Pessoa deitada e aparentemente a dormir num banco de pedra, enquanto transeuntes passam numa praça Foto Shutterstock

Quase 10% dos portugueses vivem em pobreza persistente

Estudo do Portugal, Balanço Social revela que 9,5% da população estava em risco de pobreza persistente em 2025, após uma subida face ao ano anterior

Quase uma em cada dez pessoas residentes em Portugal encontrava-se em risco de pobreza persistente em 2025. A situação abrangia 9,5% da população, que vivia nessa condição nesse ano e em pelo menos dois dos três anos anteriores. Entre as pessoas em risco de pobreza em 2025, 61,7% enfrentavam uma situação prolongada de vulnerabilidade económica.

Os dados constam do estudo Trajetórias da Pobreza e da Privação – Uma análise da última década, desenvolvido no âmbito do projeto Portugal, Balanço Social, uma iniciativa da Iniciativa para a Equidade Social, em parceria com a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE. O trabalho é da autoria de Bruno P. Carvalho, João Fanha, Miguel Fonseca e Susana Peralta.

A análise acompanha os mesmos indivíduos ao longo de vários anos, permitindo distinguir situações temporárias de pobreza de casos em que a vulnerabilidade económica se prolonga e se torna mais difícil de ultrapassar.

Pobreza persistente aumenta em 2025

Entre 2022 e 2025, 25,6% da população esteve em risco de pobreza durante pelo menos um dos quatro anos analisados. Deste universo, 8,8% estiveram nessa situação durante um ano, 5,3% durante dois anos e 4,6% durante três anos. Outros 6,9% permaneceram em risco de pobreza ao longo de todo o período. Em contrapartida, 74,4% não estiveram nessa situação em nenhum dos quatro anos.

A evolução da última década mostra uma melhoria global, mas com uma inversão recente. A taxa de pobreza persistente caiu de 13,6%, em 2015, para um mínimo de 7,1%, em 2024, antes de subir para 9,5% em 2025.

Também se registaram mudanças na distribuição por idades. Em 2015, as crianças e os jovens apresentavam a maior incidência de pobreza persistente. Em 2025, a taxa mais elevada passou a verificar-se entre as pessoas com 65 ou mais anos, atingindo 10,6%, contra 9,3% entre os menores de 18 anos e 9% na população dos 18 aos 64 anos.

Apesar desta alteração, a pobreza persistente entre crianças e jovens diminuiu para cerca de metade na última década, passando de 18,1%, em 2015, para 9,3%, em 2025.

As mulheres continuam mais expostas do que os homens: em 2025, 10% estavam em risco de pobreza persistente, face a 9% dos homens. Entre 2022 e 2025, 27,1% das mulheres passaram por uma situação de risco de pobreza durante pelo menos um ano, contra 23,8% dos homens.

Privação material prolonga dificuldades

O estudo analisa também as condições materiais de vida. Em 2025, 5,8% da população encontrava-se em privação material e social persistente, enquanto 1,8% vivia numa situação de privação severa persistente. Entre 2022 e 2025, 21,4% da população passou por privação material e social durante pelo menos um ano e 3,4% permaneceu nessa situação ao longo dos quatro anos.

As dificuldades financeiras mais persistentes estão relacionadas com a capacidade de suportar despesas e manter condições de vida adequadas. Um quarto da população (25,4%) não conseguiu pagar uma semana de férias fora de casa de forma persistente. A incapacidade de substituir mobiliário usado afetou 22,4%, enquanto 20,7% não conseguiram fazer face a despesas inesperadas.

A pobreza monetária e a privação material surgem frequentemente associadas. Em 2025, 28,8% das pessoas em pobreza persistente estavam também em privação material e social persistente, contra 3,4% das pessoas que não se encontravam em pobreza persistente. Considerando todo o período entre 2022 e 2025, 62,8% das pessoas em pobreza persistente passaram por privação material e social pelo menos uma vez.

Vulnerabilidade afeta bem-estar e confiança

A persistência das dificuldades económicas está igualmente associada a níveis mais baixos de satisfação com a vida. Entre as pessoas em pobreza persistente, 11,5% declararam-se pouco ou nada satisfeitas, uma proporção que desce para 2,8% entre quem não se encontrava nessa situação.

A relação é ainda mais expressiva entre as pessoas em privação material e social persistente: 13,2% afirmaram não estar nada satisfeitas com a vida e 6,4% disseram estar pouco satisfeitas. Apenas 9,6% se declararam completamente satisfeitas.

O estudo identifica também diferenças na confiança interpessoal. Entre as pessoas em privação persistente, 24,5% afirmaram não confiar nada nos outros, face a 7,2% entre quem não vivia nessa situação.

A análise baseia-se na dimensão longitudinal do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, acompanhando uma amostra representativa de 6.057 indivíduos entre 2022 e 2025 e integrando dados de períodos anteriores, desde 2012-2015.

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