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O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO na sua sigla em inglês) manteve-se praticamente inalterado em março de 2025, fixando-se nos 127,1 pontos, segundo o relatório mensal.
O valor representa uma subida de 6,9% face a março de 2024, embora continue 20,7% abaixo do pico histórico registado em março de 2022.
Cereais e óleos com tendências contrastantes
O índice dos cereais caiu 2,6% em março, refletindo o abrandamento das preocupações com as colheitas em grandes exportadores do hemisfério norte e a melhoria das perspetivas no Brasil e na Argentina.
Também os preços do arroz caíram 1,7%, devido à fraca procura e à abundância de stocks exportáveis.
Já o índice dos óleos vegetais subiu 3,7%, com todos os principais óleos (palma, soja, colza e girassol) a registarem aumentos. A subida foi impulsionada por uma forte procura internacional, pela escassez de oferta no sudeste asiático e pela redução de exportações por parte dos principais produtores.
Carne e lacticínios: subidas pontuais e estabilidade
O índice da carne cresceu 0,9%, sobretudo devido ao aumento dos preços da carne de porco na Europa, após a recuperação do estatuto sanitário da Alemanha. Também se verificaram subidas nos preços da carne ovina e bovina, enquanto a carne de aves se manteve estável, apesar dos surtos contínuos de gripe aviária.
Os produtos lácteos mantiveram-se inalterados em relação a fevereiro, com quedas nos preços do queijo compensadas por subidas na manteiga e nos leites em pó.
Açúcar recua ligeiramente com menor procura global
Destaque ainda para o índice do açúcar, que caiu 1,6%, influenciado por sinais de enfraquecimento da procura global e chuvas favoráveis no Brasil.
Apesar disso, as preocupações com as colheitas na Índia e os riscos climatéricos no Brasil limitaram a queda.
Note-se que os valores apresentados no índice de preços dos alimentos da FAO referem-se a preços internacionais das commodities agrícolas, ou seja, ao valor médio de produtos alimentares básicos transacionados nos mercados globais, como trigo, milho, arroz, óleos vegetais, carne e açúcar. Não refletem diretamente os preços finais pagos pelos consumidores nos supermercados, pois estes incorporam custos adicionais, como transporte, transformação industrial, embalamento, margem dos distribuidores, impostos e fatores locais como inflação, câmbio e políticas fiscais. Ainda assim, as tendências nas commodities influenciam os preços finais ao longo do tempo, com algum desfasamento, e são um indicador antecipado importante da evolução dos preços alimentares a nível global.
Tendência oscilante
A evolução dessas tendências tem sido marcada por fortes oscilações nos últimos anos. Após o pico histórico registado em março de 2022, altura em que o índice de preços dos alimentos da FAO atingiu os 159,7 pontos, os preços começaram uma trajetória de descida moderada, refletindo o alívio progressivo das tensões nas cadeias de abastecimento globais. A subida abrupta de 2021 e 2022 foi impulsionada por fatores como a invasão da Ucrânia pela Rússia, o aumento dos custos da energia e dos fertilizantes e as disrupções logísticas herdadas da pandemia de Covid-19.
Em 2023, iniciou-se uma correção nos mercados internacionais de matérias-primas alimentares, com descidas particularmente expressivas nos preços dos cereais e óleos vegetais. Já em 2024 e no início de 2025, os preços mantiveram-se relativamente estáveis, com o índice da FAO a oscilar entre os 120 e os 130 pontos.
A evolução tem sido influenciada por múltiplos fatores, incluindo fenómenos climáticos como o El Niño, eventos geopolíticos com impacto nas exportações, a recuperação gradual do comércio internacional e as dinâmicas de procura em grandes mercados como a China e o sudeste asiático. Trata-se, por isso, de um indicador importante da evolução estrutural dos mercados alimentares, com implicações tanto para os produtores como para os decisores políticos e o consumidor final.
Perspetivas para a produção e comércio mundial de cereais
Relativamente à produção mundial, a FAO estima ainda que, no que se refere aos cereais, esta se tenha situado, em 2024, em 2.849 milhões de toneladas, uma queda de 0,3% face a 2023, mas acima das previsões anteriores.
Para 2025, espera-se que a produção de trigo na União Europeia cresça 12% após as quebras causadas pelas condições meteorológicas em 2024. As exportações mundiais de cereais deverão cair 6,7%, com a China a reduzir significativamente as suas importações.