O retalho alimentar e não alimentar reforçou o emprego, a estabilidade laboral, a produtividade e o investimento em formação nos últimos cinco anos, num período simultaneamente marcado por profundas alterações tecnológicas, demográficas e organizacionais. As conclusões fazem parte do estudo “O Valor das Nossas Pessoas”, apresentado pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) e desenvolvido em parceria com a Forvis Mazars.
O trabalho pretende caracterizar a força de trabalho do sector, analisar as práticas de gestão de pessoas e perceber de que forma tendências como a digitalização e a inteligência artificial, as alterações demográficas, a sustentabilidade e o aumento da competitividade estão a transformar os recursos humanos no retalho.
A apresentação decorreu no evento “O Valor das Nossas Pessoas”, realizado em Lisboa, que reuniu responsáveis de recursos humanos e dirigentes de empresas dos segmentos alimentar e não alimentar para debater a atração, a retenção, a diversidade, a qualificação e a transformação tecnológica.
Mais de 155 mil colaboradores e 21.900 novos empregos
As empresas associadas analisadas empregam atualmente mais de 155 mil pessoas e foram responsáveis pela criação de 21.900 novos postos de trabalho entre 2020 e 2025.
Nesse período, a população empregada passou de 133,4 mil para 155,3 mil trabalhadores, correspondendo a uma taxa média anual de crescimento de cerca de 3%.
O sector assume também um papel relevante enquanto porta de entrada no mercado de trabalho: 17% dos colaboradores tem até 24 anos, quase três vezes a proporção de 6% registada a nível nacional. No total, 60% dos trabalhadores tem 39 anos ou menos.
85% dos trabalhadores tem contrato sem termo
A estabilidade contratual aumentou também nos últimos anos. Em 2025, 85% dos colaboradores das empresas associadas da APED tinha contrato sem termo, acima dos 80% registados em 2020. O valor compara com 76% no conjunto do sector do retalho e com 71% no total da atividade económica nacional.
Em termos de regime de trabalho, 78% dos colaboradores trabalham a tempo inteiro e 22% a tempo parcial. Este perfil aproxima-se do padrão europeu do sector, onde 80% trabalha a tempo inteiro e 20% a tempo parcial, mas difere do retalho nacional, onde o trabalho a tempo parcial representa apenas 8%.
Investimento em formação cresce 66%
A formação é, por sua vez, um dos indicadores que mais evoluiu. Em 2025, as empresas associadas investiram 40,9 milhões de euros em formação, mais 66% do que cinco anos antes. Cada colaborador recebeu, em média, 45 horas de formação, acima das 40 horas anuais previstas legalmente.
O investimento médio atingiu 264 euros por trabalhador, face a 197 euros em 2020, e o número total de horas de formação ascendeu a 6,9 milhões.
As áreas prioritárias estão também a mudar. Além das competências comportamentais e de liderança, ganham peso inteligência artificial, dados, análise de dados, cibersegurança, automação e literacia digital.
Produtividade por trabalhador aumenta 30%
O crescimento do emprego foi acompanhado por uma melhoria da produtividade. Entre 2020 e 2025, o valor acrescentado bruto por colaborador aumentou 30%, passando de 22,6 mil euros para 29,6 mil euros.
No retalho alimentar, a produtividade chegou aos 30 mil euros por trabalhador, enquanto no não alimentar se situou nos 28 mil euros.
O estudo associa esta evolução à combinação entre crescimento, qualificação das equipas e transformação dos modelos operacionais.
Mulheres ocupam 53% dos cargos de chefia
Os indicadores de diversidade mostram igualmente mudanças relevantes. Cerca de 53% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres, enquanto o gender pay gap ajustado nas empresas da APED se situa nos 2,7%, muito abaixo dos 10,8% registados no conjunto da atividade económica nacional.
A diversidade de nacionalidades está também a aumentar. Estão representadas 62 nacionalidades diferentes entre as equipas analisadas.
Marca empregadora e retenção ganham peso
O evento incluiu ainda dois painéis de debate. O primeiro, “Retalho, que presente e que futuro?”, reuniu representantes da Norauto Portugal, Jerónimo Martins, Sonae MC e Lidl Portugal. Entre as ideias em destaque esteve a necessidade de construir marcas empregadoras fortes e capazes de responder a diferentes gerações, culturas e nacionalidades.
A comunicação interna foi igualmente apontada como um instrumento central para reforçar integração e sentimento de pertença, num contexto em que as empresas precisam de ir além da atração e trabalhar também envolvimento e retenção.
Diversidade exige formação e literacia
O segundo painel, dedicado a diversidade, equidade e inclusão, contou com responsáveis da Auchan Retail Portugal, FNAC Darty Portugal, El Corte Inglés Portugal e Perfumes & Companhia. A discussão sublinhou o papel da formação e da literacia na desconstrução de preconceitos, bem como a importância crescente de competências como empatia, inteligência emocional e tolerância.
A tecnologia foi vista como instrumento de apoio, mas não como substituto da dimensão humana das organizações.
IA e competências futuras no centro das prioridades
O estudo identifica três grandes grupos de competências determinantes para a empregabilidade futura: comportamentais, cognitivas e digitais. Nas estruturas centrais, ganham importância áreas como IA e data, análise de dados, cibersegurança e automação.
Nas operações, destacam-se literacia digital, ferramentas operacionais, omnicanalidade e novos formatos de atendimento.
Ao mesmo tempo, competências como comunicação, colaboração, liderança, gestão da mudança, resiliência, adaptabilidade e orientação para o cliente mantêm um peso central.
A transformação tecnológica esteve também em debate através da keynote “A armadilha da IA: O futuro do trabalho no retalho”, conduzida por Tiago Forjaz, managing partner da The Epic Talent Society.
“A tecnologia deve estar ao serviço das pessoas”
Na abertura do evento, Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da APED, sublinhou que o sector enfrenta simultaneamente transformação digital e mudança demográfica. “O valor das nossas pessoas não é retórica, é algo que nos define”, afirmou.
O responsável destacou os 85% de contratos sem termo e o crescimento do investimento em capacitação, defendendo que “a tecnologia deve estar ao serviço das pessoas, capacitando-as e acrescentando valor ao seu trabalho, e não o inverso”.
No encerramento, José António Nogueira de Brito, presidente da APED, reforçou a mesma ideia. “O retalho exige escala, planeamento e adaptação, mas é, na sua essência, um negócio de pessoas para pessoas”, salientou.
No seu entender, a qualificação tecnológica continuará a ser fundamental, mas “a tecnologia jamais substituirá a competência humana, a proximidade, o aconselhamento e a empatia que caracterizam o nosso serviço”.









