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Pandemia leva 1,5% das vendas no sector do retalho português

Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral APED

2020 foi um ano complicado, com níveis diferentes de desafios. O PIB desceu 7,6%, o consumo privado caiu 5,9% e os indicadores de confiança, quer para os consumidores, quer para o comércio a retalho, ficaram em níveis muito desinteressantes. Todo este enquadramento económico teve impacto nas vendas a retalho em Portugal”.

Foi deste modo que Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, começou por analisar o ano de 2020, no âmbito da apresentação do Barómetro de Vendas APED. Um exercício no qual o volume de vendas no sector do retalho decresceu 1,5%, face ao ano anterior, atingindo os 22.653 milhões de euros.

O porta-voz do sector do retalho considera que, num ano fortemente condicionado pelas limitações impostas pela pandemia de Covid-19, não constitui grande surpresa que o retalho alimentar tenha crescido mais de 8% e o retalho especializado registado uma queda de quase de 18%. De facto, os dados da APED confirmam esta como a área mais penalizada, registando uma variação global de menos 17,7% no volume de vendas, que foi ainda mais negativa em mercados específicos, como o do vestuário, com quebras de 32,5%. Já o retalho alimentar apresentou um aumento de 8,1% do volume de vendas.

 

Categorias

Neste segmento, a categoria de produto que registou maior crescimento foi a dos congelados, com um aumento de 17,6%, explicado pelas contingências trazidas pela pandemia. Nota ainda para o crescimento da área de bazar ligeiro, com um aumento de 16,6%, da mercearia, com 11,6%, e dos perecíveis, com 11,5%. “Os portugueses encontraram-se em confinamento, o teletrabalho foi a solução encontrada para controlar pandemia e todos os novos hábitos de vida levaram a um certo armazenamento de produtos. Os congelados, numa ótica de conveniência, e o maior investimento em frescos devido às alterações nos hábitos de consumo”, analisa.

Em 2020, a quota de mercado de marca própria no retalho alimentar foi de 35,1%, um aumento de 1,4 pontos percentuais face ao registado em 2019. “Ainda que ligeiro, reflete a confiança dos consumidores nas MDD, o que também resultou do investimento dos associados APED nesta área”, defende.

No retalho especializado, o volume de vendas foi de 7.032 milhões de euros, com o mercado de informática a ser o que mais cresceu, com um aumento de 23,1% e uma maior procura por produtos como computadores portáteis (31,1%) e tablets (25,5%). Outro mercado em evidência foi o dos pequenos eletrodomésticos, com 20,2%, com crescimento em produtos como aspiradores (29,4%), preparação de alimentos (24,7) e máquinas de bebidas (23,9%). Em sentido contrário esteve a venda de smartphones, com uma variação negativa de 6,5%, de livros, com menos 16,6%, e de consolas, com menos 3,8%. “No retalho especializado, a pandemia, por um lado, mudou os hábitos das famílias e, por outro, refletiram-se as circunstâncias do encerramento das lojas. Este segmento foi fustigado por medidas que entendemos, do ponto de vista da saúde pública, mas com um impacto tremendo nas operações, o que teve um reflexo direto no volume vendas. O vestuário teve perdas acima dos 30%, resultado do facto dos espaços terem estado fechados. O online não resolveu o problema neste segmento específico, onde experiência de compra, sobretudo em loja, é fundamental. Merece uma reflexão futura, a bem da sustentabilidade destas empresas”, destaca.

 

“O vestuário teve perdas acima dos 30%, resultado do facto dos espaços terem estado fechados. O online não resolveu o problema neste segmento específico, onde experiência de compra, sobretudo em loja, é fundamental. Merece uma reflexão futura, a bem da sustentabilidade destas empresas”

 

Online

Num período em que o comércio eletrónico ganhou um novo impulso, por força das circunstâncias, o Barómetro de Vendas APED indica que o seu peso no total das vendas do retalho alimentar foi de 3%, mas o diretor geral da APED admite que este valor possa, até, ser mais elevado. “Os dados relativos ao online no alimentar são-nos dados pela Kantar, que se baseia num painel de consumidores. Ainda não apurámos este valor com base na informação dos nossos associados, mas em números absolutos, extravasando o painel, é natural que crescimento tenha sido superior”, considera.

Já no retalho especializado, o peso do online no total de vendas foi de 14,9%. “Estamos a falar de consumidor que tem outra apetência para lidar com o e-commerce. Há áreas onde a experiência de compra já se torna mais simples para este tipo de bens, mas o vestuário ainda vive muito da experiência em loja”, nota.

Gonçalo Lobo Xavier não tem dúvidas de que o e-commerce veio para ficar e destaca o investimento significativo das insígnias numa solução criativa para dar resposta às necessidades dos portugueses. “O retalho alimentar foi alvo de muita pressão, no primeiro confinamento, e houve um grande investimento por parte dos retalhistas. Em Portugal, medimos meças com tudo o que de melhor se faz no mundo. Por todo o lado, houve plataformas que ‘crasharam’. Quer a Amazon, quer a Tesco tiveram de suspender, durante algumas semanas, o online no alimentar para reequilibrar os processos e a logística e dar resposta às necessidades de consumo. Em Portugal, passou-se o mesmo nível de procura, com a diferença de que as nossas plataformas estavam mais bem preparadas para responder. O grande desafio foi adequar o grande débito de procura com a logística e distribuição”.

Atualmente, o online tem estabilizado em níveis muito interessantes, com retalhistas a reportarem crescimentos na ordem dos 50% a 60%. “A APED fez um estudo, focado no ano de 2019, que indicava que, em Portugal, 85% das compras online é feito em plataformas internacionais. Ainda não apurámos o valor de 2020, mas cremos que a quota das plataformas nacionais cresceu, o que diz bem do investimento que os operadores portugueses têm feito na sua digitalização. É, sem dúvida, uma área de negócio em crescimento e onde as empresas têm apostado e vão continuar a apostar”.

 

Resiliência

O diretor geral da APED considera que os números de 2020 mostram um sector resiliente e que, apesar das dificuldades impostas pela pandemia, continuou a investir e a criar emprego. Em termos líquidos, a APED cresceu em número de associados, totalizando 168, detentores de 4.126 lojas. Em 2020, somaram-se mais 45 novos pontos de venda, por contraponto aos 36 encerramentos. O retalho alimentar abriu 30 novos espaços e o especializado 15. “Trata-se de um indicador micro, mas, num ano tão difícil e complexo, que pôs em causa a sustentabilidade dos negócios, sobretudo do retalho especializado, estes operadores continuaram a abrir mais 15 espaços e fecharam quatro, que tiveram que ver com reestruturações e com a saída de um operador internacional por opção estratégica. Enquanto sector, tentámos responder, da melhor maneira, ao mercado e às necessidades que os portugueses tiveram durante pandemia. Investimos milhões e milhões de euros na segurança das lojas, dos colaboradores e dos consumidores. É um investimento que não está contabilizado, mas que rondará cerca de 2% a 3% acrescidos ao orçamento previsto para 2020 pelos retalhistas. Muitas vezes, pode-se pensar que houve crescimentos enormes na faturação de alguns segmentos do retalho, mas não podemos esquecer da componente dos custos e do acréscimo de investimentos associados à pandemia”, sublinha.

 

Impacto das medidas

Para a associação, a realidade apresentada pelo Barómetro de Vendas APED sustenta, com dados concretos, os alertas que tem vindo a fazer, ao longo dos últimos meses, sobre o impacto que as sucessivas medidas de restrição impostas ao retalho estão a causar na sustentabilidade do sector. “Chegados a final de março de 2021, olhando para o futuro, deveríamos pensar e repensar um tema em que insistimos muito na APED, que é o do rácio de pessoas em loja, neste momento de saúde pública. Temos, em Portugal, o índice mais baixo de clientes em loja, cinco pessoas por cada 100 metros quadrados, sem paralelo com outros Estados-membro, mesmo países com outro índice de transmissão do vírus. No mínimo, têm o dobro do que existe em Portugal. Não vemos razão para se insistir numa questão que, por um lado, põe em causa a sustentabilidade dos negócios e, por outro, não tem tradução com a realidade e a necessária salvaguarda da saúde pública, onde somos os primeiros a querer que tudo corra bem. Não é nos espaços comerciais que há transmissão de vírus. O que pode levar à transmissão de vírus é insistir na teimosia. As lojas fizeram investimentos para poder receber clientes e o que se verifica é que, em dias de muita afluência, têm filas à porta, um aglomerado de pessoas que não é controlado por nós. Resolvia-se aumentando o rácio de pessoas em loja, mantendo a eficiência e eficácia de proteção do consumidor e dos colaboradores, que são o nosso maior ativo”.

 

“Temos, em Portugal, o índice mais baixo de clientes em loja, cinco pessoas por cada 100 metros quadrados, sem paralelo com outros Estados-membro, mesmo países com outro índice de transmissão do vírus. No mínimo, têm o dobro do que existe em Portugal. Não vemos razão para se insistir numa questão que, por um lado, põe em causa a sustentabilidade dos negócios e, por outro, não tem tradução com a realidade e a necessária salvaguarda da saúde pública, onde somos os primeiros a querer que tudo corra bem. Não é nos espaços comerciais que há transmissão de vírus”

 

Questionado sobre que rácio seria aceitável, o diretor geral da APED adianta que tudo o que fosse acima de sete pessoas por 100 metros quadrados já daria um sinal muito interessante para o mercado e reitera que é importante que este aumento se processe o mais rapidamente possível. “Existe uma grande ansiedade no sentido de responder ao eventual acréscimo de consumidores, gerado pelo desconfinamento. As pessoas vão querer abastecer-se de produtos de que há muito não têm acesso, porque online não responde a todas a necessidades. No caso do vestuário, por exemplo, em janeiro e fevereiro, os saldos e promoções têm um peso grande no escoamento de coleções e stocks e isso, em 2021, não aconteceu. Mesmo com períodos de venda ao postigo e opções de ‘click and collect’, ficou muito aquém do desejável. Temos procurado sensibilizar o Ministério da Economia para a necessidade de um desconfinamento equilibrado, que venha ao encontro do que é preciso para manter os negócios abertos, com o aumento do rácio de pessoas em loja e acabar com algumas limitações de horários. Abril e maio deverão ser meses de recuperação, que deverão permitir às empresas planear. Por agora, ainda há muita incerteza”.

Sobre o impacto da proibição da venda roupa e livros nos hipermercados, a APED confirma ser grande. “Há associados que referem que este tipo de categoria de produto pesa em 30% a 40% do espaço físico, em certas lojas. Confinando este espaço, claro que há efeitos na faturação. Foi-nos explicado que a decisão de proibição tinha a ver com aspetos concorrenciais. Temos alguma dificuldade em entender, mas aceitamo-la. Temos a expectativa de que seja revista, na próxima semana”.

Gonçalo Lobo Xavier nota que, fechando a possibilidade de venda de roupa e de livros nos hipermercados, muitas zonas do país deixaram de ter acesso a determinados produtos. “Será que, do ponto de vista da concorrência, foi assim tão interessante? Não deu azo a que se comprasse em plataformas internacionais, deixando o país de poder beneficiar do pagamento de impostos?  Não teremos desviado os consumidores para as grandes plataformas internacionais?”, questiona.

 

Esperança

O sentimento é, então, de esperança de que, na próxima semana, haja melhores notícias para o retalho especializado, com mais alguns espaços abertos a partir de 5 de abril. No entender de Gonçalo Lobo Xavier, não é apenas possível esperar que as empresas se mostrem resilientes e, para a economia recuperar, são precisos estímulos, não só financeiros, mas de enquadramento de regras que sejam equilibradas do ponto de vista da saúde pública e da economia. “Estamos sempre preparados para acatar todas as decisões e queremos estar sempre do lado da solução, mas pedimos planeamento. É impossível a qualquer empresa, independentemente da sua dimensão ou área de negócio, planear sem base minimamente aceitável e credível. Anunciar medidas a uma quinta-feira, do ponto de vista macro, e esperar por um decreto que sai no sábado, para entrarem em vigor na segunda-feira, é muito complicado. Temos colaboradores, horários para cumprir, planear os espaços das lojas, acatar em quase 24 horas alterações de layout. Isto cria, naturalmente, uma pressão que não se justifica. Não é possível só nos darem esclarecimento quase à meia noite de sábado ou os despachos serem tão dúbios na sua redação que obrigam a uma interação com as autoridades, para se perceber o alcance das medidas impostas. Precisamos de mais clareza, melhor planeamento e redação dos despachos, para que não haja dúvidas e ter de discutir com as autoridades a sua interpretação. Muitas vezes, o que estava no espírito da lei não está vertido para a lei. Em bom rigor, temos tido uma boa interação com a ASAE na procura de esclarecer, em tempo útil, para evitar males maiores. Mas, em todo o país, já houve problemas com as autoridades que, embora tenham sido resolvidos, levaram ao encerramento de lojas e que podiam ser evitados”.

 

“Não é possível só nos darem esclarecimento quase à meia noite de sábado ou os despachos serem tão dúbios na sua redação que obrigam a uma interação com as autoridades, para se perceber o alcance das medidas impostas. Precisamos de mais clareza, melhor planeamento e redação dos despachos, para que não haja dúvidas e ter de discutir com as autoridades a sua interpretação. Muitas vezes, o que estava no espírito da lei não está vertido para a lei”

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