Os preços globais dos alimentos deverão aumentar 11,8% em 2026 e mais 4,8% em 2027, segundo previsões da Oxford Economics. Cereais, frutas, legumes e produtos lácteos estão entre as categorias mais expostas, num contexto marcado por conflitos geopolíticos, custos elevados de energia e fertilizantes e condições meteorológicas adversas.
A subida projetada para este ano permanece abaixo do aumento de 14,2% registado em 2022, mas representa um novo ciclo de pressão sobre a cadeia alimentar mundial.
Guerra e clima pressionam oferta
A Oxford Economics identifica vários fatores a atuar simultaneamente sobre a oferta agrícola. As temperaturas extremas e a seca na Europa afetaram as colheitas, enquanto os agricultores continuam expostos aos custos elevados de energia, transporte e fertilizantes. A escalada dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente acrescenta pressão sobre as cadeias de abastecimento e sobre os preços dos fatores de produção.
A intensificação dos ataques a infraestruturas portuárias e rotas de exportação no Mar Negro constitui um risco adicional. Rússia e Ucrânia são dois dos principais fornecedores mundiais de cereais e a redução da capacidade de exportação pode limitar ainda mais a oferta disponível no mercado internacional.
Trigo deverá estar entre os produtos mais pressionados
O trigo surge como uma das matérias-primas particularmente vulneráveis. Segundo a análise citada, os preços poderão aumentar cerca de 36% em termos homólogos no terceiro trimestre de 2026. A cultura depende fortemente de fertilizantes, cujos preços foram igualmente pressionados pelas perturbações energéticas e geopolíticas.
A evolução do trigo é especialmente relevante porque se transmite a uma ampla gama de produtos transformados, desde pão e massas a cereais de pequeno-almoço e bolachas. A Oxford Economics antecipa, por isso, maior pressão sobre os preços destes produtos à medida que os custos das matérias-primas forem sendo incorporados pela indústria e pelo retalho.
Europa revê em baixa colheita de cereais
O impacto das condições meteorológicas já obrigou a rever previsões para a produção europeia. A Coceral reduziu em julho a estimativa para a colheita conjunta de cereais da União Europeia e do Reino Unido de 295,5 milhões para 286,6 milhões de toneladas.
O valor fica também abaixo das cerca de 310 milhões de toneladas colhidas em 2025.
Na Alemanha, por exemplo, a produção de cereais deverá cair cerca de 7% este ano, condicionada pela seca e pelas sucessivas vagas de calor.
Frescos podem refletir aumentos mais rapidamente
A velocidade com que estas pressões chegam ao consumidor varia de categoria para categoria. Nos produtos frescos, nomeadamente fruta e legumes, os efeitos podem começar a ser visíveis dois a três meses depois dos choques de produção. Nos produtos transformados, o impacto tende a demorar mais tempo, devido aos ciclos de colheita, processamento, contratos e inventários.
A Oxford Economics estima que o efeito máximo sobre determinados alimentos processados possa surgir entre fevereiro e maio de 2027. Esta diferença ajuda a explicar porque uma subida das matérias-primas agrícolas não se traduz automaticamente numa subida imediata e da mesma dimensão no preço final pago no supermercado.
Aumento de 11,8% não significa 11,8% no linear
Esta distinção é particularmente importante na interpretação da previsão. O índice de preços alimentares utilizado pela Oxford Economics acompanha sobretudo preços de matérias-primas e produtos alimentares nos mercados globais. Uma subida de 11,8% nesse indicador não significa necessariamente que os preços de venda ao consumidor aumentem na mesma proporção.
Entre a matéria-prima e o linear entram outros componentes, como processamento, energia, embalagem, transporte, salários, margens e contratos de fornecimento.
Algumas empresas podem ainda absorver temporariamente parte dos custos, enquanto outras poderão transmiti-los mais rapidamente aos preços.
Fertilizantes e energia mantêm pressão
Os fertilizantes continuam igualmente no centro do risco inflacionista. O Rabobank alerta que, embora alguns preços tenham recuado, a acessibilidade económica dos fertilizantes permanece limitada e os riscos sobre a oferta continuam elevados devido à geopolítica, às condições meteorológicas e às perturbações associadas ao Estreito de Ormuz.
Na Europa, a instituição antecipa também que os elevados custos de energia, embalagem e transporte acabarão por chegar gradualmente aos preços dos alimentos, com um impacto potencialmente mais forte em 2027.
El Niño acrescenta nova incerteza
A previsão está ainda sujeita a riscos climáticos adicionais. A possibilidade de um episódio forte de El Niño poderá afetar culturas em várias regiões do mundo, aumentando a volatilidade da produção de cereais, açúcar, óleos vegetais, café, cacau e outros produtos agrícolas.
A Oxford Economics considera, por isso, que a atual previsão poderá revelar-se conservadora caso as perturbações no Mar Negro se agravem ou as condições climáticas provoquem novas perdas de produção.














