Mulher de óculos e casaco rosa diante de um fundo azul com um padrão branco abstrato Paula Silvestre, diretora da Área da Competitividade e Formação da AEP

ESG já condiciona financiamento e oportunidades de negócio das PME

Os critérios ambientais, sociais e de governação deixaram de estar circunscritos às grandes empresas e já influenciam o acesso ao crédito, a integração nas cadeias de valor e a entrada em novos mercados. Paula Silvestre, diretora da Área da Competitividade e Formação da AEP, explica como as PME podem transformar a sustentabilidade numa alavanca de eficiência e diferenciação e apresenta o projeto que pretende capacitar 500 empresas da região Norte até 2027.

Durante muito tempo, a sustentabilidade foi encarada pelas PME sobretudo como uma obrigação ou um custo adicional. O que mudou para que o ESG passasse a ser também uma questão de competitividade?

Durante anos, a sustentabilidade foi vista como um exercício de conformidade, algo que se fazia para cumprir requisitos legais, ou ambientais, ou ainda como um custo adicional da operação. Hoje, este comportamento empresarial mudou, porque os mercados evoluíram. Atualmente, bancos, investidores, clientes e mercados já não pedem apenas preço e prazo, pedem também garantias sobre práticas ambientais, sociais e de governança. Uma MPME que consiga demonstrar bom desempenho nestas áreas reduz custos, ganha acesso a financiamento mais vantajoso, reforça a confiança junto da sua cadeia de valor e dos seus stakeholders e diferencia-se num mercado cada vez mais exigente. Ou seja, a sustentabilidade deixou de ser só uma obrigação para passar a ser uma vantagem competitiva real. Hoje, o ESG é visto não apenas como uma responsabilidade, mas como uma estratégia que promove eficiência, reputação, inovação e sustentabilidade do negócio a longo prazo.

Porque é que os critérios ambientais, sociais e de governação deixaram de ser um tema reservado às grandes empresas?

Mesmo quando não estão diretamente abrangidas por obrigações de reporte, de que forma as PME acabam por sentir estas exigências através dos bancos, dos grandes clientes, das cadeias de fornecimento ou dos mercados internacionais?

Sentem-nas de formas muito concretas: nos questionários de sustentabilidade que os clientes começam a enviar aos fornecedores, nas condições de crédito, uma vez que os bancos e as instituições financeiras solicitam cada vez mais informação ESG para avaliar riscos, conceder crédito ou atribuir condições de financiamento mais favoráveis, nos concursos públicos, que já pontuam critérios ambientais, sociais e de governança, e nos mercados de exportação, onde a transparência e as práticas sustentáveis são cada vez mais determinantes. Não é preciso estar legalmente obrigada para sentir a pressão que chega através dos mercados.

“O desempenho ESG deixou de ser um extra e passou a fazer parte da equação de risco. Os bancos, nas suas análises de risco, integram critérios ESG porque também têm critério de sustentabilidade a cumprir na sua carteira de clientes”

Quais são atualmente as maiores fragilidades das PME nesta área: falta de conhecimento, recursos financeiros, competências internas, capacidade de recolher informação ou dificuldade em definir prioridades?

É uma combinação de vários fatores, mas acredito que muitas empresas ainda não sabem por onde começar nem o que vale realmente a pena priorizar face aos recursos que têm disponíveis. Simultaneamente, muitas empresas já implementam medidas de gestão sustentáveis, mas não as identificam como parte da estratégia do negócio nem as medem e acompanham de forma consistente e estruturada.

Em que medida o desempenho ESG já começa a influenciar o acesso ao financiamento, as condições de crédito e a avaliação do risco das empresas?

O desempenho ESG deixou de ser um extra e passou a fazer parte da equação de risco. Os bancos, nas suas análises de risco, integram critérios ESG porque também têm critério de sustentabilidade a cumprir na sua carteira de clientes. Por essa razão, e independentemente da sua dimensão, quanto maior e mais robusta for a demonstração da estratégia de sustentabilidade de uma empresa, maior será a apetência dos bancos para a financiar.

“A sustentabilidade produz resultados quando integra o modelo de negócio e é encarada como um processo contínuo. Medir consumos de água e energia permite identificar desperdícios e reduzir custos. Respeitar os direitos humanos e valorizar as pessoas reduz a rotatividade e melhora o desempenho da/s equipa/s”

Os grandes clientes estão também a incorporar estes critérios na seleção e avaliação dos seus fornecedores? Uma PME que não consiga demonstrar o seu desempenho pode perder oportunidades de negócio?

Sem dúvida. As grandes empresas, sujeitas a diretivas europeias de reporte, precisam de dados ESG fiáveis dos seus fornecedores para cumprir as suas próprias obrigações. Uma MPME que não consiga responder a pedidos de informação ou demonstrar práticas consistentes corre o risco de ser substituída por um concorrente que já tenha essa informação organizada. Por outro lado, quem consegue apresentar esses dados de forma clara ganha vantagem competitiva reforçando a sua posição na cadeia de valor.

Como podem as empresas transformar a sustentabilidade em resultados concretos, nomeadamente através da redução de custos, da eficiência energética, da utilização mais racional de recursos e da diminuição de resíduos?

Para uma micro ou pequena empresa sem uma estrutura especializada, qual deve ser o primeiro passo? É possível iniciar este percurso de forma simples, gradual e sem investimentos elevados?

É verdade que grande parte das empresas não possui recursos, nem capacidade, para alocar uma pessoa/equipa que possa responder a estas questões e é precisamente para apoiar a jornada de sustentabilidade das MPME da região Norte que a AEP promove o projeto Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade. O primeiro passo deve ser sempre um diagnóstico, que permita à empresa perceber onde está e quais são as suas maiores lacunas e oportunidades. A partir daí, o percurso pode ser gradual, com capacitação em áreas ligadas à sustentabilidade e implementação de medidas ajustadas ao sector, à dimensão e ao ritmo da empresa.

Que indicadores devem as PME começar a acompanhar para avaliar o seu desempenho, responder aos pedidos de clientes e financiadores e evitar que o ESG se transforme apenas num exercício burocrático?

Indicadores simples e mensuráveis: como consumos de energia e de água, cálculo da pegada carbónica (âmbito 1, 2 e 3), a taxa de valorização e reciclagem de resíduos, a percentagem de energia proveniente de fontes renováveis, as condições laborais e de segurança, os critérios de seleção de fornecedores e práticas de governança, como a existência de um código de ética, de um canal de denúncias ou o número de incidentes de compliance e de cibersegurança. O importante é que estes indicadores sejam recolhidos de forma sistemática e não como um exercício pontual para responder a um pedido específico. Só assim deixam de ser burocracia e passam a ser gestão real do negócio.

Como funciona a ferramenta gratuita de diagnóstico ESG desenvolvida no âmbito do projeto “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade” e que informação proporciona às empresas participantes?

A ferramenta está disponível, gratuitamente, em esg.novorumoanorte.pt e permite às empresas fazer um diagnóstico do seu desempenho ESG. Após o preenchimento do questionário, a empresa recebe um relatório estruturado que permite conhecer o seu posicionamento global e por pilar (Ambiental, Social e Governança), assim como aceder a um plano de ação com recomendações práticas que apoiam a sua evolução de forma gradual e ajustada à sua realidade. A ferramenta que sustenta este diagnóstico foi desenvolvida tendo por referência a estrutura e os requisitos do Módulo Base da VSME (Voluntary Sustainability Reporting Standard for non-listed SMEs) e integra alguns elementos adicionais selecionados do Módulo Abrangente.

Para além do diagnóstico, que instrumentos, ações de capacitação e apoio prático serão disponibilizados às 500 MPME da região Norte abrangidas pelo projeto até 2027?

O Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade é promovido pela AEP, com financiamento do Programa Regional Norte 2030, e conta com uma rede de parceiros locais que asseguram a proximidade às empresas de cada sub-região. O projeto está estruturado numa lógica de percurso: diagnóstico – capacitação – implementação – reconhecimento. Além da ferramenta de diagnóstico, o projeto disponibiliza estudos de diagnóstico e benchmarking, divulgação de casos de boas práticas e guias práticos sobre temas como eficiência energética, governança, financiamento sustentável, seleção de fornecedores e economia circular, entre outros. Paralelamente, serão promovidos webinars, um roadshow de capacitação e focus group que vão percorrer as oito sub-regiões do Norte. Inclui, ainda, a atribuição de prémios que vão reconhecer as empresas que se destacam pelo seu compromisso e pelas boas práticas implementadas.

Olhando para os próximos anos, o ESG será apenas mais um requisito para permanecer no mercado ou poderá tornar-se um verdadeiro elemento de diferenciação para as PME portuguesas?

Estou convicta de que, nos próximos anos, o ESG deixará de ser apenas uma exigência para aceder a mercados, financiamento ou cadeias de valor e afirmar-se-á, cada vez mais, como um fator estratégico de diferenciação para as PME portuguesas.

Para isso, é fundamental que as empresas integrem estes princípios de forma genuína na sua estratégia e os encarem como uma alavanca de crescimento, inovação e criação de valor, e não como uma mera obrigação.

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