A reformulação dos alimentos continua a ser uma das ferramentas centrais da política europeia para melhorar a qualidade nutricional da oferta disponível aos consumidores. O relatório “Monitoring the nutrition quality of Europe’s food offer”, elaborado pelo Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, analisa a composição de produtos alimentares embalados em 21 países europeus e concentra-se em cinco categorias consideradas prioritárias: cereais de pequeno-almoço, pão e produtos de padaria, lacticínios frescos e sobremesas, charcutaria e refrigerantes.
A principal conclusão é que continuam a existir diferenças muito amplas nos teores de açúcares, gorduras, sal e fibra, tanto entre países como entre produtos da mesma subcategoria. Para o JRC, os resultados mostram que a reformulação é possível, mas continua a ser necessária.
Mais de 180 mil produtos permitem comparar a oferta europeia
A análise recorre a dados harmonizados reunidos através de diferentes programas europeus, incluindo EUREMO e as Joint Actions Best-ReMaP e JANPA. Essa informação está agregada no Food and Beverages Labels Explorer (FABLE), uma ferramenta criada pelo JRC para disponibilizar a decisores, investigadores e público informação comparável sobre a composição dos alimentos comercializados na Europa.
O objetivo é ultrapassar um problema recorrente: embora muitos países acompanhem a composição dos alimentos, as diferenças de metodologia tornam difícil perceber se uma determinada categoria está realmente a melhorar ao longo do tempo e como se compara com outros mercados.
Cereais semelhantes podem ter diferenças muito grandes de açúcar
Entre os exemplos que mais ilustram a heterogeneidade da oferta estão os cereais de pequeno-almoço. A análise identificou produtos comparáveis com teores de açúcar que variavam aproximadamente entre um e 28 gramas por 100 gramas de produto.
Uma amplitude desta dimensão mostra que, numa mesma categoria, é possível formular produtos com perfis nutricionais substancialmente diferentes sem eliminar necessariamente a função ou o formato do alimento. É precisamente este tipo de variação que o JRC utiliza como evidência de que existe espaço técnico para reformulação.
Portugal apresenta aumento da gordura nos cereais analisados
Portugal surge entre os países para os quais existem dados comparáveis em diferentes momentos de recolha. Nos cereais de pequeno-almoço analisados, o teor médio de gordura total terá passado de cerca de 4,4 para 8,4 gramas por 100 gramas entre as recolhas de 2020 e 2022, segundo a leitura dos resultados divulgada após a apresentação do relatório.
O dado deve, contudo, ser interpretado com cuidado. Não significa que todos os cereais vendidos atualmente em Portugal tenham mais gordura, nem que o mercado português tenha duplicado globalmente esse nutriente. Refere-se ao conjunto de produtos analisado em dois momentos específicos e pode refletir alterações de sortido, composição da amostra ou reformulações de referências concretas.
Uma das mensagens mais relevantes do estudo é precisamente que reformular não significa apenas reduzir um único nutriente. Em vários mercados foram observadas reduções no teor de açúcar em determinadas categorias, mas em alguns casos essas melhorias foram acompanhadas por aumentos de gordura ou outras alterações na composição.
Isto cria um desafio para fabricantes e decisores: uma reformulação focada exclusivamente na redução de açúcar, sal ou gordura pode não produzir uma melhoria global se outro componente aumentar para compensar o sabor, a textura ou a funcionalidade tecnológica. A qualidade nutricional deve, por isso, ser avaliada de forma integrada.
Pão, charcutaria, lacticínios e refrigerantes também apresentam grande dispersão
O fenómeno não se limita aos cereais. Nos produtos de padaria e pão, o teor de sal varia significativamente entre produtos e países. Na charcutaria, sal e gordura continuam a apresentar amplitudes elevadas. Nos lacticínios frescos e sobremesas, açúcares e gorduras distinguem de forma marcada subcategorias que, para o consumidor, podem parecer relativamente semelhantes. E nos refrigerantes, o açúcar continua a ser um dos principais pontos de diferenciação entre produtos tradicionais, versões reformuladas e alternativas sem açúcar.
O JRC considera que estas diferenças permitem identificar referências com melhor perfil nutricional que podem funcionar como benchmark para o restante mercado.
Reformulação é vista como uma das medidas mais custo-eficazes
A Comissão Europeia enquadra a reformulação alimentar como uma das intervenções consideradas mais custo-eficazes para melhorar a alimentação da população. Se um produto consumido regularmente reduzir de forma moderada açúcar, sal ou gordura, o impacto acumulado pode ser relevante sem exigir uma alteração consciente do comportamento individual do consumidor. Por isso, a reformulação funciona em paralelo com medidas como rotulagem nutricional, educação alimentar, fiscalidade e restrições de marketing.
As diferenças identificadas pelo estudo têm também implicações para o retalho. Dois produtos colocados lado a lado na mesma categoria podem apresentar composições nutricionais muito diferentes, mesmo quando têm preço, embalagem ou posicionamento semelhantes. Nesse sentido, aumenta a importância de uma rotulagem clara, de informação nutricional comparável, de ferramentas digitais de apoio à escolha, dos critérios de sortido e da reformulação das marcas próprias.
Para distribuidores com portefólios próprios, os benchmarks europeus podem ser utilizados para identificar onde determinadas referências estão acima ou abaixo do perfil nutricional de produtos comparáveis.
DGS participou na apresentação do relatório
Portugal esteve também representado na apresentação pública do estudo. O webinar promovido pelo JRC a 7 de outubro contou com a participação de Maria João Gregório e Margarida Bica, da Direção-Geral da Saúde, que apresentaram um exemplo de utilização do FABLE noutros projetos de política nutricional.
Maria João Gregório dirige o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, enquanto Margarida Bica colabora com esse programa e com a Joint Action PreventNCD.
O FABLE foi desenvolvido precisamente para permitir uma recolha e comparação mais harmonizadas entre países. A plataforma reúne informação obtida através de projetos financiados pela União Europeia e permite explorar produtos de marcas comerciais, categorias e nutrientes de forma comparável.
Para a Comissão Europeia, esta infraestrutura pode apoiar a definição de metas de reformulação, a atualização de benchmarks nutricionais, o acompanhamento dos compromissos da indústria e a avaliação da evolução da oferta alimentar.
Dados não representam necessariamente a oferta atual de 2026
Esta é uma ressalva essencial. Embora o relatório tenha sido publicado em 2026, grande parte dos dados analisados foi recolhida em anos anteriores, nomeadamente 2021 e 2022, existindo também séries de outros períodos consoante o país e a categoria. Por isso, os resultados não devem ser apresentados como uma fotografia exata de todos os produtos atualmente disponíveis nos supermercados europeus. Algumas referências podem ter sido reformuladas, retiradas do mercado ou substituídas desde a recolha.
Outra limitação é que a composição do mercado pode variar significativamente. Uma média nacional pode ser influenciada pelas marcas disponíveis, pelo peso da marca própria, pela variedade do sortido, pelas preferências de consumo, pelo número de produtos recolhidos e pelo momento da recolha. Por isso, um país com um valor médio mais elevado num determinado nutriente não deve ser automaticamente classificado como tendo uma oferta globalmente “pior”.
Reformulação enfrenta limites tecnológicos e comerciais
Reduzir o açúcar, a gordura ou o sal nem sempre é uma alteração simples. Estes ingredientes desempenham funções que vão além do sabor: podem influenciar a conservação, a textura, a estrutura, a humidade ou a segurança microbiológica. Uma reformulação mal recebida pode levar o consumidor a abandonar a referência ou a migrar para um produto concorrente, reduzindo o impacto real da medida.
A reformulação está ligada a uma transformação mais ampla do consumo. Os consumidores estão mais atentos a proteína, fibra, açúcar, ingredientes, aditivos e grau de processamento, enquanto os fabricantes procuram responder com novas formulações e alegações. Mas o estudo do JRC lembra que uma alegação isolada não descreve necessariamente a qualidade nutricional total de um produto. Um produto pode ter menos açúcar e mais gordura; mais proteína, mas também mais sal; ou maior fibra sem melhorar outros componentes. É essa visão integrada que a Comissão Europeia pretende reforçar.









