Opinião

Um único modelo de entrega já não chega

Américo Mendes, Managing Director Business da DPD Portugal
Américo Mendes, Managing Director Business da DPD Portugal

O setor da logística e do retalho vive hoje uma transformação estrutural, impulsionada pela digitalização do consumo, pela crescente exigência dos consumidores e pela necessidade de desenvolver soluções mais eficientes e sustentáveis. Num contexto em que o e-commerce se consolidou como parte integrante do quotidiano, a entrega deixou de ser apenas a etapa final da compra para se afirmar como um elemento central da experiência do consumidor.

Segundo os dados do Barómetro E-Shopper 2025, divulgado no final do ano passado, 75% dos portugueses já compram online e quase metade fá-lo de forma regular, refletindo uma maturidade crescente do comércio eletrónico no país. Em paralelo, observa-se uma transformação nas preferências de entrega, com o crescimento consistente das entregas fora de casa (32%), nomeadamente através dos lockers, já utilizados por 14% dos consumidores.

Estes indicadores revelam uma mudança clara: a entrega ao domicílio, embora continue a desempenhar um papel central, deixou de ser suficiente para responder à diversidade de rotinas, expectativas e contextos atuais.

A verdade é que o quotidiano das pessoas mudou e estas vivem num ritmo acelerado, em constante movimento, entre trabalho, compromissos e vida pessoal. Neste contexto, a dependência de janelas de entrega rígidas revela-se cada vez menos compatível com a forma como vivem e consomem. O consumidor procura hoje soluções que se adaptem à sua rotina, e não o contrário.

É precisamente neste enquadramento que as soluções out-of-home ganham relevância. Pontos de recolha e lockers permitem integrar a entrega no dia a dia, oferecendo maior flexibilidade, autonomia e previsibilidade. Mais do que uma alternativa, representam uma extensão natural da experiência digital para o espaço físico, reduzindo a fricção por vezes associada ao last mile. Esta lógica de flexibilidade estende-se também à própria entrega ao domicílio, com soluções que permitem ao consumidor conhecer, de forma precisa, a janela horária em que a entrega será realizada, facilitando a gestão do seu tempo e reduzindo a incerteza associada ao processo.

Mas os benefícios não se ficam pela conveniência. Ao concentrar várias entregas num único ponto, reduzem-se as deslocações, o tráfego urbano e a pegada carbónica associada à distribuição. Trata-se de uma resposta concreta a um dos maiores desafios da logística contemporânea: tornar o last mile mais eficiente e sustentável.

Neste contexto, o futuro da logística não passa pela substituição de um modelo por outro, mas pela construção de um ecossistema integrado de soluções de entrega, capaz de responder a diferentes necessidades, momentos e perfis de consumo. A entrega ao domicílio continuará a ser essencial, mas deverá coexistir com uma rede cada vez mais robusta de alternativas flexíveis, adaptadas a um consumidor exigente e em constante mudança.

Insistir num único modelo de entrega é, hoje, ignorar a complexidade do presente e limitar a capacidade de resposta do setor. A verdadeira diferenciação estará na capacidade de oferecer opções, e de permitir ao consumidor escolher como, quando e onde quer receber.

Porque, no final, entregar bem já não é apenas garantir que a encomenda chega ao destino, mas assegurar que chega no momento, no local e no formato que melhor se adapta às expectativas de quem a recebe.

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