Homem de fato, com braços cruzados, em ambiente de escritório moderno com vários computadores e secretárias ao fundo, transmitindo uma postura confiante e profissional. Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting
Mercado

“Fundos comunitários não são ‘dinheiro fácil’. São contratos com obrigações”

Os fundos comunitários continuam a ser uma das principais alavancas de investimento das empresas portuguesas, mas o acesso nem sempre se apresenta simples. Entre complexidade técnica, desalinhamento estratégico e exigências na execução, muitos projetos ficam pelo caminho. Para Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting, consultora de gestão especializada no apoio ao investimento e à capitalização das empresas através de incentivos financeiros e benefícios fiscais, a diferença está na preparação, na disciplina e na forma como as empresas integram os incentivos numa estratégia de investimento sustentada.

Os fundos comunitários são frequentemente apresentados como uma oportunidade estratégica para as empresas portuguesas, mas também como um verdadeiro labirinto burocrático. De forma resumida, onde identifica hoje os principais bloqueios no acesso a estes instrumentos?

Os principais bloqueios surgem em três frentes. Primeiro, a complexidade técnica e a fragmentação, já que os avisos, as regras dispersam-se por diferentes entidades e programas, o que obriga a leitura fina e comparações constantes. Depois, o tema do timing, porque muitos projetos nascem com urgência empresarial, mas os avisos têm janelas e ritmos próprios. Por fim, a capacidade interna das Pequenas e Médias Empresas (PME), onde faltam, muitas vezes, recursos para preparar e sustentar um projeto durante meses ou anos sem pôr o dia a dia do negócio em risco.

É por isso que defendemos uma abordagem integrada que cruza fundos comunitários e benefícios fiscais. Quando o incentivo financeiro não encaixa a 100%, os benefícios fiscais podem equilibrar o plano de investimento e reduzir a pressão sobre tesouraria.

Na sua experiência, o maior obstáculo está na candidatura, na execução ou na fase de controlo e auditoria?

A candidatura tem visibilidade e cria ansiedade, mas os maiores obstáculos surgem, no início, aquando da definição da estratégia do projeto e alinhamento com as regras dos concursos e, após a candidatura, na execução e no controlo.

A candidatura é um momento, mas os seus objetivos e a execução são fases críticas onde aparecem as dificuldades reais: diferenciação do projeto, alinhamento com as prioridades dos instrumentos de financiamento, compras e contratação com regras específicas, gestão documental, prazos, metas, alterações ao projeto, pedidos de pagamento e a consistência de evidências.

Na prática, muitos projetos caem não por falta de mérito, mas por falta de método. E método, aqui, significa monitorização, gestão de risco e disciplina de evidência desde o primeiro dia.

Muitas PME continuam a não se candidatar por receio de complexidade ou risco de incumprimento. Este receio é justificado?

O receio é compreensível e em parte é justificado. Fundos comunitários não são “dinheiro fácil”. São contratos com obrigações. Dito isto, o risco não é um destino. É uma variável que se gere.

Quando uma PME entra com uma estrutura mínima de gestão do projeto, com documentação organizada, com regras de contratação claras e com uma articulação inteligente entre fundos comunitários e benefícios fiscais, o risco reduz-se de forma significativa. A diferença está na preparação e na disciplina.

A burocracia é apenas administrativa ou existe também uma falta de cultura estratégica na forma como as empresas encaram os incentivos?

Existe burocracia administrativa, sem dúvida. Mas existe também um bloqueio cultural: a tendência para olhar para incentivos como um fim em si mesmo, em vez de uma alavanca ao serviço da estratégia.

Quando uma empresa pensa “vou candidatar-me a isto porque há aviso”, entra num ciclo reativo. Quando pensa “quero investir nisto e, agora, vou escolher o melhor mix entre fundos comunitários e benefícios fiscais”, entra num ciclo estratégico. Parece uma nuance. É um abismo.

De que forma a Yunit ajuda a transformar um aviso técnico num projeto empresarial estruturante?

A Yunit Consulting começa pelo negócio, não pelo formulário. Traduzimos o aviso para linguagem de gestão e transformamos requisitos em decisões: o que faz sentido investir, o que é elegível, qual o impacto na operação, como se mede sucesso e que riscos existem.

Depois, estruturamos o projeto com objetivos claros, cronograma, orçamento, indicadores e governance. E aqui entra o nosso diferencial: articulamos fundos comunitários e benefícios fiscais para maximizar a viabilidade financeira e reduzir a fricção de tesouraria, sem perder o foco na transformação.

Exemplo de cliente: a Corkart assume de forma muito clara que o core business não é fazer candidaturas e que esse trabalho deve ficar com quem tem know-how, com a Yunit a acompanhar todo o processo e a apoiar a estratégia de inovação e internacionalização.

“Na prática, muitos projetos caem não por falta de mérito, mas por falta de método. E método, aqui, significa monitorização, gestão de risco e disciplina de evidência desde o primeiro dia”

Qual é a diferença entre preparar uma candidatura e desenhar uma estratégia de investimento sustentada por fundos europeus?

Preparar uma candidatura é montar um dossiê sólido e tecnicamente correto para um aviso específico. Desenhar uma estratégia de investimento sustentada é muito mais amplo: é olhar para 24 a 48 meses de prioridades do negócio e decidir o mix ideal entre investimento próprio, banca, fundos comunitários e benefícios fiscais.

Uma candidatura pode ser “ganha” e, ainda assim, o projeto falhar por falta de capacidade de execução. Uma estratégia bem desenhada antecipa recursos, define compromissos realistas e constrói resiliência financeira.

Como garantem que um projeto financiado não é apenas oportunista, mas verdadeiramente transformador para a empresa? Que tipo de acompanhamento fazem após a aprovação e por que é essa fase muitas vezes a mais crítica?

Garantimos transformação com três mecanismos muito claros. Primeiro, definimos um “antes e depois” mensurável, com indicadores operacionais e financeiros que permitam avaliar impacto real no negócio. Segundo, desenhamos um modelo de governance com responsabilidades atribuídas e rotinas de monitorização. Terceiro, articulamos a execução com benefícios fiscais, quando aplicável, para reforçar liquidez e assegurar continuidade do investimento.

A fase pós-aprovação é crítica porque o projeto sai do papel e entra na operação. É aí que surgem atrasos, revisões de investimento, dificuldades na recolha de evidências e pressão de tesouraria. Sem método e disciplina, o risco aumenta. Com acompanhamento estruturado, o projeto consolida-se e transforma-se num ativo estratégico.

Como referência, no âmbito do Portugal 2020, na fase de execução e encerramento dos projetos que receberam estes fundos, tivemos uma taxa de 100% de sucesso no fecho destes projetos. Isto mostra como estamos ao lado das empresas em todo o processo, apoiando toda a execução, para garantir o sucesso em todas as fases do projeto e não apenas na submissão da candidatura. Como exemplo, deixo o testemunho do CFO da Carmo Wood, que refere que “nunca tiveram um projeto negado” e descreve uma taxa de sucesso total no histórico de projetos trabalhados, o que ilustra bem a importância do acompanhamento e do rigor na execução.

Estamos a assistir a uma verdadeira modernização do tecido empresarial português através dos fundos europeus ou há ainda um desfasamento entre intenção e execução?

Existe modernização real, mas a duas velocidades. Há empresas que utilizam fundos comunitários e benefícios fiscais para modernizar processos, automatizar operações, reforçar eficiência energética e consolidar presença internacional. Noutras situações, os projetos limitam-se ao cumprimento mínimo exigido.

O desfasamento surge quando o incentivo dita o investimento. A boa notícia é que, quando uma empresa usa fundos comunitários e benefícios fiscais como instrumentos de estratégia, a execução tende a acompanhar a intenção.

Que áreas estão hoje a concentrar maior procura: digitalização, sustentabilidade, internacionalização, automação?

As quatro áreas têm procura forte, mas a tendência mais consistente surge em dois eixos que se cruzam. Um eixo digital, com modernização de sistemas, dados e processos. Um eixo verde, com eficiência energética, descarbonização e economia circular.

No meio, aparecem projetos híbridos, onde a digitalização serve a sustentabilidade, por exemplo, melhoria da eficiência energética com análise de dados, ou redução de desperdício com melhoria de previsão de procura.

No sector do retalho e bens de grande consumo, que tipo de investimentos têm maior impacto competitivo?

No retalho e grande consumo, o impacto competitivo costuma surgir onde existe fricção diária e margem curta. Destaco cinco tipos de investimento com efeito imediato e estrutural: cadeia de abastecimento e inventário, com previsões, reposição, redução de ruturas e quebra; dados e inteligência comercial, com visibilidade de margem; experiência omnicanal, com integração loja, e-commerce e operações; automação e produtividade, em armazém e backoffice; eficiência energética, sobretudo em refrigeração e equipamentos intensivos

Exemplo de cliente: a Zone Soft, líder em software de faturação e POS para restauração e retalho, evidencia como os benefícios fiscais via SIFIDE libertam recursos para reinvestimento contínuo em I&D, o que se traduz em inovação num mercado exigente.

“Existe modernização real, mas a duas velocidades. Há empresas que utilizam fundos comunitários e benefícios fiscais para modernizar processos, automatizar operações, reforçar eficiência energética e consolidar presença internacional. Noutras situações, os projetos limitam-se ao cumprimento mínimo exigido”

É possível medir o retorno real (ROI) de um projeto financiado? Que indicadores utilizam?

Sim, é possível, e necessário. Um projeto com fundos comunitários e benefícios fiscais tem dois retornos que convivem: o retorno económico-operacional e o retorno financeiro-fiscal.

Indicadores típicos que usamos, consoante o sector, incluem crescimento de faturação e margem bruta; produtividade por colaborador e por hora; lead time, nível de serviço e ruturas; rotação de stock e redução de desperdício; eficiência energética; capacidade instalada e utilização; exportações, número de mercados e diversificação de clientes; retorno fiscal, quando aplicável, via benefícios fiscais como SIFIDE ou RFAI. Sem métricas claras, o incentivo perde significado estratégico.

Que erros continuam a ser cometidos pelas empresas quando tentam aceder sozinhas aos fundos? Há risco de dependência estrutural dos incentivos públicos?

Os erros mais comuns incluem subestimação do esforço documental, falhas na elegibilidade de despesas, alterações não formalizadas ao projeto e ausência de planeamento financeiro adequado.

Quanto à dependência, existe risco quando os incentivos substituem competitividade estrutural. Fundos comunitários e benefícios fiscais devem acelerar investimento estratégico, nunca compensar fragilidade estrutural.

Por último, é fundamental que a estratégia do projeto esteja alinhada com aquilo que são as prioridades fundamentais de cada uma das linhas de financiamento. Os objetivos de cada sistema de incentivos são claros, e não vale a pena tentar submeter projetos que não tenham enquadramento nesses mesmos objetivos, por muito que possam ser projetos interessantes e válidos.

O nível de exigência técnica e financeira tem vindo a aumentar? As PME estão preparadas para esse novo patamar?

O nível de exigência aumenta, em especial no rigor de execução, na necessidade de indicadores, na rastreabilidade de despesas e nas componentes digital e climática.

As PME estão num caminho de adaptação. Algumas já estão muito preparadas. Outras precisam de reforço de competências, processos e disciplina financeira. É aqui que a consultoria, quando bem feita, não substitui a empresa. Cria capacidade, método e confiança, e cruza fundos comunitários e benefícios fiscais para dar sustentabilidade ao investimento.

Como avalia a articulação entre financiamento público e banca comercial no apoio ao investimento empresarial?

A articulação é necessária, mas nem sempre simples. O financiamento público raramente cobre 100% e a banca entra como cofinanciamento, pré-financiamento ou linha ponte. Quando existe aprovação de fundos comunitários, a banca tende a olhar com mais conforto para o risco, mas pede previsibilidade de execução e robustez de tesouraria.

O melhor cenário surge quando a empresa tem um plano financeiro integrado, com incentivos, banca e benefícios fiscais alinhados no tempo. Quando essa sincronização falha, o projeto paga o preço.

A iniciativa Heróis PME destaca empresas que conseguiram transformar contextos adversos em oportunidades de crescimento. Que características comuns encontra nas empresas que conseguem executar com sucesso projetos financiados?

A iniciativa Heróis PME nasce para celebrar coragem, força e visão empresarial, com impacto em emprego e riqueza no país.

As empresas que executam projetos com fundos comunitários com sucesso partilham liderança clara, disciplina financeira, foco estratégico e capacidade de decisão rápida.

Não seguem incentivos por impulso. Integram fundos comunitários e benefícios fiscais numa visão de médio prazo. Investem em pessoas, reforçam competências e mantêm rigor na execução.

O novo ciclo de fundos (Portugal 2030 e PRR) é mais exigente do que os anteriores? Que tipo de empresas estarão melhor posicionadas para aproveitar o próximo ciclo de incentivos?

O PRR tem uma pressão temporal muito superior, com período de execução até 2026, o que encurta margens de erro.

Já o Portugal 2030 estrutura-se através de vários programas, com cobertura temática e regional, o que cria oportunidades, mas também exige leitura estratégica para escolher o “encaixe” certo.

As empresas melhor posicionadas são as que apresentam três coisas: capacidade de execução, robustez financeira e uma estratégia clara de transformação. E, de preferência, as que encaram fundos comunitários e benefícios fiscais como um portefólio de financiamento, e não como um evento.

As exigências em matéria de transição digital e climática estão a gerar transformação estrutural ou apenas projetos para cumprir requisitos?

As duas realidades coexistem. Há projetos “de check”, com impacto limitado. Mas há também transformação estrutural, sobretudo quando a empresa liga o digital ao modelo operacional e a componente climática ao custo total e ao posicionamento de mercado.

No retalho e grande consumo, por exemplo, eficiência energética não é apenas ESG. É margem. E dados não são apenas software. São decisão.

As empresas mais bem posicionadas são as que apresentam três coisas: capacidade de execução, robustez financeira e uma estratégia clara de transformação. E, de preferência, as que encaram fundos comunitários e benefícios fiscais como um portefólio de financiamento, e não como um evento

Se pudesse deixar uma mensagem clara às PME portuguesas sobre o acesso a fundos comunitários, qual seria?

A mensagem é simples, mas exige coragem para a cumprir. Não corram atrás do incentivo. Corram atrás da vossa estratégia, e depois escolham o melhor mix entre fundos comunitários e benefícios fiscais para a executar com rigor.

E acrescento uma nota. Existe um volume enorme de medidas e, sem orientação, é fácil deixar dinheiro na mesa ou incorrer em risco por desconhecimento.

Num contexto de pressão de custos, concorrência internacional e transformação tecnológica acelerada, os fundos europeus são hoje uma ferramenta complementar ou uma peça central na estratégia de crescimento das empresas portuguesas?

Depende do ponto de partida e do sector, mas a resposta mais honesta é esta: para a maioria das PME, fundos comunitários e benefícios fiscais são uma ferramenta complementar com poder de aceleração. A peça central continua a ser o produto, a operação, a equipa e o cliente.

Dito isto, em ciclos de investimento intensivo, como digitalização profunda, automação, eficiência energética ou inovação de produto, os fundos comunitários e benefícios fiscais podem tornar-se a ponte entre intenção e execução. Sem essa ponte, muitos investimentos ficam na gaveta. Com essa ponte, passam para o terreno e, aí sim, o crescimento deixa de ser promessa e passa a ser resultado.

PUB - CA_EmpresasPlus1_Grande Consumo 700x300px
PUB - CA_EmpresasPlus1_Grande Consumo 700x300px
Siga-nos em sidebar-1