Mulher a escolher um livro entre pilhas de livros numa livraria Foto Shutterstock

Mais portugueses leem, mas um em cada cinco leitores não compra livros

A leitura está a recuperar em Portugal, mas o aumento do número de leitores não está a traduzir-se na mesma proporção em compras. Em 2025, 78% dos portugueses com 15 ou mais anos afirmou ter lido pelo menos um livro, o valor mais elevado dos últimos três anos, enquanto apenas 62% comprou livros.

O mercado editorial, ainda assim, mantém uma trajetória de crescimento: o valor das vendas atingiu 218 milhões de euros em 2025, cerca de 17% acima dos 187 milhões registados em 2023. Os dados constam do estudo “Hábitos de Compra e Leitura em Portugal”, desenvolvido pela Nielsen | GfK e apresentado pela APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.

Índice de leitura sobe para 78%

A percentagem de portugueses que leu pelo menos um livro aumentou de 73% em 2023 para 76% em 2024 e 78% em 2025. Também a quantidade média de livros lidos evoluiu positivamente. Cada leitor contabilizou, em média, oito livros ao longo de 2025, acima dos 7,2 registados em 2024 e ligeiramente acima dos 7,9 de 2023.

A recuperação da compra é, contudo, mais frágil. Em 2025, 62% dos portugueses comprou pelo menos um livro, abaixo dos 65% registados em 2023.

A média de livros adquiridos por pessoa recuperou de 3,9 para 4,1, mas continua abaixo dos 4,8 livros observados em 2023.

Compradores adquirem menos livros

O número médio de livros comprados por comprador mantém mesmo uma trajetória descendente. Em 2023, cada comprador adquiria em média 7,5 livros. O número caiu para sete em 2024 e para 6,9 livros em 2025.

Também o livro está a perder peso enquanto presente. A compra para oferta representava 44% em 2023, baixou para 34% em 2024 e ficou nos 29% em 2025.

O consumo próprio continua a ser a principal motivação de compra, indicado por 81% dos compradores, enquanto a aquisição destinada a crianças e jovens do agregado familiar subiu para 32%.

18% lê livros sem os comprar

Um dos dados mais relevantes do estudo está na diferença entre leitura e compra. Cerca de 60% dos portugueses é simultaneamente leitor e comprador, enquanto 18% afirma ler livros sem os comprar. Este último segmento praticamente duplicou face a 2023.

Segundo a APEL, a evolução poderá refletir a crescente importância de outras formas de acesso ao livro, incluindo empréstimos, bibliotecas, oferta, formatos digitais e outras formas de circulação.

Em 2025, 19% dos portugueses disse ter comprado mais livros do que no ano anterior, mas esta recuperação do número de compradores ainda não é acompanhada por um aumento da intensidade média de compra.

Mercado atinge 218 milhões de euros

Apesar destes sinais, o mercado editorial continua a crescer. O valor das vendas passou de 187 milhões de euros em 2023 para 202 milhões em 2024 e 218 milhões em 2025. Em unidades, foram vendidos 13,2 milhões de exemplares em 2023, 14 milhões em 2024 e 14,9 milhões em 2025.

A oferta também aumentou: foram comercializadas cerca de 150 mil referências e atribuídos 23.683 novos ISBN, ambos máximos no período analisado.

A compra de livros digitais quase duplicou em dois anos, passando de 10% em 2023 para 19% em 2025. O formato digital é utilizado por 22% dos portugueses, acima dos 17% registados em 2023, embora sem alteração face a 2024.

Entre os leitores digitais, o e-reader reforçou a liderança, sendo utilizado por 49%, mais quatro pontos percentuais do que no ano anterior.

Ainda assim, o papel mantém uma posição claramente dominante: 92% dos leitores prefere o suporte físico e 95% dos compradores adquiriu livros impressos.

As lojas e livrarias físicas continuam igualmente centrais, sendo utilizadas por 86% dos compradores, enquanto as lojas online chegam a 47%.

Acesso gratuito a conteúdos digitais preocupa sector

O estudo identifica também práticas de acesso gratuito a conteúdos digitais que a APEL considera necessário acompanhar. Entre os leitores digitais, 68% utiliza conteúdos gratuitos. Entre aqueles que descarregam livros gratuitamente, 64% recorre a plataformas de armazenamento em cloud, 30% ao WhatsApp e 15% ao Telegram.

A associação sublinha que estes canais podem incluir utilizações legítimas, como empréstimos autorizados, obras em acesso aberto ou partilha pessoal, mas também são compatíveis com circulação ilegal e não autorizada.

A APEL considera, por isso, importante perceber em que medida o crescimento da leitura digital ocorre através de oferta legal ou fora dos canais comerciais, de forma a proteger autores, editores, livreiros e os restantes profissionais da cadeia do livro.

Jovens apresentam os índices de leitura mais elevados

Os grupos entre os 15 e os 24 anos e entre os 25 e os 34 anos apresentam os maiores índices de leitura, ambos com 91%. Já os consumidores entre os 35 e os 54 anos são os que mais compram, com 83%, e apresentam uma média de 7,5 livros lidos por ano.

Lisboa lidera tanto na compra, com 71%, como na leitura, com 86%. Entre os grupos socioeconómicos, a classe AB apresenta 81% de compradores e 88% de leitores.

A diferença entre géneros está, entretanto, a diminuir: 79% das mulheres e 77% dos homens afirmam ler livros, embora as mulheres mantenham uma média superior de títulos lidos, 6,6 contra 5,3.

Redes sociais continuam à frente da leitura no lazer

Apesar da recuperação, a leitura continua a disputar a atenção com outras formas de lazer. Conviver com amigos é mencionado por 91% dos portugueses, utilizar redes sociais por 85%, ver filmes e séries em streaming por 75% e praticar desporto por 66%. Ler livros por lazer é referido por 62%.

Entre os não leitores, os principais obstáculos são falta de interesse, indicada por 43%, falta de tempo, por 38%, e preferência por outras atividades, por 33%.

A APEL defende, perante os resultados, que a leitura e a literacia devem ser encaradas como prioridades nacionais, sublinhando o papel do livro na cidadania, pensamento crítico e acesso ao conhecimento.

Publicidade

Cartaz da conferência Grande 26 Consumo: «Consumo na era da imprevisibilidade», 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande 26 Consumo: «Consumo na era da imprevisibilidade», 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Siga-nos em sidebar-1