Opinião

A volta em Portugal – como embaladores, retalho e consumidores vão fazer a diferença

opinion-thumb Lia Oliveira, diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal

Portugal dá início a um novo sistema de reciclagem a partir de 10 de abril, que vai transformar a forma como lidamos com as garrafas e latas que consumimos no dia a dia. O Sistema de Depósito e Reembolso, que funcionará sob a marca volta, introduz uma nova rotina nos hábitos de consumo dos portugueses que, sendo simples, é sobretudo poderosa: devolver as embalagens, recuperando o valor de depósito pago na compra, permite criar uma verdadeira economia circular, em que uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa e uma lata pode voltar a ser uma lata. Mais do que um novo sistema de recolha, trata-se de uma mudança de hábitos que coloca os cidadãos no centro da economia circular e que convoca todos os portugueses a participarem ativamente na construção de um futuro melhor para as novas gerações.

O sistema abrange as embalagens de bebidas de uso único – garrafas e latas de plástico, metal ou alumínio, inferiores a três litros – que passam a ter um circuito dedicado de recolha e reciclagem. Na prática, o consumidor, quando compra uma bebida, paga um valor de depósito de 10 cêntimos que é integralmente devolvido quando a embalagem é entregue, intacta, com símbolo volta, com tampa, no caso das garrafas, e sem líquidos, num ponto de recolha volta. Essa devolução pode ser feita em máquinas volta instaladas em supermercados e hipermercados e em quiosques dedicados. O valor de depósito pode ser recuperado sob a forma de um vale, convertível em numerário, vale de desconto no supermercado onde foi devolvida a embalagem ou até doado a instituições de solidariedade. Este mecanismo cria um incentivo direto à devolução das embalagens e permite garantir que estas regressam ao circuito produtivo com elevados níveis de qualidade.

A implementação da volta abrange todo o território, incluindo as regiões autónomas – um sistema verdadeiramente nacional, que chegará tanto às grandes cidades como ao interior do país e às ilhas.

O objetivo é claro: aumentar significativamente as taxas de recolha e reciclagem de embalagens de bebidas em Portugal. A União Europeia definiu a meta de 90% de recolha seletiva até 2029 e os SDRs têm demonstrado ser a solução para atingir esse patamar. Em cerca de 18 países europeus onde o sistema já está implementado, os resultados são clarificadores, já que as taxas de recolha estão próximas deste objetivo.

Atualmente, apenas cerca de quatro em cada 10 garrafas de bebidas são efetivamente recicladas. A implementação deste sistema pretende, por isso, melhorar este cenário e criar as condições para que o país dê um salto significativo na recuperação destes materiais. Ao garantir um fluxo de recolha dedicado e rastreável, o sistema permite que as embalagens recolhidas regressem ao ciclo de produção de garrafas e latas, possibilitando a reciclagem em circuito fechado – ou seja, no final, uma garrafa volta a ser uma garrafa e uma lata volta a ser uma lata.

Mas o sucesso deste modelo depende de um fator essencial: a participação dos cidadãos. Durante décadas, os consumidores foram incentivados a encaminhar garrafas e latas para o ecoponto, muitas vezes espalmadas. Com o novo sistema, essas embalagens passam a ter de ser devolvidas intactas nos pontos de recolha. Trata-se, por isso, de uma mudança de hábitos à escala nacional que exige informação clara, confiança no sistema e, sobretudo, a perceção de que cada gesto individual faz realmente diferença.

A comunicação tem aqui, pois, um papel determinante. Explicar um sistema tecnicamente complexo de forma simples e próxima é essencial para garantir a adesão dos consumidores. Foi precisamente por essa razão que nasceu a marca volta. Sob o mote “v de volta”, a marca procura traduzir a lógica de circularidade que está na base deste modelo: quando devolvemos uma embalagem, estamos a dar-lhe uma nova vida.

A estratégia de comunicação foi desenhada para chegar a públicos muito diversos e apoiar esta transição de comportamentos, com presença em TV, rádio, digital, instore media, influenciadores e assessoria de imprensa. O objetivo é claro: explicar como funciona o sistema de forma pedagógica, mostrar o impacto de cada gesto e mobilizar os cidadãos para participarem. Ao mesmo tempo, pretende-se tornar o novo gesto de devolução algo simples e integrado nas rotinas do dia a dia.

Mas para o sucesso da volta é também fundamental o papel do retalho alimentar. Com a instalação de cerca de 2.500 máquinas de devolução em supermercados e hipermercados em todo o país, o retalho será um ponto central na operacionalização do sistema. Para muitos consumidores, será precisamente no momento das compras que a devolução das embalagens passará a fazer parte da rotina. A ação do sector tem sido fundamental desde o início do processo, permitindo desenvolver uma rede de recolha altamente capilar, localizada em todo o território nacional, e que responde às necessidades dos cidadãos.

Além do retalho, os produtores e embaladores são peças-chave neste sistema. São responsáveis pelo financiamento do SDR, ao abrigo do princípio da Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP), assegurando que os custos da gestão das embalagens que colocam no mercado são assumidos de forma responsável. Para além disso, investiram na adaptação dos seus produtos ao sistema, incluindo na integração do símbolo volta, e garantem a compatibilidade com as máquinas de recolha, de forma a tornar o processo simples e seguro para o consumidor. Graças a este alinhamento, todo o ciclo, desde a produção até à devolução, funciona de forma eficiente e previsível, reforçando a confiança de todos na economia circular.

Este trabalho tem sido possível graças ao envolvimento dos associados da SDR Portugal, que reúne produtores, embaladores e retalhistas que abarcam praticamente a totalidade da indústria de bebidas e do retalho alimentar em Portugal. Essa articulação garante que o sistema tem escala nacional e que todos os intervenientes estão alinhados em torno do mesmo objetivo: aumentar a recolha de embalagens e reforçar a circularidade dos materiais.

Mais do que uma solução técnica, a volta representa uma oportunidade para transformar a relação dos consumidores com as embalagens que utilizam no dia a dia. Cada garrafa ou lata devolvida significa menos resíduos na rua e nas praias, mais materiais recuperados e um contributo direto para o nosso ambiente, para um Portugal mais limpo. 

A experiência mostra que, quando os sistemas são acessíveis e integrados nas rotinas das pessoas, rapidamente se tornam parte do quotidiano. Quando conseguirmos integrar esse gesto no nosso dia a dia, estaremos não apenas a cumprir metas, mas a consolidar uma nova cultura proteção do ambiente. Uma cultura em que cada embalagem tem valor e em que cada cidadão tem um papel ativo na construção de um futuro mais sustentável. Afinal, quando devolvemos uma garrafa ou uma lata, estamos também a dar uma nova volta ao ciclo dos materiais e a contribuir para que o futuro tenha, de facto, “v de volta”.

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Lia Oliveira

Diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Lia Oliveira

Lia Oliveira

diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal

Lia Oliveira é diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal. Esta entidade é responsável pela implementação e gestão do Sistema de Depósito e Reembolso de embalagens de bebidas em Portugal. Conta com mais de 20 anos de experiência no desenvolvimento de marcas, marketing estratégico e comunicação.

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