Nas economias ocidentais, décadas de investimento em infraestrutura financeira criaram redes de pagamento, sistemas de crédito e mecanismos de poupança que a maioria das pessoas usa sem pensar. Em grande parte de África, da América do Sul e de partes da Ásia, essa infraestrutura é escassa, cara ou simplesmente inexistente. Para Luciano de Vries, a ausência de infraestrutura bancária é um ponto de partida.
O empreendedor holandês, sediado em Lisboa, tem uma tese clara sobre o futuro da banca nos mercados emergentes. A combinação de bancos digitais ao estilo da Revolut com pagamentos em blockchain e stablecoins vai tornar-se a infraestrutura financeira dominante nas regiões onde o sistema tradicional nunca chegou com força. E essa transição está a acontecer mais depressa do que a maioria dos observadores antecipa.
O problema que a blockchain resolve
A banca tradicional tem custos de estrutura que a tornam pouco rentável em mercados com rendimentos baixos e dispersão geográfica elevada. Agências físicas, cumprimento regulatório em múltiplas jurisdições, sistemas de processamento legados que custam centenas de milhões para manter. O resultado é uma exclusão financeira cujas raízes estão nos custos de oferta, não na falta de procura.
O blockchain muda essa equação.
Uma rede de pagamento descentralizada não precisa de agências. Um contrato inteligente não precisa de um operador de back-office. Uma stablecoin indexada ao dólar ou ao euro permite transferências transfronteiriças em segundos, sem os custos de conversão cambial que hoje consomem uma parte significativa das remessas enviadas por emigrantes às suas famílias. Para uma família no Senegal que recebe dinheiro de um familiar em Lisboa, a diferença entre uma transferência bancária convencional e uma transação em stablecoin pode representar vários pontos percentuais de perda.
Em África, o custo médio de uma remessa convencional ronda os 8% do valor transferido. Uma transação em stablecoin percorre o mesmo caminho por uma fração desse custo. De Vries vê nessa diferença o motor de adoção. Os utilizadores não precisam de compreender a tecnologia subjacente para a adotar. Precisam perceber que é mais barata e mais rápida. Esse argumento vende-se sozinho.
A fórmula que De Vries identifica
A tese de De Vries sobre o futuro da banca nos mercados emergentes tem dois componentes que se reforçam mutuamente.
O primeiro é a interface. Bancos digitais ao estilo da Revolut, sem agências físicas, operados por meio de aplicações móveis, com processos de abertura de conta que demoram minutos. Essa camada de interface resolve o problema do acesso. Qualquer pessoa com um telemóvel pode ter uma conta bancária ativa.
O segundo é a infraestrutura de liquidação. É aqui que o blockchain entra. A liquidação de pagamentos em redes blockchain é mais rápida, mais barata e menos dependente de acordos interbancários bilaterais do que os sistemas convencionais. As stablecoins, ao manterem paridade com moedas de reserva, eliminam a volatilidade que torna as criptomoedas convencionais pouco práticas para transações do dia a dia.
A combinação das duas camadas, interface digital acessível sobre uma infraestrutura de liquidação em blockchain, cria um sistema financeiro que pode ser implementado com uma fração do investimento necessário para replicar a banca tradicional.
Mercados onde a vantagem é maior
De Vries identifica três geografias onde esta transição tem mais força: África, América do Sul e partes da Ásia. O denominador comum é a fraqueza da infraestrutura bancária tradicional, combinada com a penetração crescente de telemóveis e de conectividade.
A África Subsaariana tem mais de trezentos milhões de contas de mobile money ativas. O Brasil tem um dos ecossistemas de pagamento digital mais desenvolvidos da América do Sul, com o sistema Pix a demonstrar que a adoção em massa é possível num país continental. Na América do Sul, mais de 70% das empresas já utilizam stablecoins para pagamentos transfronteiriços. A adoção está a acontecer sem esperar pela regulação. O Sudeste Asiático combina populações jovens, taxas de penetração de smartphones acima da média e mercados de remessas de dimensão relevante.
Em cada um destes contextos, o modelo Revolut-blockchain apresenta vantagens estruturais em relação à banca convencional. Chega mais barato, mais rápido e sem a herança de infraestrutura que torna os incumbentes lentos para se adaptar.
A janela do investidor
A escala da transição é visível nos dados. O volume de pagamentos em stablecoins cresceu acentuadamente nos últimos anos, com a adoção a acelerar precisamente nos mercados emergentes, onde a banca tradicional chegou mais tarde. De Vries olha para esta transição com a perspetiva de quem entrou em mercados antes da narrativa os alcançar. O mesmo padrão que identificou no imobiliário do Algarve, nos mercados africanos e no cânhamo industrial aplica-se aqui. A infraestrutura está a ser construída. A regulação está em transição. Poucos estão a prestar atenção.
Quem compreende a combinação antes de ela se tornar óbvia está posicionado para capturar o retorno que o mercado, quando chegar à mesma conclusão, já não oferecerá.







