A Mercadona opera Portugal e Espanha como um ecossistema integrado. Para os fornecedores portugueses, isso pode significar maior mercado e investimento, desde que consigam responder a qualidade, regularidade, inovação e capacidade produtiva.
De acordo com fonte oficial da insígnia, a produção nacional esteve no centro do desenvolvimento da sua oferta desde a entrada em Portugal. Em 2025, realizou, segundo os dados fornecidos pela empresa, 1.500 milhões de euros em compras a fornecedores nacionais. Valorizar essa produção significa, na sua leitura, torná-la competitiva sem perder o foco em qualidade, disponibilidade e preço para o “Chefe”.
A origem é definida como uma combinação entre local de produção, proveniência das matérias-primas e cadeia agroalimentar. O conhecimento e experiência dos fornecedores entram igualmente na equação, sobretudo pela sua influência na qualidade e rastreabilidade.
Um ecossistema ibérico
Portugal e Espanha funcionam, segundo a Mercadona, com processos comuns de compras, logística e inovação. Produtos desenvolvidos ou produzidos em Portugal podem chegar ao mercado espanhol se responderem às necessidades dos consumidores e cumprirem requisitos de qualidade, serviço e capacidade de fornecimento. Hortofrutícolas, padaria e pastelaria, queijos e iogurtes são apresentados como exemplos.
Os chamados fornecedores especialistas e interfornecedores têm, neste modelo, um papel central. A cadeia trabalha com relações de longo prazo destinadas a desenvolver produtos, melhorar processos e ganhar eficiência. Em 2025, estes fornecedores terão investido 1.700 milhões de euros na melhoria das suas infraestruturas.
Origem, preço e transformação dos fornecedores
Leite e outros lácteos, azeite e carne são apontados como categorias em que a origem portuguesa pode acrescentar vantagens de frescura, disponibilidade, logística e conhecimento produtivo. Mas a empresa não separa a origem da disciplina de preço: a política SPB – Sempre Preços Baixos – estabelece como compromisso oferecer “produtos da melhor qualidade ao preço mais baixo possível”.
Perante alterações nos custos das matérias-primas, a Mercadona diz procurar soluções com os fornecedores e repercutir variações nos preços finais quando necessário, mencionando pão, iogurtes e massas como exemplos de ajustamentos em 2026.
Os fornecedores, independentemente da nacionalidade, têm de responder a padrões de qualidade, regularidade, inovação e capacidade produtiva. A estabilidade da relação é apresentada como condição para planear e investir. O Modelo de Coinovação usa a opinião dos “Chefes” para desenvolver e adaptar produtos às necessidades do mercado.
Centralização sem eliminar diversidade
A Mercadona considera que a centralização das compras pode ampliar oportunidades para fornecedores de diferentes regiões, incluindo as ilhas. O argumento é que uma rede maior pode dar mercado a empresas capazes de abastecer a cadeia, sem que o conhecimento e especialização territoriais sejam necessariamente eliminados.
A sazonalidade é incorporada no planeamento. A empresa afirma trabalhar com os fornecedores para conhecer ciclos de produção, antecipar necessidades e privilegiar a produção nacional sempre que esta responda ao mercado.
Transparência, investimento e identidade
A informação de origem é apresentada segundo as regras de rotulagem de cada categoria. A validação passa, segundo a empresa, por processos de controlo e segurança alimentar, auditorias, análises e verificações ao longo da cadeia.
Em 2025, além dos 1.500 milhões de euros em compras a fornecedores nacionais, a Mercadona afirma ter investido 140 milhões de euros em Portugal e criado 500 novos empregos, com contrato sem termo desde o primeiro dia.
“Um produto não perde a sua identidade por chegar a mais consumidores: a escala é uma consequência da capacidade de responder às necessidades dos ‘Chefes’, sem abdicar da qualidade e das características que o distinguem.”
É nesse equilíbrio que a origem portuguesa é testada: não pela ausência de mudança, mas pela capacidade de adaptar processos, volumes e canais sem perder os atributos que justificam a diferenciação.
Este artigo integra a série “Produtos com Origem”. Leia a reportagem completa “Quanto vale um lugar?” na edição n.º 100 da Grande Consumo. Leia também o primeiro artigo “Quanto território cabe numa rede nacional? , o segundo “A sazonalidade não é uma limitação”: quando o retalho aceita o tempo da terra” e o terceiro “Exportar a portugalidade: quando a escala de uma cadeia global serve o produtor regional”.









