O consumidor está a mudar a forma como gere as suas compras e nem a melhoria dos indicadores económicos parece ser suficiente para inverter os hábitos de contenção adquiridos nos últimos anos. Segundo uma análise da Worldpanel by Numerator, o volume de compras de produtos de grande consumo em Espanha diminuiu 0,6% no primeiro semestre de 2026, face ao período homólogo, apesar da evolução positiva de alguns indicadores macroeconómicos.
A consultora identifica a emergência de um novo comportamento, que designa por “Consumidor Control”, caracterizado por uma maior vigilância sobre as decisões de compra, comparação de alternativas e necessidade de justificar cada despesa.
Neste contexto, a prudência tornou-se a mentalidade dominante entre os consumidores espanhóis. Atualmente, 33% afirma adotar uma atitude de contenção, mesmo quando a sua situação económica lhes permitiria gastar mais. Há quatro anos, este grupo representava apenas 21% da população, o que corresponde a um crescimento de 12 pontos percentuais.
Quatro mentalidades perante a mesma realidade económica
A Worldpanel by Numerator identificou quatro perfis de consumidores, tendo em conta não apenas o rendimento disponível, mas também a forma como cada pessoa interpreta a sua situação financeira e adapta as decisões de compra. O objetivo é compreender por que razão consumidores com capacidades económicas semelhantes podem apresentar comportamentos de consumo distintos.
Os consumidores prudentes representam o grupo mais numeroso, 33% da população, e distinguem-se pela decisão de limitar as despesas apesar de terem alguma margem financeira.
Já os consumidores vulneráveis, que correspondem a 26% da população, enfrentam restrições económicas que os obrigam a renunciar a determinadas compras.
Em conjunto, os dois grupos representam 59% dos consumidores espanhóis, demonstrando que a contenção domina atualmente as decisões de consumo.
Os outros dois grupos são os estáveis (20%), que mantêm uma perceção relativamente estável da sua situação e os otimistas (21%), que antecipam uma melhoria da sua situação económica.
Consumidores prudentes e vulneráveis compram menos
Esta transformação comportamental tem consequências mensuráveis nas quantidades adquiridas. Segundo a Worldpanel, os consumidores prudentes reduziram o volume de compras em 0,5% relativamente ao ano anterior, enquanto os vulneráveis registaram uma quebra de 0,7%.
A diferença entre os dois perfis é particularmente relevante: enquanto uns compram menos por necessidade, outros fazem-no por opção, privilegiando a gestão do orçamento e procurando evitar despesas que consideram dispensáveis.
Para a consultora, os mecanismos de poupança desenvolvidos durante os últimos anos, em resposta ao aumento dos preços, estão a transformar-se em hábitos consolidados. Comparar produtos, procurar alternativas mais económicas e questionar o valor acrescentado das marcas são comportamentos que poderão persistir mesmo que a situação financeira dos agregados familiares melhore.
Recuperação económica pode não significar recuperação do consumo
Uma das principais conclusões da análise é que a melhoria dos rendimentos ou dos indicadores económicos não garante o regresso aos anteriores padrões de consumo. Após vários anos de pressão inflacionista, os consumidores aprenderam a gerir o orçamento segundo novas regras e poderão não abandonar facilmente esses comportamentos.
Eduardo Viera, strategic business director da Worldpanel by Numerator, nota que as marcas não devem esperar que a recuperação dos volumes aconteça automaticamente com a melhoria da conjuntura económica. Na sua perspetiva, será necessário identificar os consumidores com maior potencial de crescimento e construir propostas capazes de os convencer a aumentar as despesas.
Esta mudança coloca novos desafios à indústria de grande consumo, sobretudo num mercado em que os consumidores exigem razões mais claras para escolher determinados produtos e pagar preços superiores.
Marcas têm de justificar o seu lugar no cabaz de compras
Efetivamente, a consolidação de uma mentalidade prudente poderá obrigar fabricantes e distribuidores a reavaliar as estratégias comerciais. Se uma parte significativa dos consumidores dispõe de capacidade económica, mas opta por não aumentar as compras, a resposta das empresas não poderá depender exclusivamente de uma eventual recuperação do poder de compra.
A capacidade de demonstrar qualidade, diferenciação, conveniência ou benefícios concretos poderá tornar-se determinante para conquistar uma maior proporção do orçamento familiar. O preço continuará a desempenhar um papel relevante, mas a decisão de compra dependerá também da perceção de valor que cada produto oferece.
Para as marcas, o desafio consiste em compreender quais os comportamentos de contenção que se tornaram permanentes e quais poderão alterar-se perante propostas comerciais mais relevantes. A Worldpanel considera, por isso, que a questão central já não deve ser quando regressarão os consumidores aos níveis anteriores de consumo, mas antes perceber se esses padrões voltarão efetivamente a repetir-se.







