Cerca de seis mil agricultores de 15 Estados-membros da União Europeia mobilizaram-se esta semana em Estrasburgo, levando mil tratores para as ruas do Bairro Europeu, numa ação de protesto que voltou a colocar a agricultura no centro do debate político europeu.
Convocada pela FNSEA e apoiada pela COPA-COGECA, a iniciativa denunciou o que os agricultores consideram ser as consequências “devastadoras” de uma Política Agrícola Comum (PAC) enfraquecida, fragmentada e incapaz de responder aos desafios atuais do sector.
A mobilização surge na sequência de um protesto realizado em Bruxelas, em dezembro, e antecede uma votação decisiva no Parlamento Europeu sobre política comercial. Em ambos os momentos, agricultores e cooperativas agrícolas reiteraram o apelo às instituições europeias para que voltem a investir de forma clara e estruturada na agricultura, considerada um pilar estratégico para a segurança alimentar e para a coesão territorial da União.
Entre as principais reivindicações está a defesa de uma PAC forte, verdadeiramente comum e devidamente financiada no período pós-2027, enquadrada num Quadro Financeiro Plurianual que apoie a competitividade, o crescimento e a renovação geracional no sector. Os manifestantes alertam que a atual incerteza regulatória, aliada a um excesso de burocracia, bloqueia o investimento sustentável e compromete a viabilidade económica de milhares de explorações agrícolas.
Acordos justos e transparentes
A política comercial da União Europeia foi outro dos alvos centrais do protesto. Os agricultores exigem acordos comerciais justos e transparentes, que protejam efetivamente os padrões de produção europeus e os sectores mais sensíveis, denunciando o que consideram ser uma concorrência desleal resultante de acordos com países terceiros. Neste contexto, voltaram a criticar acordos como o Mercosul, defendendo que a União Europeia não pode premiar produções com normas ambientais e sociais mais baixas enquanto impõe exigências crescentes aos seus próprios agricultores.
O aumento dos custos de produção, em particular dos fertilizantes e de outros fatores de produção, associado à queda dos rendimentos agrícolas, está a colocar muitos produtores numa situação económica crítica. Os agricultores alertam ainda para o impacto da inclusão dos fertilizantes no Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM), considerando-a incomportável para um sector que nunca foi autossuficiente na produção destes insumos e que depende estruturalmente de importações.
A mobilização em Estrasburgo contou com o apoio de eurodeputados de diferentes famílias políticas, que reconheceram a urgência das preocupações expressas pelo sector agrícola. Para os organizadores, este apoio transversal reflete a dimensão estratégica da agricultura num contexto marcado por instabilidade geopolítica, conflitos internacionais e disrupções nos mercados globais.
“Os agricultores e as cooperativas agrícolas são os primeiros a pagar o preço das convulsões geopolíticas”, alertam as organizações do sector, sublinhando que a atual incerteza global torna ainda mais evidente a necessidade de proteger e reforçar uma atividade que está na base do projeto europeu. Além de garantir alimentos seguros, de qualidade e acessíveis, a agricultura sustenta comunidades rurais e fornece matérias-primas essenciais para a alimentação animal, a energia e a indústria.
Perante este cenário, os agricultores deixam um aviso claro às instituições europeias: ou a União Europeia escolhe estar ao lado dos agricultores e das zonas rurais, ou arrisca comprometer não apenas o futuro da agricultura, mas também a própria segurança e autonomia alimentar da Europa.







