A economia mundial deverá crescer cerca de 3% em 2026, mantendo-se mais resiliente do que inicialmente receado perante o choque energético provocado pela guerra no Médio Oriente.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta, contudo, que os riscos permanecem elevados, com os preços da energia, a inflação e o aumento da dívida pública a condicionarem as perspetivas.
A projeção mantém a previsão apresentada pelo FMI em julho, mas fica abaixo do crescimento médio de 3,5% registado em 2024 e 2025. Em abril, antes do agravamento do conflito, a instituição apontava para uma expansão de 3,1% em 2026.
Economia absorveu melhor o choque energético
Julie Kozack, diretora do Departamento de Comunicação do FMI, considera que, apesar de seis meses de guerra no Médio Oriente, a economia mundial demonstrou uma capacidade de resistência superior à esperada. A utilização das reservas de petróleo e gás ajudou alguns países a limitar o impacto da redução da oferta, enquanto outros recorreram a fontes alternativas de energia ou adotaram medidas para reduzir a procura.
O FMI tinha já assinalado, na atualização de julho do “World Economic Outlook”, que o aumento da produção energética fora da região do golfo, a utilização de inventários e uma maior participação das energias renováveis tinham contribuído para limitar o impacto do choque.
Esta capacidade de adaptação não significa, porém, que a crise energética tenha terminado.
Petróleo e gás continuam sob pressão
Os preços do petróleo e do gás permanecem elevados e o FMI alerta que os países terão de voltar a acumular reservas energéticas antes do inverno no hemisfério norte.
O Estreito de Ormuz continua a constituir um dos principais fatores de incerteza para o abastecimento mundial, enquanto a procura energética associada ao crescimento da inteligência artificial acrescenta uma pressão adicional sobre o sistema.
A guerra acabou também por se prolongar bastante além do pressuposto utilizado na previsão de julho. Na altura, o cenário central do FMI assumia um abrandamento do conflito durante esse mês, mas os confrontos envolvendo o Irão e os Estados Unidos intensificaram-se e a atividade militar alargou-se ao Iémen.
Desinflação perdeu força
Outra preocupação é a evolução dos preços. As expectativas de inflação global aumentaram, embora permaneçam ancoradas no longo prazo, segundo o FMI. Ao mesmo tempo, o processo de desinflação que se seguiu à crise do custo de vida iniciada em 2022 estagnou.
Na atualização de julho, o fundo tinha revisto a inflação global para 4,7% em 2026, mantendo praticamente inalterada a previsão para a inflação subjacente.
A evolução dos preços da energia pode também transmitir-se a outras categorias. Energia, fertilizantes, alimentação e outras matérias-primas estão entre as áreas onde o FMI identifica riscos de novas pressões inflacionistas.
Neste contexto, a instituição defende que os bancos centrais mantenham o compromisso com a estabilidade de preços e evitem considerar concluída a luta contra a inflação demasiado cedo.
Dívida mundial aproxima-se de 100% do PIB
A dívida constitui outro dos principais sinais de alerta. Segundo o FMI, a dívida pública global aproxima-se de 100% do PIB mundial, ultrapassando já os máximos observados no período posterior à Segunda Guerra Mundial e mantendo uma trajetória ascendente.
A situação é particularmente relevante para economias avançadas com níveis elevados de endividamento e para países em desenvolvimento que enfrentam problemas de liquidez e menor disponibilidade de apoio financeiro internacional.
O fundo recomenda, por isso, a construção de planos fiscais credíveis de médio prazo, capazes de recuperar margem de manobra para responder a futuros choques.
Inteligência artificial dá impulso ao crescimento
Não obstante, nem todos os fatores identificados pelo FMI são negativos. O forte investimento associado à inteligência artificial, incluindo a construção de infraestruturas tecnológicas e energéticas, está a apoiar a atividade económica, em particular nos Estados Unidos e em economias integradas na cadeia de valor da tecnologia, como a Coreia do Sul.
O “World Economic Outlook” de julho sintetizava precisamente esta divergência: enquanto o choque da guerra penaliza países importadores de energia e economias mais vulneráveis, a procura ligada à IA favorece os mercados mais expostos à cadeia tecnológica global.
Para 2027, o FMI prevê atualmente uma aceleração do crescimento mundial para 3,4%, embora as projeções possam ser revistas à luz dos acontecimentos mais recentes.














