Operador a embalar produtos da Frutorra numa caixa de cartão em ambiente de armazém/logística
Alimentar

A nova alma da Frutorra 

Com um investimento de dez milhões de euros numa nova unidade industrial, a Frutorra reforça a sua capacidade produtiva e prepara a expansão num mercado que deixou de ser apenas funcional para se afirmar como categoria de valor e inovação. E que continua a crescer impulsionado pela procura por snacks saudáveis e convenientes. De olhos postos no futuro, a Frutorra reforça os seus argumentos produtivos para abraçar novos mercados e, consequentemente, novas oportunidades de negócio, fazendo valer vectores como a alimentação saudável, a conveniência e a diversidade de sabores, numa estratégia onde a qualidade do produto é soberana.

Durante décadas, os frutos secos foram uma categoria relativamente discreta no universo alimentar. Estavam associados, sobretudo, à culinária tradicional, ao consumo ocasional em momentos de convívio ou ao papel de ingrediente em receitas. Raramente ocupavam um lugar central nas estratégias de inovação alimentar. Hoje, porém, essa perceção mudou. O que antes era uma categoria relativamente estática transformou-se num dos segmentos mais dinâmicos do mercado dos snacks, impulsionada por tendências como a alimentação saudável, a conveniência e a diversidade de sabores.

Segundo dados do International Nut and Dried Fruit Council (INC), o consumo mundial de frutos secos tem vindo a crescer de forma consistente, ultrapassando cinco milhões de toneladas anuais, impulsionado, sobretudo, pela procura na Europa, nos Estados Unidos e em mercados asiáticos. Na Europa, o consumo médio per capita continua a aumentar, refletindo uma mudança gradual nos hábitos alimentares. Este movimento global tem repercussões diretas no mercado português, onde a categoria deixou de ser vista apenas como um complemento alimentar para ganhar espaço no universo dos snacks e da alimentação equilibrada. 

É neste novo contexto que a Frutorra inaugura uma nova fase da sua trajetória empresarial. A empresa portuguesa investiu cerca de dez milhões de euros numa nova unidade produtiva, em Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, um projeto pensado para acompanhar o crescimento e preparar o futuro. E que traduz uma ambição clara: reforçar a capacidade industrial, acelerar a inovação e preparar o caminho para uma futura internacionalização. “Esta fábrica representa claramente uma aposta no nosso mercado. Temos uma diferença de capacidade de produção muito assinalável em relação à fábrica antiga”, nota Miguel Dias, diretor comercial da Frutorra. “Mas também representa algo muito importante para nós, do qual não queremos nunca abdicar: a qualidade do nosso produto.”

O consumo mundial de frutos secos tem vindo a crescer de forma consistente, ultrapassando cinco milhões de toneladas anuais, impulsionado sobretudo pela procura na Europa, nos Estados Unidos e em mercados asiáticos

Uma categoria em reinvenção

O investimento da Frutorra reflete, assim, uma mudança estrutural na própria categoria. Nos últimos anos, os frutos secos deixaram de ser percecionados como um produto básico e passaram a ocupar um espaço cada vez mais relevante no universo dos snacks e da alimentação funcional. De acordo com dados da Euromonitor International, o segmento global de snacks saudáveis – que inclui frutos secos, sementes e misturas funcionais – continua a crescer acima da média do mercado alimentar, impulsionado pela procura por produtos naturais e fontes alternativas de proteína.


Miguel Dias, diretor comercial da Frutorra, sublinha que a marca não quer estar no mercado como o produto mais barato. Queremos estar como aquele que apresenta a melhor relação de qualidade e preço”

No caso português, a evolução também é visível na variedade de produtos disponíveis no mercado e na diversificação dos momentos de consumo. Produtos como pistáchios, cajus ou noz pecan, anteriormente pouco comuns no consumo quotidiano, tornaram-se cada vez mais presentes nas prateleiras. “Se andarmos uns anos atrás, há 15 ou 20 anos, não havia pistáchios ou havia muito poucos”, recorda Miguel Dias. “Ou quase não havia cajus. Não se podia falar de uma castanha do Brasil ou de uma noz pecan”. Hoje, pelo contrário, a categoria apresenta uma oferta muito mais diversificada e orientada para novos estilos de vida. “O mercado de frutos secos mudou. Deixou de ser uma comodidade pura e dura para ser também um mercado de prazer.”

Um mercado ainda profundamente nacional

Apesar dessa evolução e do dinamismo crescente da categoria, o negócio da Frutorra continua fortemente ancorado no mercado interno. Entre 95% e 97% das vendas da empresa é realizado em Portugal, o que reflete a forte implantação da marca no mercado nacional. “Temos um nível de internacionalização muito baixo para aquilo que é o tradicional das empresas portuguesas”, confirma o gestor. 

Esta realidade ajuda a explicar a importância estratégica da nova fábrica. A unidade foi concebida não apenas para responder às necessidades atuais, mas também para criar margem de crescimento nos próximos anos, sem excluir a possibilidade de expansão internacional. “Temos capacidade instalada superior àquilo que necessitamos neste momento. Podemos continuar a crescer durante os próximos anos claramente no mercado interno e abraçar novos mercados, para uma internacionalização dos nossos produtos.”

Representativa de um investimento de dez milhões de euros, a nova fábrica da Frutorra marca uma nova etapa na vida da marca

Para acompanhar a evolução do mercado, a nova fábrica incorpora também tecnologia mais avançada, especialmente ao nível do processo de torrefação. Um dos elementos centrais é um forno industrial de última geração, que permite maior controlo sobre o processo produtivo. “Temos o Ferrari dos fornos”, ilustra Miguel Dias. “É um forno contínuo que nos garante uma qualidade e uma uniformização do produto ao longo de toda a produção.” Esta evolução tecnológica assegura maior consistência e previsibilidade no produto final. “Permite-nos garantir os valores adequados de humidade das matérias-primas, o que garante a maior qualidade possível no produto final.”

A nova unidade fabril foi concebida não apenas para responder às necessidades atuais, mas também para criar margem de crescimento nos próximos anos, sem excluir a possibilidade de expansão internacional

O impacto da parceria com a Grefusa

Um dos momentos mais relevantes na evolução recente da Frutorra ocorreu em 2018, quando foi integrada num grupo espanhol com forte presença no mercado de snacks, a Grefusa. A parceria trouxe maior capacidade financeira e abriu novas oportunidades de desenvolvimento de categorias. “Estamos a falar de uma empresa que fatura mais de 130 milhões de euros em Espanha, que é líder em snacks saudáveis e em pipas”, descreve.

Esse conhecimento tem sido particularmente relevante no desenvolvimento de produtos que ainda estão numa fase inicial em Portugal. “Há sete anos, se alguém me perguntasse por pipas, dizia que era comida para pássaros”, recorda, sorridente, Miguel Dias. “Hoje, já há pipas com sabores, pipas com sal, pipas de água e sal, entre outros.”

De facto, se há um fator que explica a evolução da categoria, nos últimos anos, esse fator é a inovação. E a nova infraestrutura oferece também condições muito mais favoráveis para desenvolver novos produtos. A empresa passa agora a dispor de mais espaço e melhores instalações para testar receitas, explorar novos ingredientes e desenvolver novas combinações. “Queremos inovar em novos blends e em novas misturas”, assegura o responsável.

A Frutorra aposta particularmente no desenvolvimento de misturas de frutos secos, um segmento que tem vindo a ganhar relevância no mercado. “Somos claramente dos poucos produtores, a nível nacional, que trabalha misturas”, assegura Miguel Dias. Estas combinações incluem misturas naturais, torradas, picantes ou com diferentes níveis de sal, muitas vezes alinhadas com tendências de consumo associadas à alimentação saudável.

A Frutorra aposta no desenvolvimento de misturas de frutos secos, um segmento que tem vindo a ganhar relevância no mercado. Misturas naturais, torradas, picantes ou com diferentes níveis de sal, muitas vezes alinhadas com tendências de consumo associadas à alimentação saudável

Uma das transformações mais visíveis da categoria tem sido a evolução das embalagens e dos formatos de consumo. A Frutorra foi pioneira em Portugal na introdução de embalagens com fecho zip, uma solução que permitiu alterar o contexto de consumo do produto, facilitando o consumo em mobilidade e melhorando a conservação do produto. “Para que as pessoas possam abrir, comer um pouco e voltar a fechar.” Este tipo de inovação aparentemente simples contribuiu para alterar a perceção da categoria, aproximando-a do universo dos snacks práticos e convenientes.

Mas, apesar da crescente sofisticação, o mercado continua fortemente competitivo, com forte presença da marca própria e pressão promocional, que mantêm a lógica de preço como um fator relevante. A estratégia da Frutorra passa por encontrar um equilíbrio entre competitividade e diferenciação. “Não queremos estar no mercado como o produto mais barato”, sublinha Miguel Dias. “Queremos estar como aquele que apresenta a melhor relação de qualidade e preço.”


Joana Ferreira, diretora industrial da Frutorra, considera que a nova linha de torrefação vai colocar a marca a par do que melhor há em termos produtivos, na Europa, nesta área de negócio

A inovação surge, assim, como uma ferramenta essencial para evitar que os frutos secos sejam tratados apenas como um produto indiferenciado.“A inovação permite-nos chegar ao cliente e dizer que somos o driver do crescimento do mercado.”

Atualmente, a grande distribuição continua a ser o principal motor de vendas da empresa. Através de distribuidores e parceiros logísticos, consegue também chegar ao comércio independente e a um vasto número de pontos de venda em todo o país.

Um ponto de partida

A nova unidade industrial servirá tanto a marca Frutorra como a produção para marcas próprias da distribuição. E, segundo a empresa, os padrões de qualidade são exatamente os mesmos. “Tratamos com tanto carinho a marca própria como tratamos a nossa marca.” A razão prende-se com a crescente transparência do mercado e com a facilidade com que os consumidores podem identificar quem produz determinado produto. “Ganhar a confiança demora muito tempo, mas perdê-la é muito rápido.”

O objetivo da Frutorra é continuar a crescer e atingir 50 milhões de euros de faturação nos próximos anos, face aos atuais cerca de 35 milhões de euros. Atualmente, a empresa emprega cerca de 100 trabalhadores e gere um portefólio com mais de 350 referências, entre marcas próprias, marca Frutorra e diferentes formatos de produto”

Mais do que um investimento industrial, a nova fábrica representa o início de um novo ciclo estratégico. “Este é claramente um ponto de partida”, comenta Miguel Dias. O objetivo da Frutorra é continuar a crescer e atingir 50 milhões de euros de faturação nos próximos anos, face aos atuais cerca de 35 milhões de euros. Atualmente, a empresa emprega cerca de 100 trabalhadores e gere um portefólio com mais de 350 referências, entre marcas próprias, marca Frutorra e diferentes formatos de produto. Representa três marcas no mercado português, cada uma com um posicionamento diferente: Frutorra, Grefusa e Snatt’s. A Snatt’s, por exemplo, aposta em snacks elaborados no forno e mais saudáveis, enquanto a Grefusa compete diretamente no segmento tradicional. Para esta última, a estratégia passa por reforçar a distribuição e promover degustações, permitindo que os consumidores conheçam os produtos.

Num sector em rápida transformação, onde a diferenciação se constrói cada vez mais através da inovação, da conveniência e da qualidade percebida, a Frutorra procura posicionar-se como uma referência industrial no processamento de frutos secos em Portugal. E se a ambição se concretizar, a nova fábrica poderá marcar não apenas uma mudança de escala da empresa, mas também um novo capítulo na evolução de toda a categoria no mercado português.

Este artigo foi publicado na edição N.º 97 da Grande Consumo

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