As empresas do sector alimentar e da distribuição que investirem desde já em pessoas, tecnologia e modelos operacionais adaptáveis estarão mais bem posicionadas para competir até 2040, antecipa a IGD.
No relatório prospetivo “The future of the industry”, a organização identifica oito transformações interligadas que deverão aumentar a volatilidade e acelerar a mudança no sector. A crescente exposição a fenómenos climáticos extremos, tensões geopolíticas, alterações demográficas e inovação tecnológica reduzirá a margem para ineficiências e respostas tardias.
Embora muitas empresas continuem concentradas em desafios imediatos, como a inflação dos custos, a volatilidade das margens e as mudanças regulatórias, a IGD considera que as decisões tomadas nos próximos anos terão consequências duradouras. “As escolhas que os líderes fizerem nos próximos anos moldarão a sua competitividade a longo prazo”, afirma Toby Pickard, retail futures senior partner da IGD. Segundo o responsável, as oito tendências identificadas já estão a ganhar forma e exigem ação antecipada.
Sustentabilidade terá de passar das metas à execução
A primeira previsão aponta para a necessidade de concretizar sistemas alimentares sustentáveis com maior rapidez e escala. A IGD considera que o progresso alcançado até ao momento fica aquém do necessário, obrigando retalhistas, fabricantes, produtores e restantes participantes da cadeia de valor a acelerar mudanças nas áreas da produção, abastecimento, desperdício, embalagens e utilização dos recursos.
A sustentabilidade deixará, assim, de funcionar apenas como uma área de conformidade ou reputação. A capacidade de adaptar operações e cadeias de abastecimento às limitações ambientais deverá tornar-se um fator mais direto de competitividade.
Empresas terão de preparar-se para eventos extremos
O segundo eixo é a preparação para perturbações mais frequentes e severas, incluindo fenómenos climáticos, doenças, tensões geopolíticas e interrupções no abastecimento.
Em vez de dependerem de planos concebidos para incidentes isolados, as empresas terão de desenvolver estruturas capazes de responder a vários choques simultâneos.
A diversificação dos fornecedores, a visibilidade sobre a cadeia de abastecimento, a capacidade de substituir matérias-primas e a existência de modelos logísticos flexíveis deverão ganhar importância. A resiliência passará a ser avaliada não apenas pela capacidade de recuperar de uma crise, mas também pela rapidez com que a organização consegue adaptar-se enquanto a perturbação decorre.
População urbana altera necessidades de consumo
A indústria terá igualmente de servir populações maiores, mais concentradas nas cidades e, frequentemente, a viver em habitações com menos espaço. Este contexto deverá favorecer formatos, produtos e serviços adequados a compras mais frequentes, cabazes menores, consumo imediato e entregas de proximidade.
Ao mesmo tempo, os consumidores terão mais escolha e menor fidelidade às marcas e aos operadores. A relevância dependerá da capacidade de responder a necessidades concretas, em vez de confiar apenas na dimensão, no sortido ou na notoriedade acumulada.
Decisões enfrentam maior escrutínio
A tomada de decisão tornar-se-á um exercício permanente de equilíbrio entre interesses comerciais, sociais, ambientais e políticos.
As expectativas dos consumidores, trabalhadores, investidores e reguladores deverão tornar-se mais fragmentadas, aumentando o escrutínio sobre preços, abastecimento, dados, sustentabilidade e impacto social.
Segundo a IGD, as empresas terão de conseguir explicar e fundamentar melhor as suas escolhas. Decisões anteriormente tratadas como essencialmente operacionais poderão adquirir uma dimensão reputacional ou política, exigindo maior transparência e capacidade de comunicação.
Distância entre empresas deverá aumentar
A quinta previsão aponta para um alargamento das diferenças de desempenho. As empresas mais fortes poderão utilizar escala, dados, capital e tecnologia para reforçar as suas vantagens, enquanto as organizações que adiem o investimento terão mais dificuldade em acompanhar o ritmo de mudança.
Esta evolução poderá aumentar a concentração em determinadas áreas do mercado e criar uma divisão mais acentuada entre operadores capazes de inovar continuamente e empresas limitadas por sistemas antigos, competências insuficientes ou modelos operacionais rígidos.
Personalização aumenta exigências sobre dados e confiança
A relevância tornar-se-á um fator central à medida que a tecnologia permitir personalizar produtos, comunicações, preços e experiências em maior escala. Esta capacidade aumentará, contudo, as expectativas dos consumidores relativamente à utilização dos seus dados, à transparência dos algoritmos e ao valor efetivamente recebido em troca da informação partilhada.
A personalização terá, por isso, de ser acompanhada por confiança. As empresas que utilizem dados de forma pouco clara ou apresentem recomendações sem utilidade poderão comprometer a relação com o cliente, mesmo dispondo de tecnologia avançada.
Pessoas continuam no centro da transformação
Apesar da crescente automatização, a IGD considera que as pessoas de elevado desempenho continuarão a ser determinantes para o sucesso.
A tecnologia e as mudanças demográficas irão transformar funções, competências e modelos de trabalho. As empresas terão de rever a forma como recrutam, formam, organizam e retêm as equipas.
O acesso a competências técnicas será importante, mas também ganharão relevância capacidades como adaptação, pensamento crítico, colaboração e tomada de decisão em ambientes de incerteza.
Inovação tecnológica redefine modelos viáveis
A oitava previsão destaca o carácter permanente da inovação tecnológica. A inteligência artificial, a automatização e outras ferramentas emergentes continuarão a alterar aquilo que é possível executar, bem como os modelos de negócio que permanecem economicamente viáveis.
Para a IGD, as oito tendências não evoluirão de forma isolada. Pelo contrário, deverão reforçar-se mutuamente, acelerando a disrupção e reduzindo a tolerância do mercado perante organizações inflexíveis.
“Preparar o futuro tem menos que ver com prever resultados com certeza e mais com construir a resiliência e as capacidades necessárias para responder à mudança das condições”, conclui Toby Pickard.








