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Economia pandémica crónica, mentalidade resiliente e Carpe Diem são as 3 fases no regresso à normalidade

Nascem novas oportunidades de negócio para as empresas relançarem as suas economias

Foto Shutterstock

Haverá um mundo antes, durante e depois da pandemia. O estudo EIT Food Foresight: Impact of COVID 19 on the Food Sector in Southern Europe, realizado pela consultora Lantern, em conjunto com o Instituto Europeu da Inovação e Tecnologia (EIT, na sigla inglesa), assegura que, após a erradicação do vírus, o sector alimentar e os negócios inerentes  sejam dos mais transformados pela pandemia.

Numa extensa análise ao estado atual e perspetivas de futuro para o sector, o estudo, cujas principais conclusões foram avançadas esta manhã no webinar “Depois da pandemia: cenários futuros para o sector agroalimentar”, prevê que o caminho de regresso à normalidade deverá levar três anos. Até lá, irão nascer novos hábitos e tendências de consumo, como o “consumismo vingativo”, que serão momentos-chave no relançamento da economia e oportunidades singulares para muitas empresas capitalizarem o seu posicionamento no mercado.

Paralelamente, fontes de receita como o e-commerce, que até à pandemia eram complementares ao negócio, vão continuar a crescer exponencialmente, mesmo quando o vírus estiver erradicado. Por causa dessa e outras tendências, a relação entre as marcas e o consumidor vai continuar a mudar em nome da proximidade.  Os investidores, por seu lado, vão estar atentos e prontos a apostar em novos conceitos alimentares, focados na saúde, e ainda em novos canais e experiências que aprofundem o relacionamento entre empresas e consumidores.

 

Regresso à normalidade

Numa altura em que os confinamentos se sucedem, a economia afunda e os problemas mentais se agravam, repete-se a pergunta: quanto tempo será preciso até que a comércio torne a florescer e a socialização volte a ser descomplexada?

O estudo da Lantern e EIT estima que sejam precisos mais dois anos para que o medo e a incerteza deem lugar à confiança e ao “consumismo vingativo” que, referem as entidades, será um novo comportamento que servirá como principal catalisador no processo de recuperação da economia.

De acordo com as previsões dos consultores e especialistas ouvidos pela Lantern, o vírus só estará totalmente erradicado entre finais de 2022 e inícios de 2023. Com a colaboração de múltiplos especialistas na área da saúde, alimentação e economia, o estudo descreve, então, as três fases que, combinadas ou alternadas, irão estabelecer o caminho de regresso à normalidade: economia pandémica crónica (2020-2021), mentalidade resiliente (2021-2022) e Carpe Diem (2022-2023).

A Lantern e o EIT calculam que a vacina só prove resultados práticos no início de 2022. Até lá, prevê-se um prolongamento dos sentimentos de medo e incerteza entre todos, o que irá manter a economia mundial em níveis descontrolados de crise (economia pandémica crónica). Perante uma “mentalidade de sobrevivente”, o estado da saúde individual e os preços dos produtos serão as principais condicionantes para o consumo.

Países como Portugal atravessam, agora, o início da fase de mentalidade resiliente. Empresas, entidades e população já aprenderam a viver com o vírus e com as limitações que este lhes impõe. Durante este período, a esmagadora maioria das empresas continua a operar sob um elevado nível de incerteza, o que contribui para uma economia extremamente vulnerável. Simultaneamente, a área da saúde já apresenta mais eficácia no controlo dos surtos e no combate à taxa de mortalidade do vírus. A vacina já começa a ser distribuída, mas prepara-se para enfrentar problemas de produção e implementação, dados os altos níveis de procura.

De acordo com a Lantern e o EIT, o vírus só estará totalmente erradicado entre finais de 2022 e inícios de 2023. Neste cenário, os autores do estudo anteveem um sucesso total e comprovado da vacina, que permitiu à economia voltar a funcionar (Carpe Diem). Perante as boas notícias que se vão sucedendo, a incerteza e o medo darão lugar a uma mentalidade mais otimista e confiante à população, que vai procurar recuperar o tempo perdido através de altos níveis de consumo. “O consumismo vingativo vai explodir”, diz o estudo, o que se traduzirá em altos níveis de procura e múltiplas oportunidades para as empresas recuperarem os seus negócios, ajudando a economia novamente a florescer.

 

Marcas precisam de investir em canais de ligação direta ao consumidor

Numa análise ao mercado da restauração e alimentação português, o estudo revela que quase 60% das empresas ainda não usa qualquer meio de entrega.  Apenas 23% dos restaurantes refere que investiu mais neste modelo e ainda 7% dos inquiridos assume que só agora começou a usar serviços de entrega.

Para lá da falta de estrutura financeira, os pequenos negócios assumem que existem outras condicionantes que os impedem de investir em canais de ligação diretos com os seus clientes. Além das elevadas taxas e comissões impostas pelas plataformas existentes por cada refeição entregue, o estudo revela que as mesmas plataformas não partilham os dados de consumo dos clientes, obrigando os restaurantes e cafés a trabalharem sobre um clima de constante imprevisibilidade, limitando a eficácia e sustentabilidade dos negócios.

Contudo, canais que concretizem a ligação entre as marcas e o consumidor, denominados como o Direct To Costumer (DTC), ganham maior relevância a cada dia e é por isso que vertentes do negócio como o e-commerce são mais importantes que nunca. Um em cada três lares em Portugal comprou produtos de grande consumo online, em 2020, e 45% voltou a utilizar este canal de compra, no mínimo, mais uma vez.  Com base nestes indicadores, os consultores da Lantern estimam que a pandemia irá acelerar a digitalização dos negócios do sector alimentar entre dois a quatro anos.

Para a maior parte das empresas, o grande obstáculo continua a ser a logística. Para contornar essa barreira, grandes marcas, como a Danone ou a Unilever, já desenvolveram os seus canais DTC através de parcerias com plataformas como a Glovo para a entrega dos seus produtos em casa dos consumidores. Agora, dizem os autores do estudo, o desafio passa por “continuar a desenvolver os canais DTC e construir uma oferta diferenciada e relevante para o consumidor além da pandemia”.

 

Investidores vão procurar inovação

Perante um vírus que continua a ameaçar a saúde de todos, a Lantern e o EIT calculam que as várias partes da cadeia de produção alimentar venham a ser das mais transformadas pela pandemia. Os consumidores vão preocupar-se como nunca com aquilo que comem e, com isso, nascem novas oportunidades de negócio para as empresas relançarem as suas economias.

Da produção aos programas de investigação e desenvolvimento, a Lantern e o EIT apontam mudanças nos diferentes postos da cadeia de produção alimentar. No sector primário, com fronteiras fechadas e centenas de voos cancelados, importações e exportações caem a pique. O declínio na procura por serviços alimentares gera oportunidades para as empresas desenvolverem canais direcionados para o consumidor. Em Espanha, a produtora KM0 Baserria passou a vender carne diretamente aos consumidores. Até à chegada da Covid-19, os produtos da empresa eram apenas vendidos a restaurantes.

As mudanças fazem-se sentir também ao nível da distribuição. Impedida de sair de casa, a população passou a consumir exclusivamente em casa. Dessa forma, aumentaram as refeições caseiras e os serviços de take-away, o que representa uma oportunidade para as empresas desenvolverem os seus canais diretos ao consumidor. Note-se, contudo, que, em Portugal, quase 60% dos restaurantes ainda não usa qualquer serviço de entrega.

Paralelamente, com lotações controladas e menos compras feitas por impulso, os retalhistas apostaram no e-commerce para fomentar as suas relações com os clientes. De acordo com o estudo da Lantern, as compras nas grandes superfícies feitas online duplicaram, com muitos clientes a fazerem encomendas online pela primeira vez. Mesmo assim, até ao final de 2020, o e-commerce ainda não representava 5% do total de vendas feitas nos países do sul da Europa. É por isso que, segundo as estimativas dos autores do estudo, este canal venha a crescer exponencialmente já este ano.

As estimativas apontam, também, para um forte investimento de investidores privados e públicos em empresas focadas na inovação, sobretudo na criação de novos produtos naturais e que se sejam benéficos para a saúde dos consumidores. As empresas que criem novos canais de contacto com os consumidores também irão despertar a atenção dos investidores. A população, já mais habituada ao consumo caseiro, irá começar a dar mais atenção à origem e composição daquilo que compra, procurando cada vez mais o “valor acrescentado”. Segundo os especialistas ouvidos no estudo, o sector Horeca (é o que mais necessita de inovação e criação de valor acrescentado.

De acordo com a análise, as áreas relacionadas com saúde e nutrição, digitalização e rastreamento de serviços e sustentabilidade serão aquelas que, mais facilmente, irão encontrar investidores interessados nas suas novas ideias. No entanto, alertam no estudo, “no sul da Europa, a quota de mercado já alcançado pelas grandes marcas privadas vai fazer com que seja difícil às pequenas empresas”.

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