As empresas de bens de grande consumo (FMCG) estão a acelerar a reformulação das suas cadeias de valor em resposta ao aumento das tensões geopolíticas, das barreiras comerciais e da instabilidade regulatória, privilegiando estratégias de nearshoring, reshoring e diversificação multirregional. A conclusão é de um novo estudo da Euromonitor International, que identifica 2025 como um ponto de viragem estratégico para o sector.
De acordo com a consultora, riscos como as guerras comerciais, os conflitos militares, as crises logísticas no Mar Vermelho e as alterações regulatórias — em especial nas áreas da sustentabilidade e dos ingredientes alimentares — deixaram de ser choques temporários para se tornarem variáveis estruturais de gestão. Em 2025, 72,3% das empresas FMCG antecipou impactos moderados ou significativos decorrentes de alterações nas tarifas comerciais globais, num contexto em que a política tarifária dos Estados Unidos elevou as tarifas médias de importação de 3,3% para 22,4%.
De “China+1” para relocalização multidirecional
Antes de 2025, a principal resposta das empresas passava por uma lógica gradual de diversificação, conhecida como “China+1”, deslocando parte da produção para países do sudeste asiático ou para o México, no caso do mercado norte-americano.
O estudo indica que esta abordagem evoluiu para uma relocalização mais urgente e multidirecional, com um reforço de polos alternativos como o México, a Polónia, o Vietname, a Índia, a Turquia e o Brasil, sem abandono total da China, que continua a ser um hub industrial difícil de replicar devido à sua escala, eficiência e integração vertical.
A resposta estratégica das empresas está agora centrada em agilidade, flexibilidade e visibilidade da cadeia de abastecimento. Entre as soluções em destaque estão o nearshoring e o reshoring seletivos, ajustados aos mercados de consumo; o investimento em fábricas modulares, capazes de adaptar rapidamente a produção a novas categorias ou exigências regulatórias; e o maior recurso a automação, IoT e inteligência artificial para otimizar custos e reduzir dependências.
A Euromonitor aponta exemplos como a Unilever, que está a investir em fábricas inteligentes capazes de ajustar a produção entre categorias, e a Nestlé, que está a expandir unidades modulares no México e na Polónia.
Impacto macroeconómico
O agravamento das tensões comerciais está a pressionar os custos de produção e sourcing, ao mesmo tempo que introduz uma elevada incerteza no planeamento industrial. Segundo o modelo macroeconómico da Euromonitor, uma escalada adicional das tarifas poderá resultar numa perda acumulada de até 4,4 biliões de dólares, cerca de 4,05 biliões de euros, no Produto Interno Bruto global entre 2025 e 2026.
Este cenário está a levar as empresas a acelerar decisões que, em condições normais, seriam tomadas de forma gradual, antecipando os riscos futuros em vez de reagir a disrupções já consumadas.
Para a Euromonitor, a principal conclusão é clara: as cadeias de valor do grande consumo estão a ser redesenhadas para resistir e não apenas para otimizar custos. A transição de modelos reativos para estratégias de resiliência de longo prazo implica o investimento em visibilidade end-to-end da cadeia de abastecimento, capacidade de sourcing multirregional e flexibilidade produtiva e logística. Num contexto de pressão inflacionista, escrutínio regulatório e consumidores mais sensíveis a ruturas de abastecimento, estas decisões passam a ter impacto direto na competitividade, disponibilidade de produto e margens no retalho.







