresas como a Delivery Express têm de estar preparadas para dar ruma boa esposta. Muito tem passado, por exemplo pela exigência de frota elétrica para menores emissões de carbono.
Como equilibrar três dimensões que nem sempre são compatíveis: rapidez, preço competitivo e sustentabilidade ambiental?
O equilíbrio resulta da utilização inteligente de tecnologia, da otimização operacional e da escolha do modelo de entrega mais adequado para cada situação ou sector. Não existe uma solução única, mas sim uma gestão eficiente de prioridades e recursos consoante o tipo de encomenda ou o perfil da marca, ou até mesmo do cliente.
Que conselho daria às empresas de e-commerce que querem proteger margens sem comprometer a experiência de entrega?
Olhar para a logística como um fator estratégico e não apenas como um centro de custo. Trabalhar com parceiros especializados, apostar na previsibilidade e oferecer diferentes opções de entrega pode ajudar a proteger margens sem prejudicar a experiência do cliente.
Olhando para o futuro, que características terão os operadores logísticos mais preparados para resistir a contextos de volatilidade económica e energética?
Serão operadores capazes de combinar tecnologia, flexibilidade operacional, sustentabilidade e capacidade de adaptação. A resiliência passa cada vez mais pela eficiência e pela capacidade de responder rapidamente às mudanças do mercado.
A logística passou a ser um dos grandes fatores de competitividade no e-commerce. Neste novo contexto, quem conseguir entregar melhor, de forma mais eficiente e transparente, terá uma vantagem decisiva?
Quem conseguir oferecer entregas eficientes, transparentes, sustentáveis e com uma experiência consistente terá uma vantagem competitiva cada vez mais relevante no sector. Estamos a trabalhar nesse sentido.







