A inteligência artificial continua a ser percecionada de forma maioritariamente positiva, mas os consumidores estão a tornar-se mais exigentes relativamente aos benefícios e consequências da sua utilização.
Segundo a 10.ª edição do “Ipsos Global Trends”, 56% dos participantes em 38 mercados considera que a IA está a ter um impacto positivo no mundo, enquanto 35% discorda.
O saldo permanece favorável à tecnologia, mas a evolução recente revela sinais de menor entusiasmo em alguns dos mercados e grupos etários que anteriormente demonstravam maior confiança. Nesse sentido, a Ipsos considera que esta transformação pode representar um desafio para as empresas que estão a acelerar a integração da IA nos seus produtos, serviços e relações com os consumidores.
Jovens mostram sinais de menor entusiasmo
Um dos resultados mais relevantes encontra-se na evolução das atitudes das gerações mais jovens. Nos 37 mercados comparáveis entre 2025 e 2026, a proporção de jovens entre os 16 e os 24 anos que consideram a IA positiva diminuiu sete pontos percentuais. Entre os 25 e os 34 anos, a redução foi de quatro pontos. Nos grupos etários mais velhos, as opiniões permaneceram relativamente estáveis.
Esta diferença sugere que os consumidores mais familiarizados com as novas tecnologias não são necessariamente aqueles que mantêm uma confiança crescente no seu impacto. A Ipsos relaciona esta evolução com preocupações sobre o emprego, o ambiente e as consequências sociais da automatização.
Mercados tecnológicos revelam maior prudência
O abrandamento do entusiasmo foi identificado em mercados como Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Reino Unido. Mesmo na China, onde a perceção positiva da inteligência artificial continua elevada, a Ipsos identificou sinais de moderação.
Os Estados Unidos apresentam uma situação particularmente relevante. Apesar de concentrarem algumas das principais empresas que desenvolvem sistemas de IA, apenas cerca de um terço dos participantes norte-americanos considera que esta tecnologia tem um impacto positivo no mundo. No indicador de saldo líquido de concordância (diferença entre opiniões positivas e negativas), os Estados Unidos registam -22 pontos.
Portugal apresenta um saldo positivo de 36 pontos, enquanto Espanha regista 13 pontos.
Emprego e impacto social entre as preocupações
A evolução das atitudes poderá estar relacionada com o receio de que a inteligência artificial provoque alterações profundas no mercado de trabalho. O relatório recorda resultados do “Ipsos AI Monitor 2026”, segundo os quais 35% dos trabalhadores inquiridos considera provável que a IA venha a substituir o seu emprego atual nos cinco anos seguintes. O receio de substituição profissional constitui um dos fatores que podem influenciar a avaliação da tecnologia.
Paralelamente, 57% dos participantes nos 38 mercados concorda com a afirmação de que o progresso tecnológico está a destruir as nossas vidas. A Ipsos destaca que esta perceção aumentou significativamente desde 2013 em alguns países, incluindo Reino Unido, França e África do Sul.
Consumidores procuram benefícios concretos
Segundo a Ipsos, os consumidores não estão necessariamente a rejeitar a inteligência artificial. O que está a mudar é a forma como avaliam os seus benefícios. As aplicações que apresentam resultados facilmente compreensíveis, nomeadamente em saúde, investigação científica e educação, tendem a gerar maior aceitação do que promessas genéricas de transformação ou produtividade.
Para as empresas, esta evolução reforça a importância de demonstrar a utilidade prática das soluções. A transparência sobre a utilização dos dados, a possibilidade de intervenção humana e a capacidade de escolha dos consumidores poderão também influenciar a confiança.
Impacto para o retalho e as marcas
No grande consumo e no retalho, a inteligência artificial está a ser utilizada em áreas como personalização de ofertas, apoio ao cliente, previsão da procura, gestão de stocks e desenvolvimento de produtos. A crescente prudência dos consumidores poderá tornar mais importante a comunicação sobre o funcionamento destas tecnologias.
As empresas terão de explicar não apenas o que a IA consegue fazer, mas também quais os benefícios concretos para os clientes e que mecanismos existem para assegurar transparência e controlo.
O relatório recomenda que a tecnologia seja utilizada para melhorar as relações humanas, em vez de simplesmente substituir o contacto entre pessoas.
Confiança tecnológica exige resultados
A principal conclusão da Ipsos é que a adoção da inteligência artificial não garante automaticamente uma perceção positiva dos consumidores. As expectativas estão a tornar-se mais exigentes e as preocupações com os efeitos sociais da tecnologia começam a influenciar a avaliação de diferentes grupos.
Para fabricantes e distribuidores, a capacidade de demonstrar utilidade, preservar a confiança e oferecer controlo aos consumidores poderá ser tão importante como a própria inovação tecnológica.







