Vinhas cobrem a adega moderna Marchesi Antinori, com a inscrição «Antinori nel Chianti Classico» Foto Simona Bottone / Shutterstock.com

Roubo de vinho premium ganha escala na Europa e expõe novo risco para produtores e distribuição

O assalto à Marchesi Antinori, na Toscana, ganhou dimensão internacional pela escala do prejuízo, mas encaixa numa sequência recente de roubos muito direcionados a produtores e stocks de vinho premium.

No caso da Antinori, pelo menos sete homens mascarados terão desativado os sistemas de segurança e usado os próprios empilhadores da empresa para carregar dois camiões com cerca de 30 mil garrafas de Solaia, Tignanello e Guado al Tasso, num prejuízo estimado em cinco milhões de euros.

A Reuters nota que o episódio sucede a outros roubos de grande escala em Itália e que a própria empresa considera estar perante um grupo altamente organizado.

Banfi perdeu mais de 3.000 garrafas em junho

Em junho, a Banfi, no Piemonte, foi alvo de um roubo de mais de três mil garrafas de Alta Langa DOCG, incluindo Cuvée Aurora, Cuvée Aurora Rosé e Riserva 100 Mesi.

A empresa considerou que a seleção de paletes inteiras e referências específicas indicava conhecimento prévio sobre os produtos e a organização do armazém.

Segundo a Banfi, as garrafas estavam identificadas e eram potencialmente rastreáveis ao longo da cadeia, precisamente para dificultar a comercialização fora dos canais oficiais.

Conterno Fantino perdeu 3.000 garrafas de Barolo em setembro

Poucos meses depois, na noite de 16 para 17 de setembro, quatro homens mascarados entraram na Conterno Fantino, em Monforte d’Alba, e levaram pouco mais de três mil garrafas de Barolo das colheitas de 2021 e 2022.

Entre as referências estavam vinhos de maior valor, incluindo Vigna Sorì Ginestra e formatos magnum e jeroboam. O prejuízo foi estimado em centenas de milhares de euros.

Tal como no caso Antinori, os autores mostraram conhecimento operacional: usaram empilhadores e veículos da própria adega e atuaram durante várias horas com movimentos coordenados.

Romanée-Conti roubado em três minutos em Milão

Os roubos não se limitam a produtores. Em junho, dois homens disfarçados de trabalhadores da construção entraram no restaurante L’Affinatore, em Milão, e levaram 19 garrafas de Domaine de la Romanée-Conti avaliadas em cerca de 280 mil euros.

A operação durou menos de três minutos e os ladrões dirigiram-se diretamente às garrafas pretendidas, deixando outros vinhos de elevado valor para trás.

O caso reforça uma característica recorrente: os autores parecem conhecer antecipadamente o que procurar e onde encontrar os produtos de maior valor.

Valor elevado, dimensão reduzida e mercado internacional

O vinho premium reúne várias características que ajudam a explicar o interesse crescente. Uma única garrafa pode valer centenas ou milhares de euros, ocupa pouco espaço, é relativamente fácil de transportar e pode manter valor durante muitos anos.

Ao contrário de outros bens roubados, determinados vinhos têm ainda um mercado secundário internacional, envolvendo colecionadores, restaurantes, garrafeiras especializadas e leilões.

A imprensa italiana tem descrito este tipo de produto como uma espécie de “ouro vermelho”, precisamente pela combinação entre valor elevado e facilidade de armazenamento e movimentação.

O paradoxo: quanto mais raro, mais difícil de vender

Mas o elevado valor das garrafas cria também um problema para quem as rouba. Referências como Solaia, Tignanello, Barolo de produtores reconhecidos ou Romanée-Conti têm volumes de produção relativamente limitados, redes de distribuição conhecidas e, em muitos casos, mecanismos de rastreabilidade.

Quando milhares de unidades aparecem subitamente fora dos circuitos habituais, o risco de deteção aumenta. Por isso, após os roubos, produtores como Antinori, Banfi e Conterno Fantino apelaram a distribuidores, clientes e profissionais para desconfiarem de ofertas anómalas, preços demasiado baixos ou mercadoria sem documentação clara.

Tradicionalmente, a rastreabilidade no vinho premium está associada a autenticidade, origem, controlo de qualidade e combate à contrafação. Os casos recentes mostram que passa também a desempenhar uma função de segurança patrimonial e proteção da cadeia de distribuição. Números de lote, registos de expedição, bases de dados de garrafas e identificação das referências podem permitir reconhecer produto furtado quando reaparece no mercado. A Banfi afirmou precisamente que o investimento realizado na rastreabilidade das suas principais referências poderia ser determinante para dificultar a revenda.

Adegas e armazéns tornam-se alvos

Outro elemento relevante é a mudança do local do crime. Durante anos, muitos dos casos mais conhecidos de roubo de vinho envolveram restaurantes, garrafeiras privadas e coleções de poucas dezenas de garrafas extremamente raras.

Os casos Antinori, Banfi e Conterno Fantino mostram uma deslocação para armazéns e instalações produtivas, onde existe acesso a volumes muito superiores.

Isso aproxima estes crimes de operações logísticas organizadas: é necessário selecionar referências, movimentar paletes, operar equipamentos e garantir transporte suficiente para retirar milhares de garrafas.

Para produtores e distribuidores, o desafio deixa de estar apenas na proteção física das instalações. Os roubos recentes colocam questões sobre
controlo de acessos, videovigilância, alarmes, localização dos stocks de maior valor, rastreabilidade, segurança dos transportes e partilha rápida de informação com distribuidores e clientes.

Também aumenta a importância de cruzar segurança física com dados de inventário, permitindo perceber rapidamente que lotes desapareceram e alertar o mercado.

Mercado paralelo é o elo decisivo

O verdadeiro sucesso de um roubo desta dimensão depende, em última análise, da possibilidade de colocar o produto no mercado. É aí que produtores, distribuidores, restaurantes, garrafeiras, leiloeiras e plataformas especializadas podem desempenhar um papel determinante.

Quanto maior for a circulação de informação sobre referências roubadas, lotes, formatos e safras, mais difícil se torna introduzir milhares de garrafas premium num canal legítimo sem levantar suspeitas.

O caso Antinori é, por isso, mais do que um episódio de criminalidade empresarial. É um sinal de que o valor crescente do vinho premium está a criar novos riscos para toda a cadeia, desde a adega até ao consumidor final.

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