A preferência por produtos nacionais está a afirmar-se como um fator relevante na relação entre consumidores e marcas. Segundo a 10.ª edição do “Ipsos Global Trends”, 70% dos participantes nos 38 mercados analisados afirma preferir produtos produzidos no seu país a alternativas importadas.
O resultado surge num momento de crescente tensão geopolítica, alterações nas relações comerciais e maior valorização das identidades nacionais.
Contudo, a Ipsos considera que esta evolução não representa necessariamente uma rejeição da globalização. Pelo contrário, os consumidores continuam a reconhecer os benefícios das relações económicas internacionais, mas demonstram maior confiança na capacidade das empresas e marcas locais para responder às suas necessidades.
Globalização mantém apoio, mas confiança desloca-se
O estudo revela que a perceção dos benefícios da globalização se mantém relativamente resiliente, apesar das tensões comerciais e geopolíticas. Em alguns mercados, a proporção de consumidores que considera a globalização positiva para o próprio país aumentou significativamente desde 2013. É o caso da China e dos Estados Unidos, onde esse indicador cresceu oito pontos percentuais, e do Reino Unido e de França, com aumentos de 14 pontos.
Esta evolução coexiste com uma transformação na forma como são avaliadas as marcas internacionais. Segundo a Ipsos, em vários mercados emergentes diminuiu a convicção de que os produtos de marcas globais apresentam necessariamente maior qualidade do que as alternativas nacionais. A valorização das empresas locais está, assim, a ganhar espaço como elemento de diferenciação comercial.
Origem torna-se argumento de confiança
A preferência por produtos nacionais não depende exclusivamente de considerações económicas. A Ipsos relaciona esta tendência com fatores como identidade cultural, familiaridade e confiança.
Para os consumidores, a origem de um produto pode funcionar como uma referência sobre a sua identidade e sobre os valores que representa. Esta associação torna-se particularmente relevante em categorias nas quais a proveniência constitui um elemento de diferenciação, como alimentação, bebidas, produtos agrícolas e especialidades regionais.
Para os fabricantes, comunicar a origem pode contribuir para valorizar características concretas do produto, desde que as alegações sejam verificáveis e não criem expectativas sem fundamento.
Marcas globais precisam de demonstrar relevância local
A Ipsos considera que o contexto atual exige uma adaptação das estratégias internacionais. A notoriedade global pode continuar a ser uma vantagem, mas não substitui o conhecimento dos mercados locais. As empresas são incentivadas a compreender melhor as identidades culturais, os hábitos de consumo e as prioridades de cada país.
A comunicação sobre produção local, matérias-primas, tradição e contributo económico pode assumir maior relevância, especialmente quando acompanhada por práticas demonstráveis.
O estudo aponta, por isso, para uma globalização mais seletiva, na qual os consumidores procuram equilibrar a abertura aos mercados internacionais com a valorização de produtos e empresas de proximidade.
Origem e autenticidade ganham importância
A principal conclusão da Ipsos é que as marcas têm de conjugar capacidade internacional com relevância local. A preferência por produtos nacionais não elimina o espaço comercial das marcas globais, mas obriga-as a demonstrar uma relação mais próxima com os consumidores.
Para a indústria de grande consumo, a origem poderá tornar-se um elemento de diferenciação cada vez mais importante, sobretudo quando associada a qualidade, autenticidade e benefícios concretos. Num mercado onde a confiança é cada vez mais pessoal e próxima, a proveniência dos produtos pode assumir um papel estratégico nas decisões de compra.








