A InPost alcançou volumes recorde em 2025, processando 1,4 mil milhões de encomendas e expandindo a sua rede de lockers para mais de 61.000 pontos na Europa. Em entrevista com a Grande Consumo, Marc Vicente, CEO da InPost Ibéria, revela os fatores estratégicos que impulsionaram este crescimento, desde a expansão acelerada da rede out-of-home (OOH) e aquisições estratégicas até às mudanças estruturais nos hábitos de consumo, com os clientes a valorizarem cada vez mais conveniência, previsibilidade e sustentabilidade nas entregas.
A InPost registou volumes históricos em 2025. Que fatores foram decisivos para alcançar este crescimento recorde?
2025 foi um ano histórico devido à convergência de certas decisões estratégicas tomadas ao longo de vários anos em conjunto com outros fatores estruturais do mercado. Em primeiro lugar, beneficiámos do crescimento contínuo do e-commerce B2C, que tem ganhado peso nos hábitos de compra dos consumidores e tem vindo a exigir soluções de entrega mais flexíveis e previsíveis. Em paralelo, o dinamismo dos mercados internacionais acelerou os volumes cross-border e aumentou a procura de capilaridade e rapidez – e é aqui que a nossa oferta out-of-home tem uma clara vantagem.
Em segundo lugar, a expansão acelerada da rede foi determinante: terminámos 2025 com mais de 61.000 Lockers na Europa (+30% face a 2024) e uma rede total de 94.500 localizações OOH (Lockers + Pontos Pack). Esta densidade cria um efeito de rede muito forte: quanto maior a disponibilidade e proximidade dos pontos, maior a adesão de consumidores e retalhistas, o que por sua vez justifica continuar a expandir.
Por fim, registou-se também um impulso significativo ao nível das aquisições, que reforçaram a nossa presença e capacidade em mercados-chave, nomeadamente a Sending, em Espanha, e a Yodel, no Reino Unido, contribuindo para acelerar volumes, qualidade de serviço e escala.
O aumento homólogo de 25% e o total de 1,4 mil milhões de encomendas refletem uma mudança estrutural no mercado ou um pico conjuntural?
A nossa interpretação é clara: reflete uma mudança estrutural. Quando observamos um crescimento anual de +25% e um total de 1,4 mil milhões de encomendas, não estamos a falar de um pico sazonal, sobretudo porque o crescimento é sustentado por tendências que se reforçam trimestre após trimestre.
O que está a mudar estruturalmente são as expectativas dos consumidores: menor tolerância a falhas na entrega, maior exigência de conveniência, maior valorização de opções e crescente atenção a soluções mais sustentáveis e eficientes. O OOH responde bem a esta nova realidade, porque reduz tentativas falhadas, diminui custos e simplifica a experiência do utilizador.
Como evoluiu o perfil dos envios (B2C vs. C2C) e o que isso revela sobre os hábitos dos consumidores?
O C2C continua relevante – sobretudo com o crescimento de plataformas de revenda -, mas o principal motor do recorde em 2025 foi claramente B2C. Na zona euro (que, para nós, inclui Portugal, Espanha, Itália, França, Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos), o segmento B2C cresceu 60% no quarto trimestre, fortemente associado ao dinamismo dos mercados internacionais e do e-commerce.
O que é que isto revela sobre os consumidores? Três aspetos: compram online com maior frequência e menos de forma “ocasional”: o e-commerce já não é um evento, é um hábito. Preferem previsibilidade: querem decidir quando e onde recebem as suas compras, em vez de dependerem de entregas ao domicílio. Valorizam a experiência pós-compra: a entrega é uma parte cada vez mais importante da marca. Quando a entrega falha, a confiança no e-commerce e no operador logístico diminui. Os Lockers e a rede OOH resolvem um ponto clássico de fricção na última milha.
A rede ultrapassa os 61.000 Lockers na Europa. Que papel desempenham os cacifos inteligentes na estratégia global da InPost?
Em 2025 instalámos mais de 14.200 novos Lockers. Na nossa estratégia, os Lockers desempenham quatro papéis principais: são uma rede com economias de escala e eficiência operacional: um ponto locker concentra muitas entregas, reduz quilómetros por encomenda e aumenta a produtividade; melhoram a experiência do utilizador através de acesso 24/7, previsibilidade, conveniência e menor risco de falhas na entrega; acrescentam valor ao e-commerce com um custo mais competitivo e ao reduzir a taxa de devoluções devido a falhas na entrega, o que melhora os níveis de satisfação; e representam um forte compromisso com a sustentabilidade, pois exigem menos tentativas, menos rotas dispersas e menos emissões por entrega (especialmente em áreas densamente povoadas).
Em resumo, a rede Locker não é apenas “uma forma de levantar encomendas”, é a base que permite uma rede de logística mais moderna, urbana e escalável.

O crescimento acelerado do out-of-home indica uma preferência definitiva face à entrega ao domicílio?
Estamos a assistir a uma preferência crescente e consolidada. Um dado que ilustra bem esta tendência é o crescimento muito forte das entregas em smart lockers na zona euro no 4.º trimestre: +51%, o que representa a adoção de uma prática, não uma mera experimentação. Mas o foco não é tanto uma questão de “OOH vs. entregas ao domicílio”, é essencialmente uma questão de escolha. Naturalmente, existem determinados segmentos onde a entrega ao domicílio continua imbatível (encomendas de grande dimensão, por exemplo), mas há muitos contextos em que o OOH é superior: rotinas urbanas, consumidores com horários imprevisíveis, zonas com elevada incidência de falhas na primeira tentativa.
O nosso objetivo é oferecer aos utilizadores todas as opções para que possam escolher a que melhor se adapta às suas necessidades e preferências.
Que mercados ou regiões estão atualmente a impulsionar maior tração dentro da operação ibérica?
Na Ibéria, o mercado espanhol é naturalmente o maior impulsionador de volume, pela dimensão do mercado e pela maturidade do e-commerce em várias regiões. Mas a nossa leitura é que o crescimento é cada vez mais “multi-regional” e transfronteiriço, possibilitado graças à expansão logística e ao aumento da rede. Por isso, quando afirmamos que na Ibéria reforçámos a nossa capilaridade com novas instalações, como a recente abertura do armazém em San Fernando de Henares, estamos a beneficiar deste crescimento no bloco da zona euro e do reforço da conectividade ibérica, além do crescimento dos mercados transfronteiriços.
O ponto central é que quanto mais densificamos a nossa rede e melhoramos os tempos de entrega, mais aceleramos a adesão, especialmente em áreas urbanas e periurbanas.
O lançamento do InPost Easy pretende simplificar os envios internacionais. Que lacunas de mercado este serviço vem colmatar?
A principal lacuna atualmente é a fricção envolvida nos envios internacionais para particulares e pequenas empresas: processos longos, custos pouco transparentes, exigência de registo/criação de conta e incerteza quanto ao seguimento e aos pontos de entrega.
O que o InPost Easy pretende precisamente resolver é a barreira à entrada: tornar o envio internacional tão intuitivo como o envio doméstico, reduzindo o número de passos necessários e a complexidade. Num contexto onde o comércio transfronteiriço está a crescer e o C2C internacional (revenda, presentes, microcomércio) está em ascensão, este serviço preenche uma lacuna onde muitos consumidores ainda desistiam antes de concluir o envio.
Como esperam que o InPost Easy altere a dinâmica do comércio transfronteiriço para consumidores e pequenas empresas?
Esperamos três impactos principais, começando por um aumento do número de transações, uma vez que, ao reduzir a fricção, a conversão aumenta, porque consumidores e pequenas empresas enviam mais quando o processo se torna simples e previsível. Acreditamos que contribuirá para reforçar a confiança no comércio transfronteiriço, ao facilitar o tracking e ao assegurar que a rede OOH cria previsibilidade e reduz o receio de extravios ou atrasos. E, naturalmente, proporcionará uma sensação de internacionalização mais “leve” às microempresas, que poderão testar mercados sem terem a necessidade de montar operações complexas. Essencialmente, em termos de dinâmica competitiva, isto pode aumentar a liquidez do mercado transfronteiriço em categorias onde a logística constituía uma barreira.
A simplicidade de utilização, sem criação de conta, é uma aposta deliberada na massificação do serviço?
Sim, é deliberado. A criação de conta é um “custo cognitivo” – para muitos utilizadores é uma barreira, especialmente quando o uso é ocasional. Se queremos torná-lo amplamente acessível, temos de conceber o serviço em função do comportamento real das pessoas. Ao reduzir o processo ao essencial, aumentamos a acessibilidade e eliminamos um motivo comum de abandono.
A nova nave em Madrid representa um salto significativo de capacidade. Qual o impacto concreto desta infraestrutura na operação ibérica?
O impacto é imediato e mensurável: passamos a contar com um centro com 9.000m², com capacidade até 20.000 encomendas por hora, o que duplica a capacidade do anterior centro que processava cerca de 8.000 encomendas por hora. Mas mais importante do que a capacidade em si é o que essa capacidade nos permite fazer: absorver picos de procura com menor risco de congestionamento; melhorar os prazos de entrega; aumentar a estabilidade do serviço; e apoiar a expansão da rede e a integração de novos clientes sem comprometer a qualidade.
Além disso, o centro incorpora tecnologia avançada (cross-belt sorters), capaz de operar com mais de 86 destinos em simultâneo, o que aumenta a eficiência e reduz os tempos de processamento.
De que forma este hub reforça os prazos de entrega e a eficiência logística em Portugal?
Madrid funciona como um “hub central” da rede ibérica. Quando a distribuição e a consolidação são mais rápidas e mais estáveis, ganhamos em duas frentes: tempos de processamento mais curtos e maior frequência e previsibilidade nas ligações nas rotas Portugal-Espanha.
Por outras palavras, não é apenas “mais rápido”, é também mais consistente. E a consistência é o que mais pesa na experiência do consumidor e na confiança do retalhista.

A expansão física continua a ser prioritária ou a empresa prevê maior foco em tecnologia e otimização de rede?
A nossa abordagem é de “e” e não de “ou”. A expansão física continua a ser uma prioridade onde faz sentido, porque uma rede densa constitui uma vantagem competitiva, mas cada expansão é concebida com base em tecnologia, dados e otimização de fluxos. O exemplo do hub de Madrid ilustra bem esta estratégia: mais espaço, sim, mas sobretudo mais automação, melhor triagem e maior eficiência.
Como avalia o atual nível de concorrência no mercado ibérico de entregas fora de casa?
É um mercado altamente competitivo e em rápida evolução. Existem operadores estabelecidos, novos players e modelos híbridos. O que distingue a InPost é dispormos de uma rede europeia de grande escala, de um modelo OOH sólido e de uma capacidade de investimento sustentada.
A concorrência é positiva porque acelera a educação do consumidor e aumenta a adoção do OOH. Mas também exige disciplina: quem não tiver densidade e eficiência tende a apresentar custos mais elevados e um serviço menos estável.
Que tendências de e-commerce deverão moldar o desempenho da empresa em 2026?
Em 2026, acreditamos que o desempenho do setor será determinado por uma combinação entre a maturidade do e-commerce e a crescente sofisticação dos consumidores. O e-commerce já não se encontra numa fase inicial de adoção, é sim já um canal plenamente consolidado, transversal a gerações e categorias de produto. O que iremos assistir é a uma evolução qualitativa: maiores exigências ao nível da experiência pós-venda, prazos mais curtos, maior transparência no tracking e uma expectativa clara de flexibilidade na escolha do local e do momento de entrega.
Outra tendência decisiva será o crescimento contínuo do comércio transfronteiriço, impulsionado pelos grandes mercados internacionais. Esta evolução deverá intensificar-se, exigindo redes cada vez mais integradas e eficientes entre países. Para operadores como a InPost, que combinam uma rede densa de lockers com presença em múltiplos mercados europeus, este contexto representa uma oportunidade clara.
Por fim, a sustentabilidade deixará de ser uma questão reputacional para se tornar um critério operacional. Retalhistas e consumidores procuram soluções mais eficientes do ponto de vista ambiental, e os modelos out-of-home respondem bem a esta exigência ao reduzir tentativas falhadas e otimizar rotas de última milha. Em 2026, a eficiência logística e a sustentabilidade estarão cada vez mais interligadas.
Quais são as principais prioridades estratégicas para 2026 na Península Ibérica?
Na Península Ibérica, as nossas prioridades para 2026 passam, acima de tudo, por consolidar a infraestrutura que nos permite crescer de forma sustentável. A abertura do novo centro operacional em San Fernando de Henares é um exemplo claro de investimento em escala e eficiência, e o objetivo será maximizar essa capacidade, reforçando a estabilidade operacional e melhorando ainda mais os prazos de entrega, tanto em Espanha como em Portugal.
Em simultâneo, continuaremos a expandir e a densificar a rede de pontos fora de casa. A proximidade ao consumidor é um fator crítico para a adesão: quanto mais próxima e visível for a rede, maior será a sua utilização. Esta densificação será realizada de forma seletiva e orientada por dados, dando prioridade a áreas urbanas e zonas com elevado potencial de crescimento do e-commerce.
Outra prioridade estratégica será aprofundar a integração tecnológica com marketplaces e retalhistas, simplificando a experiência de seleção do ponto de entrega e reforçando a proposta de valor, especialmente para pequenas e médias empresas. Tirar partido das sinergias das aquisições e melhorar continuamente a experiência digital do consumidor será igualmente determinante para manter o ritmo de crescimento observado em 2025.
Que desafios operacionais ou macroeconómicos podem travar o ritmo de crescimento observado?
Estamos conscientes de que o contexto macroeconómico permanece incerto. Um abrandamento do consumo, associado a pressões inflacionistas ou a instabilidade geopolítica, poderá naturalmente afetar o ritmo de crescimento do e-commerce em determinados segmentos. Embora o e-commerce tenha demonstrado resiliência nos últimos anos, continua ligado ao poder de compra e à confiança dos consumidores.
O nosso objetivo é antecipar quaisquer riscos através de planeamento, automação e otimização da rede. Investir em centros mais eficientes, tecnologia de triagem e planeamento orientado por dados é a melhor forma de mitigar a volatilidade e proteger a qualidade do serviço.
Em termos de visão de longo prazo, como imagina a evolução do setor de entregas out-of-home nos próximos anos?
Acreditamos que o setor de entregas out-of-home se tornará um componente estrutural da logística urbana europeia. O crescimento registado em 2025, com 1,4 mil milhões de encomendas processadas pelo Grupo e a expansão contínua da rede de lockers, não é um fenómeno isolado, mas sim o reflexo de uma transformação profunda na forma como as cidades gerem a última milha.
A longo prazo, veremos redes cada vez mais densas e integradas em áreas urbanas, que funcionarão quase como infraestruturas públicas locais. Os lockers serão cada vez mais encarados como plataformas multifuncionais, integradas com devoluções, envios C2C, serviços locais e até soluções complementares de mobilidade urbana.
Ao mesmo tempo, a automação e a análise de dados desempenharão um papel central na otimização dos fluxos logísticos. Centros altamente automatizados, como o novo centro em Madrid, tornar-se-ão cada vez mais comuns, permitindo absorver volumes crescentes com maior eficiência e menor impacto ambiental.
Em suma, o futuro do out-of-home será definido por três eixos: proximidade, tecnologia e sustentabilidade. E acreditamos que a InPost está posicionada para continuar a liderar esta transformação na Europa e, naturalmente, na Península Ibérica.







