As famílias portuguesas não se mostram confiantes na economia para os próximos 12 meses e estão a adaptar os seus hábitos de consumo. A pressão sobre o orçamento dos lares parece ter vindo para ficar.
Mesmo num cenário de desaceleração da inflação, que está já a inverter-se, e melhoria de alguns indicadores macroeconómicos, a perceção de dificuldade económica mantém-se, assim como a prudência no consumo.
Os dados são da mais recente análise da Worldpanel by Numerator, apresentados num evento da Centromarca – Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca e Foram recolhidos em quatro mil lares até final de março deste ano e mostram que a confiança do consumidor continua fragilizada e a sensação no dia a dia das famílias é de pressão alta.
A maior fatia do orçamento das famílias vai para despesas essenciais, como habitação, energia, transportes e alimentação, e no caso da alimentação e bebidas não alcoólicas, estas têm um peso especialmente relevante quando comparamos Portugal com outros países da Zona Euro. Desta forma, quando os preços sobem nestas categorias, o impacto sente‑se de forma imediata na carteira.
No sector de Fast-Moving Consumer Goods (FMCG) há uma mudança estrutural no comportamento das famílias. À medida que os preços aumentam, as pessoas passam a ir mais vezes às compras, mas com cestas mais pequenas, como forma de se adaptarem a cenários voláteis e adversos. Os consumidores fazem mais compras rápidas e focadas e descartam o armazenamento de itens em casa.
Neste cenário, as categorias mais essenciais, próximas do dia a dia e de consumo imediato, mantêm maior relevância. Os dados também mostram que a marca dos produtos funciona como âncora de confiança quando a compra é rápida e pouco planeada.
Mais despesas e menos orçamento
Os dados recolhidos pela Worldpanel by Numerator mostram a evolução do peso das compras de supermercado no orçamento familiar dos portugueses. O valor passou de cerca de 1.707 euros (2019) para 2.193 euros (2025), um aumento de 486 euros. Olhando para o efeito da inflação acumulada, o valor pode chegar a 2.625 euros (mais 918 euros face a 2019). No entanto, comparado com a evolução do salário bruto, que foi de 418 euros neste período, percebe-se porque é que a pressão se mantém: a despesa cresce mais depressa do que o rendimento disponível.
Esta pressão no orçamento levou a compras mais pequenas e mais frequentes, e isso infere também com os formatos de loja escolhidos, mas não só. Há uma implicação muito concreta (e positiva) para as marcas já que, quando a necessidade é imediata, a escolha tende a ser muito mais orientada pela preferência prioritária do consumidor.
Marta Santos, country manager da Worldpanel by Numerator, sublinha que “nos primeiros anos, os consumidores tiveram grande dificuldade em acompanhar o aumento de preços, até porque o preço médio pago pelos lares cresceu acima da inflação. A partir de 2024, assistimos a uma adaptação clara: as famílias ajustaram comportamentos e passaram a tomar decisões mais conscientes para proteger o orçamento – um padrão que tudo indica ter vindo para ficar”.
“Esta progressiva mudança do padrão de compra dos consumidores portugueses tem, obviamente, consequências na tipologia de produtos consumidos, na composição da cesta normal de compras e no local em que, cada um de nós, realiza essas mesmas compras, beneficiando os produtos, as marcas e os retalhistas que dão melhor resposta e este novo cenário”, refere Pedro Pimentel, diretor-geral da Centromarca.








