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A inteligência artificial (IA) está a transformar o modo como as organizações encaram a segurança, a privacidade dos dados e a conformidade com os critérios ESG (Environmental, Social, Governance). A conclusão é da IDC, que apresentou as suas previsões no âmbito do IDC Security Summit 2025, realizado recentemente no Estoril.
O evento reuniu especialistas, líderes tecnológicos e decisores empresariais para debater os riscos e oportunidades emergentes num cenário marcado por uma adoção acelerada da IA. “Não estamos apenas a adotar novas tecnologias. Estamos perante uma mudança estrutural nas fundações da confiança digital”, sublinhou Bruno Horta Soares, executive senior advisor da IDC Portugal.
IA: simplificação e risco em simultâneo
A IDC antecipa que a IA terá um papel central na reconfiguração da segurança digital global, com automatização inteligente de políticas de proteção, gestão de identidades, auditorias e análise de risco de terceiros. Por um lado, a IA promete democratizar a segurança, permitindo que mais utilizadores possam configurar proteções eficazes através de linguagem natural. Por outro, potencia ameaças mais sofisticadas, como deepfakes, malware autónomo e campanhas avançadas de phishing.
A confiança digital será construída — ou abalada — com base em dois pilares: explicabilidade dos modelos de IA e rastreabilidade dos dados. A IDC defende que será imperativo demonstrar como os modelos de linguagem (LLMs) são construídos e treinados, com exclusão comprovada de dados sensíveis, para cumprir a regulação emergente.
“Data embassies” e soberania digital
Num contexto geopolítico cada vez mais volátil, a IDC destaca a emergência das chamadas “embaixadas de dados”, infraestruturas digitais localizadas em países terceiros considerados seguros, destinadas a proteger dados estratégicos nacionais, garantindo a soberania digital e a conformidade legal.
Simultaneamente, cresce a pressão sobre as empresas para adotarem práticas sustentáveis em TI, incluindo a eliminação segura de dados em dispositivos reutilizados e a redução do impacto ambiental das infraestruturas digitais.
As 10 previsões da IDC até 2029
A consultora destaca no seu estudo FutureScape as principais tendências a moldar o sector. Até 2027, 40% das organizações irá automatizar a geração de políticas de segurança via comandos de linguagem natural. No mesmo horizonte temporal, apenas 35% das empresas B2C usará IA na gestão de identidades, devido à dificuldade de integração e aos custos.
Ainda de acordo com a IDC, até 2026, cinco países terão estabelecido embaixadas de dados dentro da União Europeia.
Até 2028, 85% dos produtos de dados terá uma bill of materials que detalha a sua proveniência e transformação. E até 2025, 100% dos produtos de IA estará sujeito a auditoria com evidências sobre o desenvolvimento e os dados utilizados.
Ainda nesse horizonte temporal, a União Europeia e o G7 implementarão medidas que permitem aos cidadãos bloquear o uso de dados pessoais por sistemas de IA.
A IDC também avança que, até 2029, metade das empresas monitorizará o risco dos seus fornecedores com base em análises da superfície de ataque externa.
Em 2025, 25% das organizações avançará para produção com GenAI sem uma avaliação completa de risco, criando “castelos de cartas”.
Paralelamente, até 2026, a convergência entre privacidade e ESG aumentará 20% a procura por serviços certificados de eliminação de dados e, até 2025, 66% dos fornecedores de ESG incluirá serviços geridos de risco ESG nos seus portefólios.
IA, transparência e confiança: a nova tríade crítica
Para a IDC, o desafio não reside apenas na adoção tecnológica, mas na capacidade das organizações de manterem a confiança dos consumidores, parceiros e reguladores. “A transparência, a responsabilidade e a integração da IA são essenciais para garantir segurança e confiança num mundo cada vez mais digital”, conclui Grace Trinidad, diretora de research da IDC.
O evento contou ainda com a participação de Taavi Kotka, antigo CIO do Governo da Estónia e criador do programa de e-residency, bem como de analistas da IDC, representantes de empresas tecnológicas e líderes de grandes organizações nacionais.