Notas de 100 dólares enroladas em vários rolos sobre uma mesa Foto Shutterstock

Confiança dos consumidores norte-americanos recua em outubro perante pressão dos preços

A confiança dos consumidores norte-americanos voltou a cair em outubro, prolongando a deterioração observada nos últimos meses. Segundo a estimativa preliminar do “Surveys of Consumers”, da Universidade do Michigan, o índice de sentimento do consumidor desceu para 46,3 pontos, face aos 48,1 registados em setembro.

Em comparação com outubro de 2025, quando se situava nos 53,6 pontos, a quebra é de 13,6%.

O indicador permanece, assim, próximo dos níveis mais baixos da série, num contexto marcado por preços elevados, custos de financiamento mais pesados e maior preocupação com o poder de compra.

Condições económicas atuais caem para mínimo histórico

A deterioração foi particularmente expressiva na avaliação da situação presente. O índice de Current Economic Conditions caiu de 50,9 pontos em setembro para 44,7 pontos em outubro, uma descida mensal de 12,2% e homóloga de 23,7%.

Segundo Joanne Hsu, diretora do estudo, as condições para a compra de bens duradouros deterioraram-se acentuadamente, refletindo sobretudo os preços elevados e os custos de crédito.

Este ponto é particularmente relevante para categorias como automóvel, mobiliário, eletrodomésticos e eletrónica, onde o adiamento da compra tende a aumentar quando o consumidor sente menor segurança financeira.

Expectativas melhoram ligeiramente, mas continuam fracas

Nem todos os indicadores recuaram. O índice de expectativas dos consumidores subiu de 46,3 para 47,3 pontos, uma melhoria mensal de 2,2%.

Ainda assim, permanece 6% abaixo do nível registado em outubro de 2025, mostrando que a ligeira recuperação não altera o quadro geral de confiança fraca.

As expectativas sobre finanças pessoais e condições empresariais para o próximo ano melhoraram ligeiramente, mas continuam condicionadas pelo custo de vida.

Inflação esperada sobe para 4,7%

A preocupação com os preços voltou também a aumentar. As expectativas de inflação para os próximos 12 meses subiram de 4,6% para 4,7%, enquanto as expectativas de longo prazo aumentaram de 3,4% para 3,5%. Ambos os indicadores subiram pelo segundo mês consecutivo e atingiram os níveis mais elevados desde maio.

A inflação esperada a um ano está também bastante acima dos 3,4% registados em fevereiro, antes do agravamento das tensões no Médio Oriente.

Custo de vida pesa mais sobre famílias de menor rendimento

A deterioração não é uniforme entre grupos de consumidores. A Universidade do Michigan destaca que a confiança caiu de forma particularmente acentuada entre famílias de menor rendimento e consumidores com carteiras de investimento mais pequenas, precisamente os grupos com menor capacidade para absorver aumentos de preços.

Esta diferença reforça uma tendência de polarização do consumo: famílias com maior património continuam a apresentar maior resiliência, enquanto consumidores com menos margem financeira reduzem ou adiam despesa discricionária.

Bens duradouros entre os mais penalizados

As condições para aquisição de bens duradouros foram uma das áreas com pior evolução no inquérito. O aumento dos preços e dos juros torna compras de maior valor mais difíceis de justificar, sobretudo quando envolvem financiamento.

Esta dinâmica pode afetar diretamente categorias como automóveis, eletrodomésticos, mobiliário, eletrónica de consumo e equipamentos para o lar. Para os retalhistas destas áreas, a pressão poderá traduzir-se em maior necessidade de promoções, financiamento, programas de troca e outras ferramentas que reduzam a barreira do preço inicial.

Mercado de trabalho não é a principal fonte de preocupação

Curiosamente, a deterioração da confiança não parece resultar sobretudo de receios sobre emprego. Dados recentes da Reserva Federal de Nova Iorque mostram que as expectativas de desemprego e perda de emprego não pioraram de forma significativa, enquanto a confiança na possibilidade de encontrar trabalho apresentou alguma melhoria.

A principal preocupação continua a ser o nível dos preços e a perceção de que os rendimentos têm dificuldade em acompanhar o custo de vida. Isto ajuda a explicar por que razão o consumidor pode manter emprego e rendimento, mas continuar pouco confiante.

A confiança baixa não significa necessariamente uma quebra proporcional das vendas. Historicamente, os índices de sentimento podem deteriorar-se mais rapidamente do que a despesa efetiva, sobretudo quando o mercado de trabalho se mantém relativamente sólido.

Nos Estados Unidos, esse contraste continua presente: o consumidor mostra forte frustração com os preços, mas o gasto agregado permanece sustentado pelos grupos de maior rendimento. Para o retalho, isto significa que o risco está menos numa paragem generalizada do consumo e mais numa maior fragmentação entre segmentos, categorias e níveis de rendimento.

Natal chega com consumidores mais cautelosos

Os dados ganham relevância acrescida à entrada da campanha de Natal. Um estudo da Circana sobre as intenções de compra para 2026 mostra que o consumidor norte-americano prevê gastar, em média, 779 dólares, cerca de 696 euros, abaixo dos 796 dólares, aproximadamente 711 euros, registados no ano anterior.

Além disso, 74% planeia adotar estratégias de poupança, incluindo maior recurso a promoções e marcas de distribuição.

Ou seja, a quebra de confiança observada pela Universidade do Michigan é consistente com um consumidor que não abandona o consumo, mas procura controlar melhor onde e como gasta.

O contexto energético continua também a condicionar as expectativas. O agravamento das tensões no Médio Oriente contribuiu para manter elevados os preços da energia, alimentando receios de uma nova pressão inflacionista.

Esta ligação entre energia, inflação e confiança é particularmente importante porque os custos de combustível afetam não apenas os orçamentos familiares, mas também logística, produção e distribuição. Uma nova vaga de aumentos pode, por isso, pressionar simultaneamente empresas e consumidores.

Os dados agora divulgados são preliminares. A Universidade do Michigan deverá publicar os resultados finais de outubro a 23 de outubro, permitindo perceber se a deterioração observada no início do mês se mantém ou se houve alguma recuperação ao longo das semanas seguintes.

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