O stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho podem estar a custar às empresas portuguesas até 13,3 mil milhões de euros por ano em perda de produtividade, revela o relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal“, da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
Traduzido para uma escala diária, o valor corresponde a cerca de 36 milhões de euros por dia ou aproximadamente 1,5 milhões de euros por hora, considerando todos os dias do ano.
Custo mais do que quadruplicou desde 2020
A evolução estimada pela OPP mostra uma forte aceleração nos últimos anos. Em 2020, a perda de produtividade associada ao stresse e aos problemas de saúde psicológica era estimada em 3,2 mil milhões de euros. Em 2022, subiu para 5,3 mil milhões e, em 2024, atingiu os 13,3 mil milhões de euros.
Em quatro anos, o valor mais do que quadruplicou. A OPP sublinha que esta evolução deve ser analisada não apenas como uma questão de saúde e bem-estar, mas também como um problema de produtividade, competitividade e sustentabilidade das organizações.
Até 40,5 dias de produtividade afetada por trabalhador
Por detrás do impacto económico estão dias de ausência e períodos em que os trabalhadores permanecem no posto de trabalho, mas com menor capacidade produtiva. Em 2024, estima-se que cada trabalhador tenha faltado, em média, 13,5 dias por ano devido ao stresse e a problemas de saúde psicológica.
A estes somam-se até 27 dias de presentismo, isto é, situações em que o trabalhador está presente, mas com produtividade reduzida devido a problemas de saúde.
No total, podem estar em causa até 40,5 dias de trabalho afetados por trabalhador por ano. Em 2020, os valores estimados eram de 6,2 dias de absentismo e 12,4 dias de presentismo.
Presentismo representa dois terços do custo
Dos 13,3 mil milhões de euros de perda de produtividade estimada para 2024, cerca de 4,4 mil milhões resultam do absentismo. Os restantes 8,9 mil milhões de euros são associados ao presentismo.
Ou seja, aproximadamente dois terços do impacto económico estimado ocorrem quando as pessoas continuam a trabalhar, mas não conseguem fazê-lo em plena capacidade.
Este dado torna o fenómeno menos visível para as empresas do que o absentismo, já que o trabalhador permanece formalmente presente.
PME concentram a maior parcela das perdas
As pequenas e médias empresas (PME) são responsáveis pela maior parte do impacto estimado. Segundo o relatório, as PME suportam cerca de 10,2 mil milhões de euros, enquanto as grandes empresas concentram aproximadamente 3,1 mil milhões de euros.
O peso é particularmente relevante tendo em conta a estrutura do tecido empresarial português.
Os 13,3 mil milhões de euros correspondem a aproximadamente 2,1% do volume de negócios anual das empresas portuguesas não financeiras.
O valor equivale ainda a cerca de 13,5% da despesa anual destas empresas com salários e outros encargos sociais.
Nas PME, essa proporção aumenta para aproximadamente 16,5%.
A OPP salienta ainda que se trata de uma estimativa conservadora, uma vez que o cálculo exclui a Administração Pública e considera apenas custos indiretos relacionados com absentismo e presentismo.
Prevenção pode evitar quase 4 mil milhões de euros
Uma parte relevante destas perdas poderá ser evitável. Partindo do pressuposto de que medidas de promoção da saúde psicológica, prevenção e identificação precoce conseguem reduzir as perdas em pelo menos 30%, o relatório estima que poderiam ser evitados custos próximos de quatro mil milhões de euros por ano.
A evidência reunida pela OPP aponta também para retornos económicos associados a este tipo de investimento. São citados estudos que estimam um retorno de aproximadamente cinco euros por cada euro investido em saúde psicológica, havendo intervenções cujo retorno poderá ultrapassar nove euros por euro investido.
Saúde psicológica passa a ser questão de gestão
Para Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses, os números mostram que o stresse e os problemas de saúde psicológica não devem ser tratados como um custo inevitável do trabalho. A responsável defende que investir em locais de trabalho física e psicologicamente saudáveis deve ser encarado também como uma decisão de gestão, produtividade e sustentabilidade.
O relatório recomenda, por isso, que as organizações avaliem os riscos psicossociais e adotem medidas de prevenção, disponibilizando igualmente recomendações dirigidas a empresas, líderes e decisores.









