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Consumidor mais seletivo pressiona margens do retalho e têxtil

Consumidores mais seletivos e custos elevados pressionam margens e liquidez, num cenário de risco sensível para os dois setores

Cerca de quatro em cada cinco consumidores a nível global estão a optar por produtos mais baratos, enquanto setores como o retalho e o têxtil enfrentam custos elevados, maior concorrência, tarifas e riscos acrescidos de inventário. No Sector Atlas 2026, a Allianz Trade classifica ambos como setores de risco sensível, alertando que a resiliência das vendas pode esconder uma deterioração das margens e da liquidez.

O estudo analisa o risco setorial em 17 setores, avaliando quatro dimensões principais: procura, rentabilidade, liquidez e ambiente de negócio. A metodologia da Allianz Trade mede o risco de não pagamento das empresas a partir de dados internos, fontes externas e análise especializada, classificando os setores numa escala de quatro níveis: baixo risco, risco médio, risco sensível e risco elevado.

No retalho, a Allianz Trade identifica um consumidor que continua a gastar, mas de forma diferente. A procura não desapareceu, mas está a deslocar-se para soluções de menor preço, private label, resale e off-price. Segundo o estudo, cerca de quatro em cada cinco consumidores a nível global indicam estar a fazer trading down, o que permite manter alguma resiliência nas vendas, mas pressiona margens brutas e rentabilidade.

No têxtil, a pressão é igualmente significativa. O setor continua exposto a custos de matérias-primas, energia e produção, num contexto em que a procura por bens discricionários permanece vulnerável à inflação e à subida dos juros. A Allianz Trade sublinha que, fora do segmento de luxo, muitas empresas têm capacidade limitada para repercutir custos no preço final, o que obriga o setor a absorver parte da inflação nos seus próprios resultados.

Inventário e IA ganham peso

A gestão de inventário torna-se, por isso, decisiva. No têxtil, excesso de produção, ciclos de moda rápidos, aumento dos custos de financiamento e risco de desconto afetam diretamente liquidez e margens. A Allianz Trade assinala que a adoção de IA para previsão de procura, deteção de defeitos e produção em pequenos lotes pode ajudar a reduzir desperdício, acelerar rotação de inventário e proteger margens.

Apesar dos riscos, existem oportunidades. No retalho, a monetização de dados, retail media, personalização, recommerce e IA aplicada à gestão de inventário podem criar novas fontes de margem. No têxtil, os tecidos técnicos, a procura associada à defesa, saúde, construção e automotive, bem como o crescimento da segunda mão, podem abrir caminhos de crescimento menos dependentes do consumo discricionário tradicional.

Pressão mantém-se em vários setores

A Allianz Trade prevê que o crescimento global abrande para 2,5% em 2026, antes de recuperar para 2,9% em 2027. A inteligência artificial deverá representar cerca de um terço do crescimento dos Estados Unidos, enquanto o investimento em infraestrutura dos grandes operadores de serviços de computação em nuvem deverá atingir 725 mil milhões de dólares em 2026 e ultrapassar um bilião de dólares em 2027.

Os semicondutores são apontados como o principal beneficiário do ciclo de investimento em IA. Energia, defesa e semicondutores concentram também uma parte relevante do crescimento de receitas.

Na Europa, a performance empresarial continua concentrada nestes três setores, enquanto automóvel, transporte, retalho discricionário e metais permanecem sob pressão. A Allianz Trade identifica, assim, uma economia a três velocidades, com níveis de risco significativamente diferentes entre setores e cadeias de valor.

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