A The Navigator Company reduziu em praticamente 300 mil toneladas as emissões de CO₂ dos seus quatro complexos industriais, através de projetos apoiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). No total, a empresa esteve envolvida em 90 projetos, com seis grandes projetos de descarbonização a representar um investimento de cerca de 193 milhões de euros, dos quais 76 milhões são cofinanciados pelo PRR.
O balanço de quatro anos de trabalho foi apresentado durante a visita do Secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, ao Complexo Industrial de Setúbal.
Os seis projetos abrangem os complexos de Setúbal, Figueira da Foz, Aveiro e Vila Velha de Ródão e incluem a instalação de uma caldeira de recuperação em Setúbal, um forno de cal a biomassa na Figueira da Foz, uma unidade de cogeração em Aveiro, uma caldeira a biomassa em Vila Velha de Ródão e centrais fotovoltaicas em Aveiro, Figueira da Foz e Vila Velha de Ródão.
No conjunto, estes projetos deverão permitir uma redução das emissões de Âmbito 1 e 2 de praticamente 300 mil toneladas de CO₂. A Navigator compara esta redução às emissões anuais de cerca de 70 mil automóveis em circulação.
Descarbonização das operações industriais
Os investimentos fazem parte do Roteiro de Descarbonização aprovado pela Navigator em 2019, que estabelece como objetivo uma redução de 86% das emissões até 2035, face ao ano de referência de 2018.
Em 2025, apenas sete anos após esse ano de referência, a Navigator já tinha atingido uma redução de 37%. Em 2027, com o contributo dos projetos realizados, essa redução será de 54%, correspondendo a cerca de 415 mil toneladas de CO₂. Desde 2018, o investimento nesta matéria ascende aos 352 milhões de euros.
Para o período entre 2027 e 2035, a Navigator tem já em análise novos projetos de utilização de biomassa e eletrificação, com uma redução adicional prevista de 251 mil toneladas de CO₂.
Entre os investimentos realizados está também o projeto LK2BM, em Setúbal, que permite converter o forno de cal para utilização de biomassa em substituição do gás natural.
Além da forte dimensão ambiental, estes projetos assumem igualmente relevância para a competitividade da empresa. Ao reduzir o consumo de combustíveis fósseis, aumentar a produção de energia renovável para autoconsumo e tornar os processos mais eficientes, a Navigator mitiga também a exposição à volatilidade energética e aos custos associados, reforçando a sua posição numa indústria exportadora que compete diariamente em mercados internacionais exigentes.
“O preço da eletricidade europeia continua largamente indexado ao gás, mesmo quando a maior parte da eletricidade já não é produzida a partir de gás. Não pedimos uma tarifa garantida. Pedimos coerência: contratos de longo prazo acessíveis, ligações à rede em prazos compatíveis com o investimento e um preço que acompanhe o mix de produção que já temos. Sem isso, a eletrificação da indústria será somente um ato de fé”, afirmou António Redondo, CEO da The Navigator Company.
A Navigator defende ainda a importância do apoio público em projetos de descarbonização cujo retorno privado é inferior ao retorno social, nomeadamente pelos benefícios associados à redução de emissões e da dependência energética externa.
“Houve sucessivas reprogramações, muitas por falta de execução no setor público, mas não podemos deixar de questionar, num dia como o de hoje, quantos projetos de investimento produtivo verde teríamos realizado se os apoios tivessem sido mais equilibrados entre o público e o privado”, acrescentou o CEO, que recordou aquilo que o Ministro da Economia e da Coesão Territorial descreveu como o “pecado original do PRR, que era ter demasiado dinheiro para o Estado e pouco para as empresas”.
Desenvolvimento de novos bioprodutos
A participação da Navigator no PRR abrange também a inovação em produtos, com destaque para a Agenda Mobilizadora From Fossil to Forest. O projeto reuniu mais de 20 empresas, universidades e centros de conhecimento, com o objetivo de desenvolver soluções de base celulósica e aproximá-las da aplicação industrial.
A Agenda envolveu um investimento global próximo dos 94 milhões de euros, seis áreas de desenvolvimento e 11 Produtos, Processos e Serviços.
Entre as soluções desenvolvidas, testadas e, em vários casos, validadas à escala industrial, estão pastas e papéis para embalagem, papéis com propriedades barreira, biocompósitos, sensores em papel e soluções de celulose moldada.
No domínio da embalagem e, em particular, da celulose moldada, a Navigator colocou em operação, no complexo de Aveiro, a primeira linha industrial do mundo totalmente integrada com fibra virgem de Eucalyptus globulus, destinada à produção de soluções para take-away e tableware.
Digitalização e modernização florestal
No seu conjunto, os 90 projetos contribuíram para acelerar investimentos, reforçar a colaboração entre empresas e o sistema científico e tecnológico e aproximar a investigação da aplicação industrial.
Segundo a Navigator, o legado deste ciclo de investimento traduz-se em instalações industriais mais eficientes e descarbonizadas, novos bioprodutos e tecnologias e um reforço das competências e redes de colaboração. São resultados que criam condições para que a transformação iniciada com o apoio do PRR continue para além do horizonte do próprio programa.
“Raramente um espaço económico se torna líder tecnológico depois de deixar de ser líder industrial. O risco para a Europa, e para Portugal, não é um colapso súbito. É uma erosão silenciosa. Perder uma fábrica é mau. Perder um ecossistema é praticamente irreversível. É por isso que um instrumento como o PRR não deve ser avaliado apenas como despesa pública bem ou mal executada. Deve ser avaliado por aquilo que verdadeiramente decide: se continuamos a ser um país que fabrica”, defendeu António Redondo, lembrando que, em 2005, a União Europeia representava cerca de 24% da indústria transformadora mundial e que hoje esse peso ronda os 17%, enquanto a China passou, no mesmo período, de menos de 10% para cerca de 27%.















