A inteligência artificial e a automação terão um papel crescente na deteção de ameaças e na resposta imediata a incidentes, mas não substituirão os especialistas. Em entrevista à Grande Consumo, Luís Martins, diretor-geral da Prosegur Cybersecurity Portugal, analisa a evolução das ciberameaças e explica por que razão a vigilância externa, a rapidez de atuação e a capacidade humana de interpretar o contexto serão decisivas para proteger as operações, as vendas e a confiança dos consumidores.
Como tem evoluído o panorama das ciberameaças em Portugal e que mudanças mais significativas têm observado nos métodos utilizados pelos atacantes?
O panorama das ciberameaças tornou-se significativamente mais complexo nos últimos anos. Os ataques deixaram de ser, na sua maioria, ações oportunistas para passarem a ser operações cada vez mais organizadas, automatizadas e direcionadas. Hoje, os cibercriminosos recorrem à inteligência artificial para criar campanhas de phishing mais credíveis, desenvolver malware mais sofisticado e identificar vulnerabilidades de forma mais rápida.
Ao mesmo tempo, as organizações deixaram de operar dentro de um perímetro tecnológico fechado. A utilização generalizada da cloud, do teletrabalho e de serviços digitais de terceiros criou pontos de exposição que são explorados pelos atacantes. Muitas vezes, o primeiro sinal de um ataque surge fora da infraestrutura da empresa, através da exposição de credenciais, da criação de domínios fraudulentos ou da utilização abusiva da marca.
Este contexto exige uma mudança de paradigma. Já não basta proteger os sistemas internos, é necessário desenvolver capacidades de vigilância contínua e de resposta rápida. É precisamente nesse sentido que temos vindo a desenvolver o nosso SOC by xMDR, reforçando-o com capacidades que permitem antecipar riscos e reduzir o tempo de resposta, aumentando a resiliência das organizações.
O teletrabalho, a adoção da cloud e a contratação de serviços externos ampliaram a superfície de ataque das organizações. Onde se encontram atualmente as vulnerabilidades mais difíceis de identificar e controlar?
As vulnerabilidades mais difíceis de controlar são precisamente aquelas que escapam à visibilidade tradicional das equipas de segurança. Atualmente, uma parte significativa da atividade digital das empresas acontece fora do seu perímetro corporativo, envolvendo plataformas cloud, dispositivos pessoais e múltiplos servidores externos. No setor da distribuição, por exemplo, a superfície de ataque é particularmente extensa. Para além dos sistemas internos, existem plataformas de e-commerce, terminais de pagamento, operadores logísticos, fornecedores tecnológicos, aplicações de gestão de stocks e dezenas ou centenas de parceiros que trocam informação diariamente. Basta que um destes elos da cadeia seja comprometido para criar um risco para toda a operação.
Por isso, é essencial complementar a proteção tradicional com uma visão externa e contínua da exposição digital. Conhecer quais os ativos que estão acessíveis na internet, monitorizar credenciais comprometidas e identificar tentativas de usurpação da marca tornou-se indispensável à estratégia de cibersegurança.
O que motivou o reforço do SOC da Prosegur com os novos módulos xCope e xEcute e que necessidades concretas dos clientes procuram resolver?
O desenvolvimento destes módulos resulta da evolução natural das necessidades dos nossos clientes e da transformação do panorama das ameaças. Identificámos que muitas respostas a incidentes continuavam a depender de processos manuais, o que aumentava o tempo necessário para conter um ataque.
O xCope foi concebido precisamente para responder ao primeiro desafio, oferecendo capacidades de cibervigilância que permitem monitorizar ativos expostos, credenciais comprometidas, domínios fraudulentos ou utilizações indevidas da marca antes que essas situações tenham impacto operacional.
Já o xEcute responde ao segundo desafio, permitindo automatizar fluxos de resposta previamente definidos, reduzindo o intervalo entre a deteção e a atuação.
Em conjunto, estes módulos reforçam o SOC by xMDR, permitindo às organizações passar de um modelo predominantemente reativo para uma abordagem mais preventiva, inteligente e eficiente, adaptada ao atual contexto digital.
O xCope permite vigiar ativos expostos fora do perímetro corporativo. Que tipo de informação, vulnerabilidade ou atividade suspeita consegue identificar antes de esta se transformar num incidente?
O xCope funciona como uma capacidade permanente de vigilância digital externa. Entre outras funcionalidades, consegue identificar credenciais corporativas expostas em diferentes ambientes digitais, detetar domínios criados para campanhas de phishing ou de usurpação da identidade da empresa, e monitorizar fugas de informação.
Ao identificar estes indicadores de forma antecipada, as organizações conseguem atuar antes que os atacantes explorem essas vulnerabilidades, reduzindo de forma significativa a probabilidade de um incidente com impacto operacional ou reputacional. Mais do que reagir a ataques, o objetivo passo por antecipá-los.
“Não é fácil ter uma visão totalmente completa da superfície de exposição digital. A transformação tecnológica foi muito rápida e levou muitas empresas a integrar novas aplicações, fornecedores e serviços cloud ao longo dos últimos anos. Essa evolução trouxe ganhos importantes de eficiência, mas também contribuiu para o aumento da complexidade na gestão dos ativos digitais”
Fugas de credenciais, domínios fraudulentos e utilização abusiva de marcas são ameaças cada vez mais frequentes. Que impacto podem ter na reputação, nas vendas e na confiança dos clientes de uma empresa?
O impacto pode ser grande e, muitas vezes, prolonga-se muito para além da resolução técnica do incidente. Uma campanha de phishing que utilize a identidade visual de uma empresa pode levar clientes a fornecer dados pessoais ou financeiros, comprometendo imediatamente a confiança na marca. Da mesma forma, a exposição de credenciais pode permitir acessos indevidos a sistemas críticos ou originar fraudes financeiras.
Em muitos setores, especialmente no retalho, banca ou serviços digitais, a confiança é um dos ativos mais valiosos. Um incidente público pode resultar na perda de clientes, redução de vendas e em danos reputacionais. Por isso, é cada vez mais importante detetar estas situações antes de chegarem aos clientes. A prevenção continua a ser o investimento mais eficaz em cibersegurança.
Até que ponto as organizações conhecem realmente todos os ativos, fornecedores, aplicações e serviços digitais que estão expostos na internet em seu nome?
Não é fácil ter uma visão totalmente completa da superfície de exposição digital. A transformação tecnológica foi muito rápida e levou muitas empresas a integrar novas aplicações, fornecedores e serviços cloud ao longo dos últimos anos. Essa evolução trouxe ganhos importantes de eficiência, mas também contribuiu para o aumento da complexidade na gestão dos ativos digitais.
Um dos grandes desafios atuais passa por recuperar essa visibilidade, porque só é possível proteger aquilo que se conhece.
O xEcute automatiza a execução de fluxos de resposta a incidentes. Que ações podem ser realizadas automaticamente e em que situações continua a ser indispensável a intervenção humana?
A automação permite executar um conjunto muito alargado de ações previamente aprovadas pelas organizações. Entre os exemplos mais comuns estão o isolamento automático de equipamentos comprometidos, o bloqueio de endereços IP maliciosos, a desativação temporária de contas comprometidas, a abertura de incidentes e o envio de notificações. Mas a automação não substitui os especialistas em cibersegurança. Pelo contrário, permite que estes concentrem o seu trabalho na análise, na tomada de decisão e na gestão de incidentes mais complexos.
Sempre que há necessidade de avaliar contexto, impacto no negócio ou decisões estratégicas, a intervenção humana continua a ser essencial.
Quanto tempo pode ser poupado entre a deteção de uma ameaça e a respetiva contenção através da automação e que diferença pode esse ganho representar na dimensão dos danos?
Em muitos cenários, a automação permite reduzir o tempo de resposta de vários minutos ou mesmo horas para apenas alguns segundos. Em operações de grande dimensão, esta redução do tempo de resposta pode fazer toda a diferença entre um incidente localizado e uma interrupção significativa da atividade.
A automação da cibersegurança também pode introduzir riscos, nomeadamente através de respostas incorretas ou excessivas. Que mecanismos de controlo e validação devem existir?
A automação deve ser sempre implementada com regras de governance bem definidas. Os fluxos automáticos são previamente testados e aprovados pelas equipas responsáveis.
É importante sublinhar que nem todas as respostas devem ser totalmente automáticas. Em situações mais sensíveis podem existir mecanismos de aprovação humana antes da execução. O objetivo não é retirar controlo às organizações, mas sim eliminar tarefas repetitivas e acelerar processos onde existe um elevado grau de confiança.
O modelo mais eficaz continua a ser o que conjuga a automação e a supervisão humana.
“Os SOC vão evoluir para plataformas cada vez mais inteligentes, automatizadas e orientadas por dados. A inteligência artificial terá um papel crescente na identificação de padrões, na priorização de alertas e na assistência às equipas de segurança, enquanto a automação assumirá um número cada vez maior de tarefas repetitivas e de resposta imediata”
Setores como o retalho, a distribuição e os serviços dependem de extensas redes de fornecedores, plataformas de pagamento e operações omnicanal. Que ameaças específicas enfrentam estas organizações?
Estes setores enfrentam um conjunto particularmente diversificado de ameaças. Além dos ataques tradicionais, estão frequentemente expostos a fraudes associadas a plataformas de pagamento, fornecedores que podem ser comprometidos, ataques à cadeia logística, roubo de credenciais, campanhas de phishing dirigidas aos clientes e tentativas de usurpação da identidade de marca.
O retalho e a distribuição são hoje altamente digitalizados. São setores que geram grandes volumes de dados pessoais e financeiros, e que têm uma superfície de exposição muito grande. Por isso, qualquer uma das ameaças referidas pode ter impacto direto na operação, nas vendas e na experiência do consumidor. Face a estas eventuais consequências, é fundamental combinar monitorização contínua, inteligência sobre ameaças e automação de resposta.
As empresas estão a investir suficientemente na prevenção e na capacidade de resposta ou a cibersegurança continua a ser encarada sobretudo como uma reação depois de ocorrer um incidente?
Há uma evolução positiva. Cada vez mais organizações reconhecem a cibersegurança como um fator estratégico e não apenas tecnológico. A prevenção exige investimento contínuo, formação, monitorização permanente e capacidade de adaptação a novas ameaças.
O verdadeiro desafio para as empresas consiste em desenvolver uma postura proativa, de antecipação, onde a deteção precoce de ameaças e a resposta rápida fazem parte da estratégia de negócio.
Que evolução antecipa para os centros de operações de segurança nos próximos anos e que papel terão a inteligência artificial, a automação e os profissionais especializados nesse novo modelo?
Os SOC vão evoluir para plataformas cada vez mais inteligentes, automatizadas e orientadas por dados. A inteligência artificial terá um papel crescente na identificação de padrões, na priorização de alertas e na assistência às equipas de segurança, enquanto a automação assumirá um número cada vez maior de tarefas repetitivas e de resposta imediata.
No entanto, esta evolução não reduz a importância dos especialistas. Pelo contrário, aumenta a necessidade de profissionais capazes de interpretar contexto, tomar decisões críticas e adaptar de forma contínua os modelos de defesa. O futuro dos SOC será marcado pela colaboração entre a tecnologia e o conhecimento humano.








