O Lidl coloca a origem novamente no centro da decisão por a associar a confiança e qualidade. A empresa diz ter redefinido internamente o conceito de “portugalidade” e aponta o programa Da Minha Terra como prova de que a valorização não fica apenas na intenção: segundo os dados fornecidos, alguns parceiros regionais registaram aumentos de faturação superiores a 400%.
Para a cadeia, a origem combina riqueza gastronómica regional, saber-fazer dos produtores e valor económico e social gerado no país. A empresa acrescenta que a sua contribuição acumulada para o PIB português nos últimos 30 anos se situa, segundo os seus próprios cálculos, nos 44 mil milhões de euros.
A origem, porém, não é utilizada como argumento para cobrar mais. “A estratégia do Lidl não passa por aproveitar a origem nacional para sustentar um preço superior, mas sim por manter a premissa de oferecer a máxima qualidade ao melhor preço”, declara Alexandra Borges, diretora-geral de Compras.
Essa lógica abrange tanto produtos ligados à tradição e ao prazer, como doçaria conventual, queijos e enchidos, como categorias essenciais de alta rotação. Frutas e legumes são apresentadas como a categoria de maior peso nas compras e exportações. Em 2025, o Lidl afirma ter reduzido diretamente o preço de cerca de 600 produtos essenciais e, em 2026, de mais de 350.
Eficiência para financiar preço e escala
A cadeia atribui parte dessa capacidade a eficiências operacionais: caixas Shelf Ready Packaging para acelerar a reposição, aquisição direta aos produtores, transporte gerido internamente, redução de intermediários, compra em volume e otimização das rotas.
As marcas próprias representam cerca de 80% do sortido e, segundo Alexandra Borges, metade desse volume provém diretamente de fornecedores nacionais. No Da Minha Terra, contudo, os produtos regionais mantêm a marca e o nome original do produtor, numa tentativa de dar visibilidade nacional sem absorver a identidade pela marca do retalhista.
Da Minha Terra como incubadora
O programa é descrito como acelerador e incubadora para micro e pequenas empresas. A Casa Paixão terá crescido mais de 400% com queijadas e popias alentejanas; a Confeitaria Monte Verde ampliou instalações; a Tradifana passou a exportar bolos secos tradicionais para outros mercados da rede.
Segundo a empresa, os produtores envolvidos aumentaram em cerca de 25% as compras de matérias-primas aos respetivos fornecedores locais. Na terceira edição do programa, o Lidl acrescentou encontros estratégicos destinados a partilha de conhecimento, entreajuda e expansão de redes de contactos.
O objetivo declarado é evitar que a capacidade produtiva exclua pequenos produtores. A empresa diz oferecer estabilidade de médio e longo prazo e tornar-se, em alguns casos, o principal cliente, sem exigir que o produto original seja desvirtuado.
Centralização e sazonalidade
Os quatro centros logísticos – Santo Tirso, Torres Novas, Loures e Palmela – são apresentados como a infraestrutura que liga pequenos produtores a uma rede nacional superior a 290 lojas. Para o Lidl, a centralização não é, por si só, uma barreira: pode dar acesso rápido a escala desde que a logística consiga preservar rapidez, qualidade e custos.
A empresa afirma respeitar flutuações naturais e sazonalidade, admitindo referências limitadas, edições exclusivas e semanas temáticas. A autenticidade é suportada por certificações: desde 2016, segundo o Lidl, 100% dos produtores nacionais de frutas e legumes possuem GLOBALG.A.P.; IFS e BRC abrangeriam 99% dos fornecedores agrícolas.
Da região para 32 países
A rede internacional do Grupo Schwarz, presente em 32 países, é tratada como plataforma de exportação. Numa década, o Lidl afirma ter facilitado 773 milhões de euros em exportações diretas de produtos portugueses, 78% dos quais provenientes de PME nacionais.
“A chave para alavancar esta escala sem apagar a ligação ao território é exportar a portugalidade.”
Pera Rocha do Oeste DOP, Laranja do Algarve IGP, Vinho do Porto, azeites e pastéis de nata são apontados como exemplos do que pode viajar através de uma rede global de mais de 12.900 lojas. A ambição é usar a escala não para uniformizar o produto, mas para ampliar o mercado daquilo que é reconhecível como português.
Este artigo integra a série “Produtos com Origem”. Leia a reportagem completa “Quanto vale um lugar?” na edição n.º 100 da Grande Consumo. Leia também o primeiro artigo “Quanto território cabe numa rede nacional?” e o segundo “A sazonalidade não é uma limitação”: quando o retalho aceita o tempo da terra”.















