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O comércio mundial prepara-se para uma nova fase de transformação logística, com o regresso progressivo dos navios ao Canal de Suez a partir de 2026.
A reabertura efetiva desta rota estratégica marcará o fim de um período de profunda reconfiguração do comércio marítimo internacional, iniciado em 2023, quando os ataques de rebeldes hutis a navios comerciais levaram as grandes transportadoras a evitar o estreito de Bab al-Mandab e a optar por rotas mais longas em torno de África.
A Maersk, maior transportadora marítima do mundo, já confirmou que pretende regressar ao Canal de Suez “assim que possível”, acompanhando as recomendações da Autoridade do Canal. O CEO do grupo, Vincent Clerc, afirmou que a empresa irá iniciar um retorno gradual ao corredor Este-Oeste, normalizando o trânsito à medida que as condições o permitam, com a segurança das tripulações como prioridade.
Este movimento é considerado por analistas como um ponto de viragem decisivo, capaz de influenciar rapidamente o comportamento de outras grandes armadoras internacionais.
Do desvio por África ao regresso à rota histórica
Desde o início da crise no mar Vermelho, grande parte do comércio mundial passou a contornar o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança, acrescentando cerca de sete mil quilómetros às viagens entre a Ásia e a Europa e até 10 dias adicionais de navegação.
Este desvio absorveu cerca de 6% da capacidade da frota mundial, contribuiu para o aumento dos custos de combustível, seguros e tripulação e pressionou fortemente as cadeias de abastecimento globais. O regresso ao Canal de Suez permitirá libertar capacidade, reduzir tempos de trânsito e aliviar gradualmente a pressão sobre os custos logísticos.
Apesar dos benefícios estruturais, os especialistas alertam que o regresso ao Canal de Suez não será isento de efeitos colaterais. Segundo análises da S&P Global e do ING, a reabertura da rota deverá provocar, numa primeira fase, congestão nos portos europeus, ajustamentos operacionais e novas tensões temporárias nas cadeias de fornecimento.
De forma paradoxal, esta fase inicial poderá traduzir-se num aumento temporário das tarifas, mesmo com uma rota mais curta e eficiente. Só numa segunda fase, com a normalização do tráfego e a entrada em operação de novos navios encomendados, deverá verificar-se uma pressão significativa em baixa sobre os preços do transporte marítimo.
Canal de Suez volta ao centro do comércio global
O Canal de Suez é responsável por cerca de 15% de todo o comércio marítimo mundial, sendo uma infraestrutura crítica para o abastecimento da Europa, nomeadamente de mercadorias provenientes da Ásia e de petróleo do Médio Oriente.
A crise teve um impacto severo na economia egípcia. O Governo do Egito estima perdas superiores a 800 milhões de dólares por mês em receitas, sendo que o canal representa cerca de 2,3% do PIB do país, ou aproximadamente 9,4 mil milhões de dólares anuais.
Para acelerar o regresso das armadoras, a Autoridade do Canal colocou em cima da mesa um pacote de incentivos, incluindo descontos de 15% nas taxas para grandes porta-contentores com mais de 130 mil toneladas.
Uma “pequena grande revolução” no comércio internacional
Para analistas do sector, o regresso ao Canal de Suez constitui uma verdadeira “pequena grande revolução” num comércio internacional já marcado por elevada volatilidade, tensões geopolíticas, crises logísticas sucessivas e mudanças estruturais nas cadeias globais de valor.
Após anos de adaptação forçada, o comércio mundial prepara-se agora para um novo reajustamento — mais curto, mais eficiente, mas não menos complexo — que voltará a colocar o Canal de Suez no centro da economia global.


