Salada fresca com alface, tomate cherry, croutons e lascas de queijo, exemplo de refeição leve e alimentação saudável

Um em cada três portugueses tem baixa literacia alimentar

Primeiro estudo nacional sobre o tema, promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição com apoio do Continente, revela que os portugueses sabem o que devem comer, mas têm dificuldade em traduzir esse conhecimento em escolhas diárias

O score global de literacia alimentar dos adultos portugueses é de 57,5 em 100 pontos. Cerca de um em cada três cidadãos fica até abaixo dos 50%.

A conclusão é do “Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos”, divulgado pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), com o apoio do Continente e realizado pela Pitagórica.

Os dados mostram que os portugueses entendem a informação nutricional, mas têm dificuldade em aplicá-la no quotidiano. Além disso, quase não sabem como as suas escolhas à mesa afetam o planeta.

Literacia alimentar

A literacia alimentar define-se como a capacidade de compreender, processar, assimilar e aplicar a informação alimentar a que se tem acesso. Não se trata apenas de saber que a fruta é saudável. Trata-se de saber escolhê-la com critério, prepará-la de forma nutritiva, planeá-la no orçamento familiar e perceber o seu impacto ambiental. Medir este nível na população permite identificar fragilidades, orientar políticas públicas e desenvolver iniciativas educativas capazes de promover escolhas mais informadas, equilibradas e sustentáveis.

O estudo, aprovado pela Comissão de Ética do IUCS-CESPU, utilizou a Food Literacy Self-Perceived Assessment Scale, uma escala validada para a população adulta portuguesa. Esta avalia 42 comportamentos divididos em cinco dimensões do percurso alimentar: planeamento, gestão, seleção, preparação e consumo.

Score médio abaixo de 60%: margem de melhoria em todas as dimensões

A maioria dos inquiridos (cerca de dois terços) obtém um score entre 50% e 75%, o que revela espaço considerável para crescer. Apenas 11% ultrapassa o limiar dos 75 pontos.

No extremo oposto, um terço da população fica aquém dos 50 pontos, uma situação considerada preocupante do ponto de vista da saúde pública.

Analisando as cinco dimensões do percurso alimentar, os scores são relativamente próximos entre si, mas há diferenças que vale a pena assinalar. A preparação de alimentos regista o resultado mais elevado (58,9%), seguida da seleção (58,4%), da gestão (57,7%) e do planeamento (57,4%). A dimensão do consumo – que inclui a compreensão das necessidades nutricionais, o impacto das escolhas na saúde e a sustentabilidade alimentar – apresenta o valor mais baixo de todos: 54,7 pontos.

Saber cozinhar não basta: o fosso entre conhecer e aplicar

Um dos achados mais relevantes do estudo é precisamente este: compreender informação alimentar não significa necessariamente saber aplicá-la. A população portuguesa domina competências básicas. Nomeadamente, lê rótulos, entende os conselhos dos profissionais de saúde, sabe armazenar alimentos e gere razoavelmente o orçamento dedicado à alimentação. O que falha é a tradução desse conhecimento em decisões concretas, consistentes e sustentáveis no dia a dia.

O estudo identifica quatro áreas críticas que concentram as maiores dificuldades. A primeira é a compreensão do impacto ambiental, social e económico das escolhas alimentares. 54% dos inquiridos não sabe como encontrar informação sobre as repercussões dos seus hábitos na sustentabilidade. Adicionalmente, metade considera difícil mudar o que come para contribuir para o desenvolvimento territorial local.

A segunda área crítica é a interpretação de selos, sistemas de classificação nutricional (como o Nutri-Score) e alergénios nos rótulos. Quatro em cada dez portugueses têm dificuldade nesta tarefa, apesar de estes instrumentos existirem precisamente para facilitar a escolha.

A terceira dificuldade identificada é o uso da informação nutricional como apoio à decisão. 43% dos participantes não consegue avaliar se a informação disponível lhes permite ajustar a alimentação às suas necessidades de saúde. A mesma percentagem tem dificuldade em comparar produtos semelhantes.

Por fim, a quarta área problemática é a preparação saudável. 40% não sabe identificar métodos de confeção que preservem os nutrientes dos alimentos e 39% tem dificuldade em adaptar receitas quando faltam ingredientes.

Idosos, baixos rendimentos e isolamento: os grupos mais vulneráveis

A literacia alimentar não é igual para todos. O estudo identificou diferenças sociodemográficas estatisticamente significativas, que apontam para a influência dos fatores sociais e económicos nas competências alimentares. Os grupos que apresentam níveis mais baixos de literacia alimentar incluem as pessoas idosas (com 65 ou mais anos), os agregados com menores rendimentos, os indivíduos com índice de massa corporal mais elevado (IMC igual ou superior a 30) e quem tem uma perceção negativa do próprio estado de saúde ou está a ser acompanhado por alguma doença.

A estrutura do agregado familiar também faz diferença. Quem vive sozinho ou em casal sem filhos tende a apresentar piores resultados do que quem integra famílias com crianças. E há ainda um padrão consistente relacionado com a participação nas tarefas domésticas alimentares: quem não está envolvido no planeamento das compras, na aquisição de alimentos ou na sua confeção regista literacia alimentar significativamente mais baixa. Ou seja, a literacia alimentar constrói-se, em parte, pela prática quotidiana.

Na reflexão final do estudo, os autores sublinham que o problema não está, sobretudo, no acesso à informação, mas na capacidade de a transformar em escolhas consistentes. As principais fragilidades residem na interpretação da informação disponível e na adaptação das escolhas alimentares às necessidades individuais e aos critérios de sustentabilidade. A solução, defendem, passa por abordagens que reforcem competências práticas e simplifiquem a comunicação sobre nutrição e alimentação, capacitando os cidadãos para decisões mais conscientes, autónomas e alinhadas com a saúde individual e o bem-estar coletivo.

Cartaz da conferência Grande 26 Consumo: «Consumo na era da imprevisibilidade», 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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