Estafeta em casaco vermelho a entregar uma caixa da JD.com Foto Shutterstock

JD.com regista primeira queda trimestral das receitas em mais de uma década

A JD.com registou, no segundo trimestre de 2026, a primeira queda trimestral das receitas em mais de uma década, num contexto de menor dinamismo do consumo na China e de uma base de comparação particularmente elevada no mercado de eletrónica e eletrodomésticos.

As receitas do grupo recuaram 2,9%, para 346,4 mil milhões de yuans (44,38 mil milhões de euros), face aos 356,7 mil milhões de yuans (45,70 mil milhões de euros) registados no mesmo período de 2025. Apesar da quebra, o resultado ficou acima dos 344,6 mil milhões de yuans (44,15 mil milhões de euros) esperados, em média, pelos analistas.

Eletrónica e eletrodomésticos pressionam vendas

A CEO da JD.com, Sandy Xu, atribuiu parte da evolução negativa à comparação com um segundo trimestre de 2025 particularmente forte, beneficiado pelos programas de subsídios públicos chineses destinados à substituição de eletrodomésticos e equipamentos eletrónicos.

O aumento dos preços das matérias-primas pressionou igualmente a categoria. A responsável assinalou, contudo, uma melhoria do ritmo de vendas a partir de junho e mostrou-se confiante numa recuperação significativa da eletrónica e dos eletrodomésticos durante a segunda metade do ano.

A evolução da JD.com traduz também as dificuldades mais amplas do consumo chinês. A insegurança relativamente ao emprego, a crise prolongada do sector imobiliário e uma confiança dos consumidores ainda enfraquecida continuam a condicionar as despesas das famílias.

O resultado representa uma inversão significativa face ao segundo trimestre de 2025, quando as receitas tinham crescido 22,4%, para 356,7 mil milhões de yuans (45,70 mil milhões de euros).

Lucro cresce apesar da quebra das receitas

A descida das vendas não impediu uma melhoria da rentabilidade. O lucro líquido da JD.com aumentou cerca de 15%, para 7,13 mil milhões de yuans (913,4 milhões de euros), contra 6,2 mil milhões no período homólogo. Excluindo itens extraordinários, o lucro ajustado atingiu 8,93 mil milhões de yuans (1,14 mil milhões de euros), cerca de 21% acima do ano anterior.

Esta evolução beneficiou, entre outros fatores, da redução da pressão promocional associada à entrada da JD.com no negócio de entrega de refeições. A empresa tinha investido fortemente nesta área para conquistar quota num mercado disputado com operadores como Meituan e Alibaba, contribuindo para uma guerra de descontos e subsídios no food delivery e no chamado instant retail. Desde o início de 2026, a intensidade promocional do sector começou a diminuir, depois das críticas dos reguladores chineses a práticas consideradas insustentáveis.

No segundo trimestre, a JD.com conseguiu reduzir as perdas da operação de entrega de refeições, ao mesmo tempo que diminuiu as despesas de marketing associadas à expansão inicial do serviço.

Festival 618 ajuda a sustentar trimestre

O tradicional festival promocional 618, associado à data de fundação da JD.com, voltou a assumir importância no trimestre. Em 2026, a campanha decorreu durante mais dias do que no ano anterior, dando às marcas e aos operadores mais tempo para disputar o consumo através de descontos e promoções. O prolongamento ajudou a sustentar as vendas num período em que a procura permanece condicionada.

Ainda assim, a primeira redução trimestral das receitas desde a entrada da empresa em bolsa, em 2014, evidencia a dificuldade em manter as taxas de crescimento históricas no mercado doméstico.

Europa ganha importância na estratégia

É também neste contexto que a internacionalização assume um peso crescente na estratégia da JD.com. Em março, o grupo lançou a plataforma Joybuy em seis mercados europeus: Reino Unido, Alemanha, França, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. A oferta inclui mais de 100 mil produtos em categorias como tecnologia, eletrodomésticos, beleza, casa e alimentação.

A logística surge como um dos principais elementos de diferenciação. A JD.com entrou no mercado europeu com cerca de 60 armazéns e instalações logísticas e uma proposta de entrega no próprio dia em várias áreas metropolitanas.

Paralelamente, o grupo procura concluir a aquisição da Ceconomy, proprietária da MediaMarkt e Saturn, por 2,2 mil milhões de euros. A transação está, contudo, sob investigação aprofundada da Comissão Europeia ao abrigo do Regulamento das Subvenções Estrangeiras. Bruxelas está a avaliar se apoios financeiros provenientes da China poderão ter permitido à JD.com apresentar condições que distorcessem a concorrência. A decisão europeia está prevista até 2 de outubro.

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