Pessoa observa computadores portáteis expostos numa loja de electrónica Foto Shutterstock

63% dos consumidores de tecnologia é sensível ao preço, mas “barato” já não basta

Os consumidores estão a tornar-se mais exigentes na compra de tecnologia e eletrodomésticos, avaliando cada vez mais se o produto justifica o investimento no médio e longo prazo. Segundo o “Consumer Tech Trends 2027”, da NIQ, 63% dos consumidores de tecnologia e bens duradouros apresenta elevada sensibilidade ao preço.

Ao mesmo tempo, 60% considera uma boa relação qualidade-preço uma característica prioritária numa marca. Mas “ser barato” surge apenas em oitavo lugar quando os consumidores explicam aquilo que realmente associam a valor.

Durabilidade e qualidade ganham importância

Entre os fatores que mais pesam estão a durabilidade, qualidade elevada, capacidade de facilitar a vida e confiança na marca. Ou seja, o consumidor continua atento ao preço, mas aceita pagar mais quando identifica uma vantagem concreta.

Esta tendência é visível no crescimento de vários segmentos premium e de maior funcionalidade. As vendas de aspiradores robô cresceram 37%, enquanto os modelos wet & dry avançaram 33%. Nas máquinas de café, o mercado cresceu 3%, mas os equipamentos expresso premium aumentaram 20%. Já nas máquinas de lavar roupa, o crescimento global foi de 6%, enquanto os modelos com função de vapor avançaram 21%.

O mesmo padrão surge noutras categorias. Os televisores cresceram 4%, mas os modelos com 75 polegadas ou mais aumentaram 13%. Nos smartphones, o mercado cresceu 11%, enquanto os equipamentos com mais de 256 gigabytes de armazenamento avançaram 29%.

A leitura da NIQ é clara: o consumidor aceita fazer trade up quando percebe um benefício concreto, seja mais conveniência, melhor desempenho, maior duração ou uma experiência claramente superior.

56% já adiou uma compra por causa do preço

Não obstante, apesar desta abertura ao premium, o preço continua a condicionar fortemente a decisão. 56% dos consumidores afirma já ter adiado a compra de tecnologia ou eletrodomésticos por considerar o produto demasiado caro ou por estar à espera de promoções.

Paralelamente, outros 39%adiaram uma compra devido a dúvidas sobre qualidade ou fiabilidade. Isto mostra que o adiamento não resulta apenas do orçamento. A incerteza sobre a qualidade do produto também trava a decisão.

Garantias, políticas de devolução e reputação da marca assumem, de facto, um papel central. Cerca de 71% dos consumidores diz que as garantias e políticas de devolução influenciam fortemente a compra, enquanto 70% valoriza a reputação da marca e 65% as avaliações e opiniões de outros utilizadores.

Num mercado com ciclos de substituição cada vez mais longos, estes fatores tornam-se ainda mais relevantes. O consumidor quer reduzir o risco de arrependimento e garantir que o equipamento adquirido vai cumprir a função esperada durante mais tempo.

Promoções concentram 35% das vendas anuais

O estudo indica ainda que as grandes campanhas promocionais continuam a ter um peso elevado no sector. Segundo a NIQ, os sete principais eventos promocionais concentram 35% do valor anual das vendas globais de tecnologia e bens duradouros. Black Friday, Prime Day e outras campanhas semelhantes tornaram-se momentos essenciais para categorias de maior valor. Mas o desconto não serve apenas para comprar mais barato.

Durante grandes campanhas promocionais, uma parte significativa dos consumidores acaba por gastar mais do que tinha inicialmente planeado. Entre os compradores de máquinas de lavar roupa, 51% gastou acima do orçamento inicial. Na computação móvel, a percentagem foi de 46%, enquanto nos televisores atingiu 44%. Isto sugere que a promoção funciona frequentemente como oportunidade para subir de gama, em vez de apenas reduzir a despesa.

Smart glasses crescem mais de 300% na Europa

Entre as categorias emergentes, os wearables apresentam alguns dos crescimentos mais expressivos. As vendas de smart rings aumentaram 87% em valor, enquanto os smart glasses cresceram mais de 300% nos cinco principais mercados europeus.

A NIQ associa este desempenho à combinação entre tecnologia, design e benefícios práticos, como fotografia sem mãos, áudio open-ear, tradução em tempo real e assistência contextual suportada por inteligência artificial.

A subida do preço médio destes dispositivos mostra também que os consumidores aceitam pagar mais quando percebem inovação útil.

Europa Ocidental deverá crescer 7%

A NIQ estima que o mercado de tecnologia e bens duradouros na Europa Ocidental alcance 277 mil milhões de dólares em 2026, cerca de 248 mil milhões de euros, com um crescimento de 7%.

A Europa de Leste deverá crescer 11%, para cerca de 50 mil milhões de dólares, aproximadamente 44,7 mil milhões de euros.

A América do Norte deverá crescer 3%, a China 2%, a Ásia emergente 11% e a América Latina 10%.

Para o conjunto de 2026, a NIQ estima que o mercado global de tecnologia e bens duradouros atinja 1,4 biliões de dólares, aproximadamente 1,25 biliões de euros, um crescimento de 5,1%. As telecomunicações deverão liderar o crescimento, com 8%, seguidas dos pequenos eletrodomésticos, com 7%. Os grandes eletrodomésticos deverão crescer 3%, enquanto eletrónica de consumo e IT avançam 2%.

Consumidor quer menos funcionalidades inúteis

Outro sinal relevante é que um em cada cinco consumidores já adiou uma compra por considerar que os produtos disponíveis não oferecem razões suficientes para substituir o equipamento que já possui. Além disso, 75% diz que informação clara sobre funcionalidades e desempenho influencia fortemente a decisão final.

Para fabricantes e retalhistas, isto significa que a inovação precisa de ser facilmente compreensível. Adicionar mais funcionalidades não garante, por si só, maior intenção de compra.

A NIQ descreve esta mudança através do conceito de “consumo justificado”. O consumidor já não pergunta apenas “posso pagar?”, mas também “vale realmente a pena?”.

O relatório baseia-se num inquérito online realizado junto de 17 mil consumidores adultos em 17 mercados, complementado com dados de vendas da área Tech & Durables da NIQ. Portugal não integra a amostra do inquérito.

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Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
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