Sala de servidores com filas de bastidores iluminados por luzes azuis foto shutterstock

Europa perde terreno na corrida tecnológica

Estudo da Roland Berger estima que 30 tecnologias emergentes poderão gerar mais de 20 biliões de euros até 2040 e defende uma estratégia europeia focada nas áreas com maior potencial competitivo

A Europa está a perder terreno para os Estados Unidos e para a China nas tecnologias que irão definir a próxima vaga de crescimento económico global, segundo o estudo The 2040 Technology Game Plan, da Roland Berger.

Apesar do atraso, o continente poderá captar aproximadamente 3 biliões de euros até 2040 (do inglês trillion), desde que concentre os recursos nas áreas em que ainda pode competir, em vez de tentar liderar em todas as tecnologias.

Segundo o relatório, 30 tecnologias emergentes deverão criar um mercado superior a 20 biliões de euros nos próximos 15 anos, dez vezes mais do que atualmente. Em conjunto, o peso destas tecnologias no PIB industrial mundial deverá aumentar de cerca de 9% para 37% até 2040.

“O estudo mostra que a oportunidade para a Europa continua a ser significativa. O continente dispõe de pontos fortes em várias tecnologias estratégicas, mas terá de fazer escolhas claras sobre onde pretende competir e onde pode criar maior valor. Mais do que tentar recuperar terreno em todas as frentes, será fundamental apostar nas áreas em que existem competências, ecossistemas e condições para crescer à escala global“, afirma Pedro Galhardas, Managing Partner da Roland Berger Portugal.

IA, semicondutores e data centers concentram valor

Das 30 tecnologias emergentes identificadas, a Roland Berger selecionou 14 como prioritárias, tendo em conta o potencial de transformação, a dimensão estimada do mercado e a proximidade da comercialização em grande escala. Em conjunto, estas 14 tecnologias deverão valer 16 biliões de euros em 2040.

A inteligência artificial, os semicondutores e os data centers destacam-se como os três maiores mercados e irão concentrar mais de metade desse valor. O mercado dos sistemas de inteligência artificial e software inteligente deverá aumentar de 210 mil milhões de euros em 2025 para cinco biliões em 2040. No mesmo período, o mercado dos semicondutores deverá passar de 670 mil milhões para 2,6 biliões de euros e o dos data centers de 380 mil milhões para 2,5 biliões.

São também três das áreas em que a Europa enfrenta maiores dificuldades em acompanhar os principais concorrentes. Nos semicondutores, o continente representa menos de 3% das vendas mundiais, 9% da produção global de wafers e 5% das atividades de montagem, embalagem e testes. Nos data centers, a quota europeia na capacidade instalada mundial deverá cair de cerca de 13% para 10% até 2030, enquanto a norte-americana deverá atingir aproximadamente 58%.

Entre as 14 tecnologias prioritárias encontram-se ainda as tecnologias quânticas, a robótica humanoide, os biomateriais, o armazenamento de energia e a mobilidade autónoma.

Europa tem investigação, mas falta escala

A Europa dispõe de universidades de referência, uma base científica sólida e talento especializado, mas continua a ter dificuldade em transformar estas vantagens em liderança tecnológica global.

Na inteligência artificial, o continente forma anualmente cerca de 128 mil diplomados em tecnologias de informação e comunicação, acima dos aproximadamente 123 mil registados nos Estados Unidos. As patentes europeias de IA apresentam também níveis de citação acima da média.

Apesar desta base de conhecimento, os Estados Unidos dominam o desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial, seguidos pela China. A fragmentação dos mercados europeus, o acesso limitado a capital de crescimento e a lentidão dos processos de decisão continuam a travar a comercialização das tecnologias e o crescimento das empresas à escala global.

Europa terá de escolher onde competir

O relatório da Roland Berger indica que a Europa deve deixar de tentar recuperar a liderança em todas as áreas e adotar estratégias diferentes para cada mercado.

Nas tecnologias em que já possui capacidades relevantes, como as tecnologias quânticas, as microgrids, a captura, utilização e armazenamento de carbono e a tecnologia médica, a Europa deverá competir nos mercados internacionais. Estas áreas poderão representar entre um e 1,5 biliões de euros para o continente até 2040.

Na defesa autónoma, robótica humanoide, carregamento, mobilidade autónoma, biomateriais e tecnologia espacial avançada, a prioridade deverá ser o desenvolvimento de soluções orientadas para as necessidades e a procura europeias, com um potencial igualmente estimado entre um e 1,5 biliões de euros.

Já em mercados como a inteligência artificial, os semicondutores, os data centers e o armazenamento de energia, nos quais recuperar a liderança global é menos realista, a prioridade deverá ser atrair empresas internacionais para instalarem atividades de produção e desenvolvimento na Europa. Esta estratégia poderá permitir ao continente captar entre 500 mil milhões e um bilião de euros, assegurando que parte do investimento e da criação de valor permanece na Europa.

Mesmo nestas áreas, a Europa poderá afirmar-se em segmentos específicos. Na inteligência artificial, a oportunidade mais realista está no desenvolvimento de aplicações especializadas para manutenção preditiva, otimização de frotas e controlo de processos industriais. Nos semicondutores, o continente mantém competências em equipamentos de produção, propriedade intelectual, design e chips para os setores automóvel, energético e industrial.

Com estas estratégias, a Europa poderá captar aproximadamente três biliões de euros até 2040, o equivalente a cerca de 20% do valor global associado às tecnologias prioritárias analisadas.

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