Pessoa deitada e aparentemente a dormir num banco de pedra, enquanto transeuntes passam numa praça Foto Shutterstock

92,7 milhões de pessoas estavam em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia em 2025

A União Europeia tinha 92,7 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social em 2025, segundo a edição de 2026 do relatório “Key figures on European living conditions”, do Eurostat.

O indicador agrega três situações distintas: risco de pobreza monetária, privação material e social severa e residência em agregados com intensidade de trabalho muito baixa.

O número mostra que, apesar da melhoria de alguns indicadores macroeconómicos e laborais, uma parcela significativa da população europeia continua exposta a vulnerabilidade económica.

Rendimento disponível varia fortemente entre países

Em 2025, o rendimento disponível anual mediano na União Europeia foi de 22.630 PPS por habitante, uma medida que permite comparar o poder de compra entre países.

Os valores mais elevados foram registados no Luxemburgo, Áustria e Países Baixos, enquanto Hungria, Roménia e Grécia se encontravam entre os mercados com menor rendimento disponível mediano.

As diferenças ajudam a explicar por que razão padrões de consumo, sensibilidade ao preço e peso das despesas essenciais continuam a variar de forma significativa entre Estados-membros.

8% vive em agregados com muito baixa intensidade de trabalho

Outro dos indicadores destacados pelo Eurostat mostra que 8% das pessoas com menos de 65 anos viviamem agregados familiares com intensidade de trabalho muito baixa.

Este indicador mede situações em que os adultos em idade ativa trabalham apenas uma pequena parte do tempo potencialmente disponível ao longo do ano.

A baixa intensidade de trabalho está diretamente associada a maior risco de vulnerabilidade económica e menor capacidade de resposta a aumentos de preços ou despesas inesperadas.

Ter emprego não elimina risco de pobreza

O relatório mostra também que a existência de emprego não é, por si só, suficiente para afastar o risco económico. Em 2025, 8,3% dos trabalhadores com 18 ou mais anos estava em risco de pobreza.

O dado evidencia a existência de uma população empregada que, apesar de ter rendimento proveniente do trabalho, continua exposta a dificuldades financeiras.

Para o consumo, este fenómeno é particularmente relevante porque pode traduzir-se numa maior concentração da despesa em bens essenciais e numa redução do espaço disponível para compras discricionárias.

Privação material severa afeta 6,3% da população

Cerca de 6,3% da população da União Europeia encontrava-se em situação de privação material e social severa em 2025, ligeiramente abaixo dos 6,4% registados no ano anterior. A incidência era superior entre as mulheres, com 6,6%, face a 6% entre os homens.

Entre as crianças, a taxa atingia 7,9%, evidenciando uma exposição superior dos agregados familiares com menores.

A privação material mede a incapacidade de suportar um conjunto de despesas consideradas necessárias para uma vida adequada, como aquecimento, alimentação, despesas imprevistas ou determinados bens e serviços.

Portugal destaca-se na composição dos agregados

Portugal surge com uma característica particular na estrutura das famílias. Em 2025, 31,8% dos agregados portugueses era constituído por dois adultos sem filhos dependentes, a proporção mais elevada da União Europeia.

No conjunto da União Eropeia, o tipo de agregado mais frequente era composto por um único adulto sem filhos dependentes, representando 35,7% do total.

A composição dos agregados influencia diretamente os padrões de consumo, uma vez que condiciona necessidades de habitação, alimentação, mobilidade, saúde e lazer.

Portugueses mais velhos apresentam maior pobreza subjetiva

O relatório analisa também a chamada pobreza subjetiva, isto é, a proporção de pessoas que se consideram pobres independentemente do indicador estatístico tradicional de rendimento. Em Portugal, este indicador apresenta maior incidência entre a população com 65 ou mais anos.

Esta perceção pode ser particularmente relevante do ponto de vista do consumo, uma vez que a sensação de insegurança financeira pode levar os consumidores a aumentar a poupança preventiva, reduzir compras discricionárias e procurar alternativas de menor preço.

Os dados do Eurostat ajudam a enquadrar várias tendências atualmente observadas no retalho europeu. Num contexto em que milhões de consumidores continuam expostos ao risco de pobreza ou exclusão social, comportamentos como maior procura de promoções, marcas próprias, formatos discount e produtos de entrada de gama tendem a ganhar relevância.

Ao mesmo tempo, despesas fixas como habitação, energia, alimentação e transportes continuam a absorver uma parte importante do orçamento das famílias. Por isso, uma melhoria nominal dos rendimentos ou uma desaceleração da inflação não se traduzem necessariamente num aumento imediato do consumo discricionário.

Pressão sobre o orçamento permanece desigual

O retrato europeu mostra também que a recuperação económica não é homogénea. Enquanto alguns mercados apresentam níveis elevados de rendimento disponível e menor exposição à privação, outros continuam com uma parcela significativa da população em situação vulnerável.

Para marcas e retalhistas, esta diversidade torna cada vez mais importante ajustar preço, sortido, formatos e comunicação às diferenças de poder de compra entre mercados e segmentos de consumidores.

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