Opinião

O supermercado do futuro já está a ser construído

opinion-thumb Tiago Luís

Entramos num supermercado para fazer as compras para as refeições da semana. Percorremos os corredores, comparamos preços, escolhemos os produtos em promoção e colocamos os produtos habituais no carrinho.

Parece um conjunto de decisões da nossa exclusiva responsabilidade. Mas, na realidade, muitas dessas escolhas são condicionadas pelo ambiente alimentar que encontramos: aquilo que estava disponível, acessível, visível e promovido. Foi isso que nos ajudou a definir o que vai estar no prato durante a próxima semana. É isso que condiciona as nossas escolhas e o impacto que estas têm na nossa saúde.

Agora imaginemo-nos no mesmo supermercado, mas em 2030. Continuamos a encontrar carne, peixe, lacticínios, legumes, frutas, cereais, entre tantos outros produtos. Não há imposições nem restrições. Ao invés, encontramos uma oferta mais diversificada, com mais opções para compor refeições equilibradas, mais alinhadas com as recomendações nacionais de saúde e com os limites planetários. Quando as opções simultaneamente mais nutritivas, saudáveis e sustentáveis são também mais visíveis, acessíveis e atrativas, torna-se mais fácil integrá-las nas nossas escolhas do dia a dia. Conseguimos, assim, melhorar a qualidade da nossa alimentação sem que nos sejam impostas mudanças radicais nos nossos hábitos. Ganhamos liberdade de escolha e encontramos mais facilmente o que procuramos: saúde, sustentabilidade, qualidade e preço.

Neste cenário ideal (e realista), não há apenas uma mudança para os consumidores. Existe também uma oportunidade para as empresas de retalho. O retalhista ganha uma compreensão mais profunda da composição das suas vendas, identifica novas oportunidades de mercado, reforça a sua capacidade de inovação e prepara-se para responder a um contexto regulatório cada vez mais exigente (incluindo em temáticas como a Responsabilidade Social Corporativa, as emissões de scope 3 ou a desflorestação). Em suma, suporta e beneficia de uma cadeia alimentar mais saudável, sustentável e resiliente.

O que justifica a crescente urgência desta mudança? E o que a torna possível? A sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão reputacional. É hoje uma questão de competitividade. As exigências associadas às emissões da cadeia de valor, à transparência corporativa e à origem sustentável dos produtos estão a tornar-se parte integrante da gestão empresarial. Ao mesmo tempo, os consumidores – particularmente as gerações mais jovens – são cada vez mais exigentes sobre a proveniência e forma como foram produzidos os seus alimentos, e valorizam também cada vez mais empresas que demonstram coerência entre aquilo que comunicam e aquilo que vendem.

É neste contexto que surge a metodologia da WWF para retalhistas. Esta metodologia constitui um referencial comum para medir, classificar e reportar a composição das vendas alimentares dos retalhistas, permitindo comparar o seu alinhamento com objetivos de saúde e sustentabilidade. É, por isso, mais do que uma ferramenta de medição, é um instrumento de gestão que permite às empresas compreender melhor a evolução da sua oferta alimentar, traduzir objetivos de saúde e sustentabilidade em indicadores concretos, apoiar decisões baseadas em evidência e reforçar a transparência perante consumidores. A flexibilidade da metodologia permite que cada empresa comece com o nível de medição compatível com a disponibilidade dos seus dados e capacidades analíticas, aprofundando gradualmente a monitorização e a capacidade de tomada de decisão à medida que aumenta a disponibilidade de dados.

Num contexto em que a sustentabilidade está a tornar-se um critério crescente de acesso a mercados e de preferência dos consumidores, os retalhistas que se posicionarem mais cedo beneficiarão de uma vantagem competitiva difícil de recuperar pelos concorrentes.

Portugal tem condições únicas para liderar esta mudança no sul da Europa. A riqueza da Dieta Mediterrânica (que pode ser uma referência no início da implementação da metodologia), a par com a crescente procura por soluções alimentares mais sustentáveis e a capacidade de inovação do sector, constituem uma base sólida para começar a construir o supermercado do futuro. Embora esta transformação dependa de uma responsabilidade partilhada, os retalhistas têm uma oportunidade única para assumir um papel de liderança enquanto catalisadores da mudança, e a metodologia da WWF pode ajudá-los a acelerar esse percurso.

A pergunta para os retalhistas nacionais não é se esta transformação vai acontecer, mas sim quem vai liderá-la.

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Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Cartaz da conferência Grande Consumo: “Consumo na Era da Imprevisibilidade”, 4 de novembro de 2026, Taguspark, Oeiras
Tiago Luís

Tiago Luís

Técnico de Alimentação e Agricultura da WWF Portugal

Tiago Luís é Técnico de Alimentação e Agricultura da WWF Portugal, onde trabalha em temáticas relacionadas com a sustentabilidade dos sistemas alimentares, a alimentação saudável e o papel do sector alimentar na transição para modelos de produção e consumo mais sustentáveis.

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