50 anos após ter acolhido a sua primeira edição, em 1976, a Alimentaria encerrou com números que confirmam a sua posição como o maior evento alimentar do sul da Europa. A edição de 2026, que decorreu em simultâneo com a Hostelco, a feira do equipamento para hotelaria e restauração, reuniu 3.300 empresas expositoras de 70 países e recebeu mais de 1.100 visitantes internacionais, ao longo de quatro dias. No primeiro dia, a organização contabilizou 33 mil visitantes, um crescimento de 4,4% face à edição anterior.
“É uma edição muito importante para nós, porque é o 50.º aniversário. Temos estado 50 anos a trabalhar em conjunto com a indústria alimentar e, após meio século, mantemos o mesmo objetivo com que começámos”, afirmou Anna Canal, diretora da Alimentaria, na conferência de imprensa de abertura. “Temos de apoiar a indústria, trabalhar em conjunto, acompanhar as inovações que chegam de todo o mundo e ajudar as empresas a crescer e a exportar”.
Convergência entre retalho e food service como aposta estratégica
Uma das apostas conceptuais mais marcantes desta edição foi a integração plena com a Hostelco, que transformou o evento numa plataforma 360 graus para toda a cadeia de valor alimentar. Céline Pérez, diretora da Hostelco, sublinhou que a fronteira entre retalho e restauração é cada vez mais ténue. “Vemos cada vez mais pessoas a almoçar num supermercado e, por outro lado, restaurantes e pontos de venda que servem refeições prontas a consumir. Esta é a tendência dominante e é o que nos confere um posicionamento diferenciador”.
Pere Taberner, presidente da Hostelco, reforçou esta visão com dados do terreno. “Somos uma das primeiras feiras a adotar esta abordagem. Da minha experiência profissional, nos últimos anos, temos feito tantos negócios com o retalho como com a restauração. Algo está claramente a mudar”. Em Espanha, o sector de restauração conta com mais de 200 mil estabelecimentos num mercado em acelerada transformação.
Sector alimentar espanhol: 162 mil milhões de euros e sétimo maior exportador mundial
Os dados da indústria alimentar espanhola partilhados durante a Alimentaria reforçam o peso estratégico do sector. Mauricio García de Quevedo, diretor-geral da Federação Espanhola de Indústrias de Alimentação e Bebidas (FIAB), destacou que o sector tem uma produção avaliada em mais de 162 mil milhões de euros, emprega 2,3 milhões de pessoas em toda a cadeia de valor (meio milhão de forma direta) e exportou mais de 75 mil milhões de euros em 2025, gerando um excedente comercial de 15 mil milhões de euros. “Somos o sétimo maior exportador mundial e o quarto dentro da União Europeia”, sublinhou María Naranjo Crespo, diretora na ICEX Spain Trade and Investment, a agência espanhola de promoção do comércio externo.
Atualmente, 80% das exportações alimentares espanholas têm como destino a União Europeia, mas essa concentração tem vindo a diminuir. Há cinco anos o peso europeu era de 85%. Fora da União Europeia, os mercados mais relevantes são os Estados Unidos, o Reino Unido, a China, o Japão e o México.
O azeite, o vinho e os produtos de suinicultura são as categorias com maior reconhecimento internacional. Não obstante, a diversificação geográfica e de produto foi assumida na feira como prioridade estratégica declarada para os próximos anos.
Mercosul, tarifas e incerteza: os desafios do comércio global
A conjuntura geopolítica dominou grande parte do debate na conferência de imprensa da Alimentaria. Sobre o acordo com o Mercosul, María Naranjo Crespo foi assertiva: “Vejo este acordo como uma grande oportunidade. Os países do Mercosul têm consumidores com crescente capacidade de aquisição e o acordo reconhece a qualidade diferenciada dos nossos produtos. O que nos permite competir pela qualidade e não apenas pelo preço”.
A responsável da ICEX rejeitou os receios de alguns sectores europeus sobre a concorrência de produtos mais baratos, lembrando que qualquer produto vendido na Europa terá de cumprir os mesmos padrões de qualidade e sustentabilidade exigidos às empresas europeias.
Quanto ao impacto das políticas tarifárias da administração Trump, o tom foi de resiliência sem complacência. O mercado norte-americano, principal destino fora da Europa, não é negociável para a indústria espanhola. A ICEX tem em curso campanhas específicas para apoiar empresas já presentes nos Estados Unidos e organiza missões comerciais na Florida, Nova Iorque, Califórnia e Texas. Além disso, acolhe importadores e distribuidores americanos em eventos como a Alimentaria. “Quando jogas em casa, jogas melhor”, sintetizou María Naranjo Crespo, sublinhando que a visita ao país é fundamental para transformar compradores em embaixadores dos produtos espanhóis.
A incerteza foi identificada como o principal fator de risco transversal ao sector, independentemente da sua origem ser a guerra no Médio Oriente, as tarifas americanas ou a instabilidade nos mercados de matérias-primas. “A incerteza paralisa a economia. Há muitas operações que não se fecharam precisamente por causa desta indefinição”, admitiu María Naranjo Crespo.
Mauricio García de Quevedo, por seu lado, destacou a dependência em fertilizantes como uma vulnerabilidade específica que justifica o desenvolvimento de uma estratégia nacional de alternativas.
Biológico, inovação e inteligência artificial: as tendências em destaque
Espanha é o país com maior superfície agrícola dedicada à produção biológica na Europa e essa aposta esteve amplamente representada na Alimentaria 2026. A Plaza Eco reuniu 470 empresas produtoras de biológicos, mas a produção sustentável marcou presença em toda a feira. “Somos o primeiro produtor mundial de vinhos biológicos, embora ainda não o maior exportador”, precisou María Naranjo Crespo. A tendência, segundo Céline Pérez, aponta para uma fusão crescente entre produtos ecológicos, veganos e funcionais. “Tudo se tornou mais híbrido, não só ao longo do tempo, mas também verticalmente, dentro dos mesmos segmentos de produto”.
A inteligência artificial e a automação, ainda discretas no programa de conferências, revelaram-se omnipresentes nas soluções apresentadas pelos expositores. Pere Taberner destacou o potencial da IA na gestão de menus e na conectividade operacional. “Há cadeias de restaurantes que já conseguem atualizar a carta em dois mil restaurantes com um clique. A IA vai ajudar massivamente nesta área”. O evento Imagine Food Service Europe, realizado no âmbito da feira, dedicou sessões específicas à IA e à tecnologia aplicada à entrega de refeições, reunindo, pela primeira vez, associações de restauração de vários países europeus.
14 mil reuniões de negócio e uma plataforma que “mantém a essência”
A plataforma de matchmaking da Alimentaria 2026 registou 14 mil reuniões de negócio ao longo dos quatro dias, um número que a organização reconhece ser apenas uma fração dos contactos efetivamente estabelecidos. O programa de hosted buyers trouxe a Barcelona compradores de mais de 100 países, com especial envolvimento da ICEX e do Ministério da Agricultura espanhol. Das 3.300 empresas expositoras, duas mil eram espanholas, o que reflete tanto a vitalidade da indústria local como a sua necessidade de se projetar internacionalmente.
Sobre o percurso de cinco décadas, a diretora da feira, Anna Canal, deixou uma síntese que resume bem o espírito da edição. “Li o primeiro comunicado de imprensa de 1976 e é curioso ver que a essência é a mesma. Houve uma grande evolução, mas a essência manteve-se”. María Naranjo Crespo foi mais longe. “Há 50 anos, Espanha era um importador líquido de produtos alimentares. Hoje, somos o sétimo maior exportador mundial. A Alimentaria é o espelho perfeito desta transformação”.








