Opinião

Reforçar a resiliência e a competitividade do açúcar europeu

opinion-thumb João Filipe Abreu, CEO RAR Açúcar

A indústria europeia do açúcar atravessa um momento decisivo e é, precisamente, nesses momentos que se clarificam prioridades, se redefinem estratégias e se constroem as bases do futuro. Foi neste contexto que a RAR Açúcar marcou presença na 15.ª S&P Geneva Sugar Conference, na Suíça, um dos mais relevantes fóruns internacionais do setor. Num ambiente marcado pelo aumento dos custos energéticos, pela pressão regulatória, por alterações nos fluxos de comércio e por uma concorrência global cada vez mais intensa, tornou-se evidente que o setor está a entrar numa nova fase de complexidade, ao mesmo tempo que os padrões de consumo continuam a evoluir.

A reflexão que levámos a Genebra centrou-se em quatro prioridades fundamentais: reforçar a resiliência num contexto mais volátil, aproximar a política da realidade do mercado, sustentar a competitividade num cenário de pressão sobre os preços globais e acelerar estratégias de diversificação para as empresas europeias.

As discussões confirmaram algumas tendências claras. O setor continua a ser altamente cíclico, e a sua viabilidade a longo prazo dependerá cada vez mais da capacidade de criar valor. Observa-se também uma crescente integração entre todos os stakeholders do sector que têm uma visão sustentada por elevados padrões de qualidade, segurança e rastreabilidade. Ao mesmo tempo, a procura está a deslocar-se geograficamente: cresce em mercados emergentes da Ásia e África, enquanto estabiliza ou diminui em mercados maduros.

No plano regulatório, destacou-se o papel dos regimes de aperfeiçoamento ativo (Inward Processing). Estes instrumentos são essenciais para a indústria de refinação europeia, garantindo acesso a matérias-primas competitivas, sustentáveis e de acordo com os padrões de qualidade exigidos pela indústria europeia, enquanto oferecem flexibilidade e confiança à indústria alimentar e de bebidas. São, por isso, um pilar importante para assegurar qualidade, segurança, rastreabilidade, competitividade e sustentabilidade.

É neste enquadramento que defendemos uma visão clara para o futuro do setor açucareiro europeu: uma indústria mais integrada, mais competitiva e mais sustentável. Isso implica promover um equilíbrio estrutural entre oferta e procura, assegurar a coexistência eficiente entre produtores de beterraba e refinadores de cana, e posicionar o setor como uma base sólida para a inovação, produção e exportação das indústrias que dele dependem.

Exige também uma necessidade de maior consolidação e o desenvolvimento de parcerias estratégicas que permitam gerar sinergias e criar mais valor. Uma indústria resiliente será necessariamente construída sobre escala, eficiências operacionais, energéticas e práticas de abastecimento sustentáveis, sem dependência de mecanismos artificiais de suporte. Paralelamente, será crucial apostar na diversificação, na inovação e na valorização de subprodutos.

O caminho a seguir não passa por escolher entre beterraba ou cana, entre agricultura ou comércio. Passa, sim, por reforçar a segurança alimentar europeia, aumentar a resiliência do setor, aprofundar a integração e garantir disciplina e competitividade no longo prazo.

Os desafios são reais, mas também o são as oportunidades, sobretudo para aqueles que estão dispostos a evoluir, a investir e a liderar a transformação.

Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
João Filipe Abreu

João Filipe Abreu

CEO RAR Açúcar

<p class="isSelectedEnd">João Filipe Abreu é CEO da RAR Açúcar, empresa portuguesa dedicada à refinação, comercialização e distribuição de açúcar. O seu percurso profissional combina experiência de gestão executiva com responsabilidades nas áreas comercial, de marketing, estratégia, indústria e desenvolvimento de negócio.</p>

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