Copo de uísque com gelo sobre uma mesa de madeira Foto Shutterstock

Proteção do whisky inglês gera confronto com indústria escocesa

A decisão do Governo britânico de reconhecer o English Whisky como Indicação Geográfica (GI) está a gerar contestação na indústria escocesa, que teme que as regras previstas para a utilização da designação single malt possam criar confusão junto dos consumidores e afetar a reputação do Scotch Whisky.

O pedido foi aprovado pelo Executivo britânico a 11 de setembro e a proteção deverá entrar formalmente em vigor a 1 de outubro, quando “English Whisky/English Whiskey” for inscrito no registo britânico de indicações geográficas.

Inglaterra junta-se a Escócia, País de Gales e Irlanda

Com a nova proteção, o whisky inglês passa a juntar-se ao escocês, galês e irlandês entre as categorias de whisky reconhecidas e protegidas no Reino Unido.

A indicação geográfica estabelece que o English Whisky deve utilizar cereais provenientes do Reino Unido, água local à destilaria e ser destilado e envelhecido em Inglaterra. O período mínimo de maturação é de três anos, em barricas de madeira com capacidade não superior a 700 litros, e o produto final deverá apresentar pelo menos 40% de teor alcoólico.

A produção moderna de whisky em Inglaterra foi retomada em 2003. Atualmente existem mais de 70 destilarias, contra 46 em 2023, e o produto é exportado para mais de 30 países. O Governo britânico estima ainda que os stocks em maturação nas destilarias inglesas representem cerca de mil milhões de libras.

Disputa concentra-se na definição de “single malt”

A Scotch Whisky Association (SWA) não contesta a existência de uma indicação geográfica para o whisky inglês. A principal divergência está nas regras que permitem a utilização da expressão “single malt”.

No Scotch Whisky, a produção desta categoria está associada a uma única destilaria, onde decorrem a maceração, fermentação e destilação, recorrendo tradicionalmente a alambiques de cobre.

A SWA argumenta que as regras inglesas permitem uma interpretação diferente, uma vez que a exigência para a utilização de “single” se concentra na destilação numa única destilaria, sem obrigar a que todas as fases anteriores da produção sejam realizadas nesse mesmo local. A associação considera que esta diferença pode enfraquecer a definição estabelecida de single malt.

Segundo a associação escocesa, mais de 90% do single malt produzido mundialmente e mais de 95% do produzido no Reino Unido é escocês.

Governo escocês pede alterações

O Governo escocês juntou-se às críticas e pediu ao Executivo britânico que reveja alguns aspetos da decisão. Stephen Flynn, ministro escocês da Economia, Turismo e Transportes, classificou a medida como “totalmente inaceitável” e alertou para possíveis consequências para uma indústria com grande peso económico na Escócia.

O sector do Scotch Whisky sustenta cerca de 41 mil postos de trabalho na Escócia e 66 mil no conjunto do Reino Unido e gera aproximadamente 5,4 mil milhões de libras, cerca de 6,3 mil milhões de euros, em exportações, segundo dados citados pelo Governo escocês.

Entre as questões contestadas está também a possibilidade de o whisky de malte inglês utilizar sistemas em que o contacto com cobre ocorre sem que toda a destilação tenha necessariamente de ser feita no tradicional alambique de cobre. A especificação aprovada exige, no entanto, contacto suficiente do vapor com superfícies de cobre para a categoria Malt English Whisky.

Indústria inglesa rejeita críticas

A English Whisky Guild, que liderou o pedido de reconhecimento, rejeita a interpretação da indústria escocesa. A organização argumenta que a nova indicação geográfica vem precisamente regular práticas que já são utilizadas pelo sector inglês e criar padrões de produção onde anteriormente não existia uma proteção específica.

Para a entidade, “single” significa que o whisky provém de uma única destilaria, enquanto “malt” identifica um produto produzido integralmente com cevada maltada. A associação defende ainda que diferentes países produtores podem adotar regras próprias sem comprometer a qualidade ou autenticidade das respetivas categorias.

Morag Garden, CEO da English Whisky Guild, afirmou à EFE considerar as objeções da indústria escocesa difíceis de compreender, salientando que a controvérsia afeta apenas cerca de 12 das mais de 70 destilarias inglesas.

Cereais terão de ser produzidos no Reino Unido

A especificação aprovada estabelece que todo o cereal utilizado no English Whisky deve ter origem no Reino Unido. A maceração, fermentação, destilação e maturação têm de decorrer em Inglaterra, embora o engarrafamento possa ser efetuado fora do território inglês depois de concluído o envelhecimento.

Para a categoria Malt English Whisky é obrigatória a utilização de 100% de cevada maltada, destilação descontínua e pelo menos uma destilação em pot still, podendo esta ser conjugada com sistemas de coluna desde que exista contacto suficiente com cobre.

A decisão final do Governo britânico mantém, assim, diferenças entre os padrões ingleses e escoceses, num debate que deverá prosseguir mesmo depois de a nova indicação geográfica entrar formalmente em vigor.

A Scotch Whisky Association afirma estar agora a analisar a decisão e os próximos passos a adotar.

Publicidade

PUB - Toyota Pro Week header-site-700x300
PUB - Toyota Pro Week header-site-700x300
Siga-nos em sidebar-1