Vista exterior do edifício-sede da Organização Mundial do Comércio, em Genebra, na Suíça. Em primeiro plano destaca-se um monólito escuro com o logótipo e a sigla da organização, enquanto ao fundo surge o complexo institucional rodeado por áreas ajardinadas e árvores cuidadosamente alinhadas Foto Shutterstock

OMC alerta: fragmentação do comércio pode reduzir PIB mundial em quase 7% até 2050

Uma erosão profunda do sistema multilateral de comércio poderá ter um impacto significativo na economia mundial. Num cenário em que a cooperação através da Organização Mundial do Comércio (OMC) seja substituída por uma rede de acordos de livre comércio entre países ou grupos de países, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial poderá ficar 6,9% abaixo do nível que atingiria num cenário de continuidade do sistema multilateral, enquanto as exportações poderão recuar 26,9% até 2050.

As estimativas constam do “World Trade Report 2026”, publicado pela OMC, que analisa os riscos associados à fragmentação do comércio mundial num contexto de crescente tensão geopolítica, políticas industriais mais intervencionistas e utilização crescente de argumentos de segurança nacional para justificar restrições comerciais.

Sem OMC, impacto pode aproximar-se dos 7% do PIB

A OMC desenvolveu diferentes cenários para avaliar os efeitos de uma deterioração da cooperação internacional. No cenário mais severo, denominado “FTA world”, a cooperação multilateral desapareceria e seria substituída por uma rede de acordos de livre comércio bilaterais ou entre grupos de países. Nesse caso, as simulações apontam para uma redução de 6,9% do PIB mundial e 26,9% das exportações globais até 2050.

Não se trata de uma previsão de que esta evolução vá ocorrer, mas de uma estimativa do custo económico potencial de um cenário em que a OMC deixe de desempenhar o seu atual papel.

Num segundo cenário, designado “geo-fragmented world”, o comércio internacional passaria a organizar-se essencialmente em blocos alinhados segundo afinidades geopolíticas. A OMC estima que essa fragmentação poderia reduzir o PIB global em 5,1% e as exportações mundiais em 18,6% relativamente ao cenário de referência.

A instituição alerta que os efeitos não seriam distribuídos de forma uniforme. Economias pequenas e de menor rendimento seriam particularmente vulneráveis à substituição de regras multilaterais por negociações baseadas sobretudo no peso económico e político de cada país. Segundo a OMC, estas economias poderão perder proporcionalmente mais de três vezes do que os países de rendimento elevado num cenário de maior fricção geopolítica.

Mais cooperação poderia acrescentar 2,9% ao PIB mundial

O relatório apresenta também um cenário na direção oposta. Num contexto de cooperação multilateral reforçada, com redução adicional de barreiras e custos comerciais, a OMC estima que o PIB mundial poderia aumentar 2,9% até 2050, enquanto as exportações globais cresceriam 17,9%.

A organização calcula que o reforço do sistema multilateral poderia acrescentar aproximadamente três biliões de dólares à economia mundial até 2050.

A diferença entre um cenário de maior cooperação e outro de erosão profunda da OMC poderá, deste modo, representar entre 5% e 10% do PIB real mundial, dependendo da trajetória seguida.

Tarifas, sanções e restrições ao investimento ganham peso

O relatório surge num período em que as tensões geopolíticas estão a traduzir-se numa utilização crescente de instrumentos de política comercial. Tarifas aduaneiras, restrições às exportações e importações, sanções dirigidas a empresas ou países e limitações ao investimento estão entre as medidas que podem aumentar a fragmentação do comércio mundial.

A OMC identifica quatro grandes transformações que estão a testar o atual sistema: redistribuição do poder económico mundial, maior intervenção dos Estados na economia, alterações na natureza do comércio e agravamento das tensões geopolíticas.

Desde 1995, a participação das economias de rendimento baixo e médio no comércio mundial de mercadorias quase duplicou e representa atualmente cerca de 45% do total, modificando a distribuição do poder comercial entre países.

Segurança nacional desafia regras comerciais

Outra das preocupações da OMC está na utilização crescente dos conceitos de segurança nacional e autonomia estratégica como fundamento para restringir comércio e investimento.

O relatório identifica áreas como comércio digital, inteligência artificial, medidas climáticas, política industrial, subsídios e empresas públicas entre os temas que estão a testar regras comerciais concebidas num contexto económico muito diferente do atual.

O desafio, segundo a organização, passa por encontrar um equilíbrio entre interesses legítimos de segurança e manutenção de um sistema comercial previsível.

72% do comércio de mercadorias continua sob regras da OMC

Apesar do aumento das tensões, a OMC sublinha que o sistema multilateral continua a ter um peso central na economia mundial.

Cerca de 72% do comércio mundial de mercadorias continua a realizar-se segundo as condições de nação mais favorecida da OMC, ou seja, através das regras tarifárias aplicadas aos membros da organização e não exclusivamente através de acordos comerciais preferenciais.

O comércio mundial de bens mantinha também uma trajetória de resistência em meados de 2026. O mais recente “Goods Trade Barometer” da OMC atingiu 102 pontos, acima do valor de referência de 100 e dos 101,7 registados em junho, indicando volumes de comércio superiores à tendência recente.

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