Há produtos que nascem longe dos grandes centros de consumo, mas não deveriam ficar confinados à geografia onde são produzidos. Entre a pequena fábrica ou o produtor local e um consumidor a centenas de quilómetros existe uma distância que não é apenas física: é também uma questão de visibilidade, escala e capacidade de distribuição. É para encurtar esse espaço que a DPD Portugal lança hoje o Singular, uma montra digital dedicada a pequenos e médios produtores portugueses do setor alimentar, que combina descoberta de produtos, venda direta e uma operação logística especializada através do DPD Fresh. Em entrevista à Grande Consumo, Américo Mendes, Managing Director Business da DPD Portugal, explica como a logística pode ajudar uma marca a chegar mais longe e a ganhar escala, o papel da inteligência artificial na descoberta de produtos e a ambição de fazer do Singular uma ferramenta de crescimento para os produtores nacionais.
Em que consiste o Singular e que problema concreto identificaram no mercado que levou a DPD Portugal a criar este projeto?
O Singular é uma montra digital que surgiu para dar maior visibilidade a pequenos e médios produtores portugueses do setor alimentar e facilitar a sua aproximação a consumidores de todo o país. O que identificámos, através da nossa proximidade diária a muitas pequenas e médias empresas, é que existem produtores com produtos de grande qualidade, mas que nem sempre têm a mesma capacidade para os dar a conhecer e chegar a novos mercados. Queremos ajudar a encurtar essa distância, conjugando maior visibilidade digital com uma componente logística capaz de levar esses produtos mais longe.
Porque decidiu a DPD entrar neste espaço? O Singular representa uma extensão natural do negócio de transporte e logística ou pretende também posicionar a DPD num novo ponto da cadeia de valor?
Vemos o Singular sobretudo como uma evolução natural daquilo que já fazemos. A logística deixou há muito de ser apenas a última etapa de uma compra. Pode ajudar uma empresa a aumentar o seu alcance, a chegar a novos clientes e, em última análise, a crescer. O Singular parte precisamente dessa visão: não pretendemos substituir os produtores nem os seus canais comerciais, mas colocar a nossa capacidade logística e a nossa proximidade ao tecido empresarial ao serviço de uma necessidade que identificámos no mercado. É uma forma de acrescentarmos valor para além da entrega.
A iniciativa procura aproximar pequenos e médios produtores do consumidor final. O que está hoje a impedir estes produtores de explorar de forma mais consistente o canal direto ao consumidor?
Um pequeno produtor pode ter um produto excelente e, ainda assim, enfrentar dificuldades em ganhar notoriedade fora da sua região, desenvolver presença digital, captar consumidores e assegurar depois a distribuição das encomendas para diferentes pontos do país. No setor alimentar acrescenta-se ainda uma dificuldade específica: alguns produtos exigem condições particulares de transporte e conservação. É essa combinação de desafios que pode tornar o canal direto ao consumidor mais complexo para empresas de menor dimensão.
Como funciona o Singular na prática? Que percurso faz uma encomenda desde o produtor até chegar ao consumidor final?
O modelo foi pensado para ser prático e simples. O consumidor entra no Singular, descobre os diferentes produtores, os seus produtos e as histórias por detrás das marcas. Quando decide comprar, é encaminhado para a loja online do próprio produtor, onde conclui diretamente a encomenda. A partir daí, a DPD assegura toda a componente logística, fazendo chegar o produto ao consumidor final. Ou seja, o Singular funciona como ponto de descoberta e visibilidade, mantendo-se, no entanto, a relação entre o consumidor e a marca.
Como foi desenhado o modelo de negócio do Singular? Que serviços estão incluídos para os produtores e como é estruturada a relação entre a plataforma e a componente logística?
O modelo separa claramente as duas dimensões. O Singular funciona como uma plataforma de visibilidade e descoberta: apresenta os produtores, os produtos e as histórias das marcas. A transação não é feita na plataforma da DPD; o consumidor é encaminhado para a loja online do produtor, onde conclui diretamente a compra. A DPD entra novamente na componente logística, assegurando o transporte da encomenda. É, portanto, um modelo que preserva a relação direta entre produtor e consumidor e acrescenta a capacidade logística e know-how da DPD.

Na experiência da DPD, qual é o papel da logística nessas limitações? É sobretudo uma questão de custos, escala, distribuição, tecnologia ou de capacidade para garantir as condições específicas dos produtos alimentares?
É uma combinação desses fatores, mas há sobretudo uma questão de capacidade e especialização. Quando um produtor quer deixar de vender apenas localmente e passar a chegar regularmente a consumidores em diferentes regiões do país, a distribuição torna-se parte essencial da experiência que oferece ao cliente. E essa complexidade aumenta quando falamos de produtos alimentares com necessidades específicas de transporte e conservação. É aqui que uma rede logística já instalada e soluções especializadas, como o DPD Fresh, podem fazer a diferença, permitindo ao produtor concentrar-se naquilo que melhor sabe fazer.
O projeto combina a plataforma digital com o DPD Fresh. Que características da operação Fresh são determinantes para este modelo, sobretudo no caso de produtos que exigem controlo de temperatura?
O DPD Fresh foi desenhado precisamente para responder às exigências específicas dos produtos alimentares frescos. Estamos a falar de uma operação em temperatura controlada entre os 0 ºC e os 4 ºC, que inclui armazenamento em câmaras frigoríficas, monitorização ativa da temperatura ao longo do processo, procedimentos específicos de higiene e segurança alimentar e um manuseamento adaptado a este tipo de produtos. O mais importante é que estas condições são asseguradas de forma integrada, desde a recolha até à entrega, evitando quebras entre as diferentes etapas do percurso.
A esta especialização juntamos aquilo que os consumidores já esperam de uma operação de transporte expresso: rapidez, previsibilidade e visibilidade sobre a encomenda. No DPD Fresh, a entrega é realizada na manhã útil seguinte, até às 13h (em Portugal Continental), com tracking em tempo real, notificações e Predict, que disponibiliza uma janela horária de uma hora e permite ao destinatário gerir a entrega. É esta combinação entre especialização na cadeia de frio e conveniência que torna a solução particularmente adequada a um projeto como o Singular.
O que muda para um pequeno produtor quando deixa de ter de construir a sua própria estrutura de distribuição? Que parte da complexidade passa a ser assumida pela DPD?
O principal benefício é poder recorrer a uma capacidade logística que já existe e que está preparada para fazer chegar encomendas a diferentes pontos do país. Um pequeno produtor não tem necessariamente de desenvolver sozinho toda essa escala logística à medida que o negócio cresce. A DPD assume a componente de transporte associada às encomendas, permitindo ao produtor concentrar os seus recursos no produto, na marca e na relação com os seus clientes. No caso alimentar, acresce ainda a possibilidade de responder a necessidades específicas de transporte e conservação.
A logística pode ser, neste contexto, mais do que uma operação de suporte e tornar-se um verdadeiro fator de competitividade para a produção nacional? Em que medida?
Sem dúvida. É precisamente uma das ideias que está na origem do Singular. A logística já não deve ser vista apenas como aquilo que acontece no final de uma compra. Para uma pequena ou média empresa, ter capacidade para fazer chegar o seu produto de forma consistente a consumidores que estão a dezenas ou centenas de quilómetros pode determinar o tamanho do mercado a que consegue aceder.
Quando falamos de produtos alimentares, essa capacidade é ainda mais relevante devido às exigências específicas de transporte e conservação. Uma boa solução logística pode, por isso, permitir que uma marca chegue mais longe e cresça sem ter de replicar internamente toda essa infraestrutura.
O projeto conta já com seis produtores. Porque escolheram estes primeiros parceiros e o que têm aprendido com esta fase inicial?
Numa primeira fase, quisemos começar com um conjunto diversificado de produtores e produtos, que nos permitisse testar o conceito em diferentes realidades do setor alimentar. Temos categorias com características distintas, o que é importante também para perceber como o modelo responde a diferentes necessidades, quer do ponto de vista da apresentação e descoberta das marcas, quer da própria operação logística.
Neste arranque contamos com a Muka, dedicada à produção artesanal de queijo vegan e biológico; a Dom Casel e a Salsicharia Estremocense, na área dos enchidos; a Nau do Cacau, especializada em chocolate biológico; a Lugrade, no bacalhau; e a Sabores do Vez, dedicada ao fumeiro e enchidos. São produtores e categorias diferentes entre si, o que nos permite ter uma primeira amostra bastante representativa da diversidade que existe na produção alimentar portuguesa e perceber onde o Singular pode acrescentar mais valor.
Sendo ainda uma fase inicial, o principal objetivo é precisamente aprender: perceber a utilização da plataforma, recolher o feedback dos produtores e dos consumidores e ir afinando o modelo.

Que tipo de produtor procuram atrair para o Singular? Existem determinadas categorias, dimensões ou características que façam mais sentido para o modelo?
O Singular dirige-se a pequenos e médios produtores portugueses do setor alimentar, tanto de produtos frescos como secos, que tenham produtos diferenciados e que queiram aumentar as suas vendas e visibilidade no canal digital e chegar a consumidores para além da sua área geográfica habitual.
Naturalmente, procuramos produtores e produtos que se enquadrem na operação do DPD Fresh, uma vez que é esta solução que assegura a componente logística do Singular. Dentro desse universo, queremos que a plataforma possa refletir a diversidade da produção alimentar portuguesa e não ficar limitada às categorias presentes nesta primeira fase. O mais importante é existir qualidade e diferenciação do produto, potencial para chegar a novos consumidores e uma solução logística adequada às características de cada alimento. O setor alimentar representa já uma área relevante da atividade da DPD Portugal e é uma aposta de crescimento para os próximos anos.
Que potencial identificam para este mercado em Portugal? Existe massa crítica suficiente de produtores e consumidores para tornar este modelo escalável?
Portugal tem um tecido muito rico de pequenos e médios produtores, muitos deles com produtos de enorme qualidade e marcas com uma forte identidade. O desafio está frequentemente em transformar essa qualidade e essa diferenciação numa capacidade de chegar a mais consumidores. É aí que vemos espaço para o Singular. A digitalização do processo de descoberta, combinada com uma rede logística capaz de chegar a diferentes pontos do país, permite reduzir algumas das barreiras que tradicionalmente limitavam esse alcance. O projeto parte, portanto, da convicção de que existe oportunidade para aproximar esta oferta nacional de um universo mais amplo de consumidores.
O Singular dispõe de um assistente de compras baseado em inteligência artificial. Como funciona esta ferramenta e qual é o seu objetivo no apoio à experiência de compra?
O assistente de compras com inteligência artificial vem tornar a descoberta de produtos no Singular mais simples e intuitiva. Através de um chat, o consumidor pode explicar em linguagem natural aquilo que procura, as suas preferências ou a necessidade a que pretende responder, recebendo sugestões de produtos relevantes disponíveis no catálogo do Singular.
Em vez de o consumidor ter necessariamente de saber à partida que marca ou produto procura, o assistente ajuda-o a navegar pela oferta de uma forma mais personalizada e a descobrir alternativas que correspondam ao que pretende. Pode, por exemplo, colocar questões como “Hoje é Dia do Pai, o que sugeres?” ou “O que posso oferecer por menos de 30 euros?”, tornando a pesquisa mais próxima da forma como naturalmente procuramos aconselhamento quando ainda não temos uma escolha definida. Depois de encontrar um produto, mantém-se a lógica do Singular: o consumidor é encaminhado para a loja online do produtor, onde conclui diretamente a compra.
Que papel desempenha o assistente de IA na descoberta de produtos e produtores portugueses e na valorização de marcas que o consumidor poderá não conhecer?
Esse é precisamente um dos aspetos mais interessantes da ferramenta. Um dos desafios que identificámos junto dos pequenos e médios produtores é a dificuldade em ganhar notoriedade fora da sua região e chegar a consumidores que ainda não conhecem as suas marcas. O Singular procura responder a esse desafio dando-lhes uma montra digital; o assistente de IA acrescenta uma nova forma de fazer essa descoberta.
Ao permitir que o consumidor procure a partir daquilo que deseja ou necessita, e não apenas pelo nome de uma marca que já conhece, aumentamos a possibilidade de produtos e produtores menos conhecidos surgirem durante esse processo de descoberta. Alguém pode estar à procura de um determinado tipo de produto, de uma sugestão para uma ocasião específica ou simplesmente querer conhecer novas opções e, através dessa pesquisa, chegar a uma marca portuguesa que anteriormente não fazia parte do seu universo de escolha. Desta forma, a tecnologia funciona como mais uma ferramenta para aumentar a visibilidade dos produtores e aproximar a qualidade e diversidade da produção nacional de novos consumidores. Isto está alinhado com a ambição que definimos para o Singular: trazer mais produtores para a plataforma, aumentar a diversidade da oferta e fazê-la chegar a um público cada vez mais alargado.

A proposta assenta numa lógica de venda direta. Até que ponto este modelo pode alterar a forma como os pequenos produtores portugueses chegam ao consumidor e reduzir a sua dependência dos canais tradicionais?
Não vemos o Singular como uma substituição dos canais tradicionais, mas como mais uma possibilidade para os produtores diversificarem a forma como chegam ao mercado. Um pequeno produtor pode continuar a trabalhar com retalho, lojas especializadas ou outros parceiros e, simultaneamente, reforçar a relação direta com consumidores que talvez nunca conhecessem a sua marca de outra forma. A vantagem do digital é precisamente permitir ampliar esse alcance geográfico sem perder a identidade e a relação direta da marca com quem compra.
O Singular é pensado como um projeto exclusivamente português ou existe potencial para replicar este modelo noutros mercados onde a DPD está presente? E, olhando mais à frente, qual é a ambição da DPD para este projeto?
Na verdade, o Singular não nasce em Portugal. É um conceito desenvolvido pelo Grupo Geopost que já foi implementado em vários mercados europeus, entre os quais Espanha, França, Itália, Eslovénia, Eslováquia, Croácia e Países Baixos. Portugal junta-se agora a estes países, naturalmente com uma abordagem adaptada às características do nosso mercado e, sobretudo, à riqueza e diversidade do tecido de pequenos e médios produtores portugueses.
Isso permite-nos também beneficiar da experiência já acumulada pelo Grupo noutros países, mas o nosso foco, nesta fase, é claramente fazer crescer o projeto em Portugal: trazer mais produtores para o Singular, aumentar a diversidade da oferta e tornar a plataforma cada vez mais relevante para consumidores que querem descobrir e comprar produtos nacionais.
A ambição é que o Singular se afirme como uma verdadeira montra digital da produção portuguesa e, ao mesmo tempo, como uma demonstração de que a logística pode ser uma ferramenta de crescimento para empresas que, pela sua dimensão ou implantação geográfica, nem sempre têm facilidade em chegar a novos públicos.
Quais são os objetivos da DPD para o Singular nos próximos 12 a 24 meses? Há metas concretas em número de produtores, encomendas ou volume transacionado?
As nossas metas são sobretudo aumentar o número de produtores e dar maior visibilidade aos mesmos, dando a conhecer alguns dos tesouros que Portugal tem em termos de produtos alimentares. O volume de encomendas obviamente que esperamos seja elevado, já que significará que os nossos clientes estão a ser muito bem sucedidos nas suas vendas.















