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“Nunca quisemos ser iguais aos outros, nunca quisemos fazer o mesmo que os outros”

São portugueses e não pedem desculpa por isso. São também o maior empregador da Golegã e todos os dias levam diversos molhos e temperos para a mesa dos consumidores. Falamos da Mendes Gonçalves, detentora da marca Paladin e uma das empresas mais conhecidas no mercado nacional, que recebeu, recentemente, o Prémio Heróis PME, por ter sobressaído durante o período de grave recessão económica em Portugal e ter “dado o salto” nos últimos anos. O segredo está nas pessoas e na máxima do seu fundador: não fazer igual aos outros.

Há 34 anos, na Golegã, o fundador da Mendes Gonçalves fazia nascer o sonho, seguindo a máxima de “não fazer igual aos outros”. O sonho tornou-se realidade e parece não parar de crescer. A Mendes Gonçalves está hoje nos quatro cantos do mundo, com presença em cerca de 32 países. Igual continua a máxima da empresa, que procura inovar a cada dia, numa categoria onde, por vezes, parece que tudo já foi inventado.

Para Carlos Mendes Gonçalves o segredo da empresa é apenas um: as pessoas. “É uma empresa constituída por pessoas que acreditam naquilo que fazem, que o fazem bem e que juntas têm um propósito muito claro: ser felizes e realizadas nesta empresa e na nossa terra, a Golegã”, afirma. De 300 mil euros, a Mendes Gonçalves passou para 28 milhões de euros de faturação. De 10 colaboradores, cresceu para 230, tornando-se no maior empregador da região, de onde não quer sair.

Com um presente risonho e um futuro promissor pela frente, nem sempre o desenvolvimento foi fácil. Carlos Mendes Gonçalves tinha apenas 15 anos quando o seu pai decidiu criar uma empresa improvável para a época. Apesar da jovem idade, nem por isso deixou de apoiar e incentivar o pai, à data com 60 anos e a lutar contra um problema oncológico, a seguir em frente com o projeto. O apoio ao pai retribuiu-lhe uma enorme responsabilidade, ser sócio da empresa desde o primeiro dia. “O meu pai decidiu investir tudo o que tinha numa empresa muito improvável. Essa coragem inicial de começar e arriscar deve ter sido o maior desafio da empresa até aos dias de hoje, arriscar tudo num negócio, bem diferente daquilo que é hoje”. A irreverência e a diferença estão no ADN da Mendes Gonçalves, que se iniciou com um produto peculiar, o vinagre de figo. Se atualmente a oferta de vinagres é extensa em qualquer linear de supermercado, à data o produto era “estranho”, num mercado onde só existiam vinagres de vinho branco e vinagres de vinho tinto.

Diferenciação
Apesar do evidente crescimento, o espírito de marcar pela diferença mantém-se. “Nunca quisemos ser iguais aos outros, nunca quisemos fazer o mesmo que os outros. Nunca podemos perder isso, quando perdermos isso, perdemos tudo. Estamos num mercado onde o nosso concorrente é, provavelmente, 100 vezes maior que nós. É uma categoria onde estão presentes algumas das maiores multinacionais do mundo. No dia em que formos iguais, somos mais um e morremos”.

A diferenciação tem vindo a dar frutos. É com a assinatura “Temperos de Portugal” que a Mendes Gonçalves quer levar os sabores nacionais além-fronteiras. Recentemente o Ketchup à Portuguesa da sua marca Paladin sagrou-se vencedor numa das mais importantes feiras do mundo. Sendo este um dos molhos mais massificados e conhecidos, o feito é, para a empresa, motivo de grande orgulho. A embalagem preta, ao invés da tradicional vermelha, e um sabor diferente valeram-lhe a vitória, ao lado de concorrentes extremamente fortes.

Mais do que orgulhoso no seu produto, Carlos Mendes Gonçalves é um acérrimo defensor da qualidade dos produtos nacionais, hoje uma bandeira internacional nos produtos alimentares. É por isso mesmo que o “statement” Temperos de Portugal continua a fazer todo o sentido na expansão internacional da empresa da Golegã. “O que aconteceu com o ketchup é uma vitória e um sinal de que estamos no bom caminho e nós, Mendes Gonçalves, somos apenas uma pequena parte do muito bem que se faz hoje em Portugal. É uma prova de que conseguimos ganhar em qualquer parte e, sobretudo, ganhar dizendo que somos portugueses, com produtos portugueses e a partir de Portugal. Hoje, está mais que comprovado que os produtos alimentares portugueses podem estar em qualquer prateleira de qualquer supermercado do mundo. Portugal é um país pequeno, nunca podemos ganhar por dimensão, por isso, é ganhar pela diferenciação, pela qualidade e por uma mensagem diferente”, explica.

Inovação
O crescimento da empresa proporcionou uma forte aposta em inovação. A Mendes Gonçalves tem hoje um departamento de investigação e desenvolvimento composto por 11 pessoas. É neste departamento que, por ano, se desenvolvem cerca de 200 produtos diferentes. Olhando para a inovação contínua como a chave para continuar a crescer, a empresa acredita que existe ainda muito espaço para novos produtos, formatos e sabores. “Dos produtos que desenvolvemos, entre 40 a 60 chegam ao mercado todos os anos. Há muito espaço para crescer e esse é o nosso desafio, a nossa maneira de estar e o nosso futuro. Ainda temos muito por onde explorar e muito por onde surpreender. Há também todo um mercado que hoje se abre, de produtos com menos açúcar, menos sal, mais saudáveis, etc.”.

Inseridos numa categoria de fortes concorrentes, impor uma marca não é um caminho fácil. Contudo, a resposta dos consumidores à portuguesa Paladin parece evidenciar a certeza da estratégia, com a marca a conseguir ganhar quota de mercado a grandes “players”.

Internacionalmente, a Mendes Gonçalves está já presente em diversos mercados, como África, Médio Oriente, Coreia, Rússia ou México. A receita para o sucesso na expansão internacional passa por não ter pressa no processo de abordagem a novos mercados. Também a adaptação dos formatos e produtos ao gosto e especificidades de cada país são um pilar da internacionalização. Se a dimensão da empresa poderia ser vista como um entrave, a diferenciação é, uma vez mais, a resposta encontrada. “É fundamental não ter pressa. Tal como fazemos em Portugal, onde a nossa mensagem é clara com Temperos de Portugal, na nossa internacionalização procuramos adaptar-nos. Desde logo, por questões legais, que temos de cumprir, mas, principalmente, por questões de gosto. Encaramos cada país como uma realidade, estudamos cada mercado muito bem e não temos pressa. Queremos fazer bem e não dar passos em falso. Não nos podemos dar ao luxo de dar muitos tiros para o ar e não acertar”.

O novo centro logístico, sempre na Golegã, veio fortalecer a empresa, que se sentia já a ficar “estrangulada”, ganhando assim um novo fôlego na distribuição, nacional e internacional, dos seus produtos. É de sorriso no rosto que Carlos Mendes Gonçalves diz que “a Mendes Gonçalves está em obras há 34 anos. O que é bom sinal, é sinal de que vamos crescendo”. É precisamente esse crescimento que tornou a empresa no maior empregador da região. Com a melhoria das vias de comunicação, a Golegã está hoje perto de tudo e no centro do país. E é aí, na terra que os viu nascer, que se querem manter, com toda a responsabilidade que isso acarreta. Não escondem a discriminação positiva tanto nos seus funcionários, como nas matérias primas utilizadas, que procuram, sempre que possível, que sejam da região. É o carinho e o sentimento de responsabilidade que mantêm a Mendes Gonçalves na cidade. “É uma grande responsabilidade que, fruto do desenvolvimento, acabou por nos cair em cima e não descuramos de forma alguma. É o mais importante que temos, a relação com as pessoas. Somos uma empresa familiar, não por pertencermos a uma família, mas precisamente por sermos uma família e termos várias famílias a viver do rendimento que a empresa dá. Procuramos estar à altura dessa responsabilidade, que já encaramos como natural. Não somos da Golegã por acaso, é a nossa terra e foi aqui que quisemos ficar”.

Com 2018 à porta, a Mendes Gonçalves promete continuar a surpreender o mercado e os consumidores. Sem levantar muito o pano, é já certo que irão chegar produtos novos às prateleiras. Sem revelar sabores ou formatos, a qualidade é uma certeza. “A qualidade hoje é um dado, ou a empresa a tem ou a empresa não existe. Felizmente temos tido a felicidade de ter produtos a mais para lançar, por isso temos de selecionar. Não queremos fazer tudo de uma vez. No futuro, o que queremos é continuar a ser felizes e realizados, na nossa terra e com a nossa gente”, remata.

Este artigo foi publicado na edição n.º 48 da Grande Consumo.

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