Opinião

Quando as marcas sobem ao palco: a construção de parcerias estratégicas que criam valor real e perduram no tempo

Maria João Rede, Partnership Manager Rock in Rio
Maria João Rede, Partnership Manager Rock in Rio

Os grandes festivais de música transformaram-se, nos últimos anos, em muito mais do que eventos de entretenimento: são hoje plataformas privilegiadas para estratégias de marketing experiencial, tendo o Rock In Rio sido pioneiro nesta abordagem. Esta evolução é particularmente visível em eventos com uma longa história, onde, ao longo do tempo, se consolidou a ideia de que a presença das marcas deve ser autêntica e parte integrante da experiência. Neste contexto, as parcerias entre marcas e eventos deixaram de ser meros exercícios de visibilidade para se afirmarem como ferramentas sofisticadas de criação de valor, relevância e ligação emocional com o público.

Dados recentes da indústria indicam que mais de 70% dos consumidores valorizam interações memoráveis com marcas em eventos ao vivo, e cerca de 60% afirmam estar mais propensos a adquirir produtos após experiências positivas nesses contextos. Este comportamento reflete uma mudança estrutural nas expectativas: o público já não procura apenas assistir a concertos, mas viver experiências completas, imersivas e partilháveis. Num momento em que cresce também algum cansaço do digital, os eventos ao vivo voltam a assumir um papel central, oferecendo experiências reais, humanas e memoráveis.

Neste cenário, as parcerias estratégicas começam, inevitavelmente, pelo alinhamento de propósito. É fundamental garantir que as marcas envolvidas partilham valores com o evento e que a sua presença faz sentido dentro da experiência global. Num ambiente em que os consumidores estão cada vez mais atentos e críticos, ativações desalinhadas ou percecionadas como oportunistas tendem a gerar rejeição. Estudos apontam que mais de 65% da Geração Z espera que as marcas assumam posicionamentos claros e consistentes, o que reforça a importância desta coerência. Ser parte da experiência, de forma genuína e consistente, tornou-se um dos principais fatores de sucesso.

Ultrapassada esta fase, o foco desloca-se para a cocriação de ativações. O modelo tradicional de patrocínio tem vindo a perder relevância: o público espera sempre mais: algo maior, mais criativo e fora da caixa. Por isso, começou a existir uma expectativa crescente em torno de experiências desenhadas de raiz para envolver mais o público e a marca. As marcas são hoje chamadas a criar momentos que convidem à participação ativa, integrando-se de forma orgânica no ambiente do evento, seja através de experiências sensoriais, interativas ou tecnológicas. O objetivo é transformar o visitante em protagonista e não apenas em espectador.

Paralelamente, existe uma preocupação crescente em prolongar o impacto dessas ativações para além do espaço físico do evento. A capacidade de transformar experiências em conteúdo tornou-se um fator crítico de sucesso. Num ecossistema digital altamente competitivo, cada ativação é pensada também como narrativa, com potencial para gerar alcance e engagement nas redes sociais. Em muitos casos, o conteúdo gerado pelo público amplifica significativamente a visibilidade das marcas, atingindo milhões de interações e prolongando a relevância da experiência no tempo.

Contudo, este novo paradigma traz consigo desafios acrescidos. O público é hoje mais exigente, mais informado e menos tolerante a propostas superficiais. Espera autenticidade, personalização e valor real em cada interação, não basta surpreender: é necessário ser relevante e consistente. Esta exigência obriga marcas e organizadores a um esforço contínuo de inovação, onde a criatividade deve estar alinhada com propósito e utilidade.

Adicionalmente, num contexto marcado pela abundância de ofertas, as marcas assumem um papel cada vez mais decisivo nas escolhas do consumidor. Num cenário em que os descontos frequentemente atingem o limite do sustentável, serão as marcas que investirem na construção de relações sólidas e consistentes ao longo de toda a jornada do público aquelas que estarão melhor posicionadas para liderar.

Por fim, importa sublinhar a importância das parcerias de longo prazo. Num contexto em que a diferenciação é cada vez mais difícil, a consistência torna-se um ativo estratégico. Relações duradouras permitem uma integração mais profunda das marcas no ecossistema do evento, favorecendo o reconhecimento por parte do público e a evolução contínua das ativações com base em aprendizagens acumuladas.

As ativações de marca em festivais refletem uma transformação mais ampla no marketing contemporâneo: a passagem de uma lógica de exposição para uma lógica de experiência. Num mundo saturado de estímulos, são as ligações autênticas, relevantes e memoráveis que verdadeiramente fazem a diferença:mais do que marcar presença, as marcas que realmente se destacam são aquelas que conseguem ser parte da experiência, e permanecer na memória muito depois do último concerto.

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