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Dois em cada três portugueses já usam Inteligência Artificial, mas a falta de formação trava o impacto no trabalho

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A utilização de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) em Portugal continua a crescer a um ritmo acelerado, mas os ganhos efetivos de produtividade ainda estão longe de corresponder às expectativas. De acordo com o Consumer Sentiment Survey 2025, realizado pela Boston Consulting Group (BCG), cerca de 67% dos portugueses afirmam utilizar IA pelo menos uma vez por mês, um aumento de 15 pontos percentuais face ao ano anterior. Entre os mais jovens, dos 18 aos 34 anos, a taxa de adoção ultrapassa já os 80%.

Os dados revelam uma clara democratização do acesso à tecnologia, mas também expõem um fosso entre utilização e impacto real no desempenho profissional. Apesar de mais portugueses recorrerem à IA com regularidade, a maioria sente que ainda não conseguiu tirar pleno partido destas ferramentas no trabalho.

Mais uso, poucos ganhos de produtividade

A frequência de utilização da IA aumentou de forma expressiva: 43% dos inquiridos dizem recorrer a estas soluções pelo menos uma vez por semana, mais 12 pontos percentuais do que em 2024. Em sentido inverso, 17% nunca utilizou IA e 16% admite já a ter experimentado, mas sem uso efetivo – um valor que caiu 10 pontos percentuais num ano.

Ainda assim, o impacto na produtividade permanece limitado. Apenas 5% dos portugueses considera poupar mais de cinco horas semanais com a ajuda da IA, enquanto cerca de metade (51%) acredita poupar menos de uma hora por semana. Estes números sugerem que a tecnologia está a ser usada sobretudo de forma pontual, e não integrada de forma estrutural nos processos de trabalho.

A adoção da IA em Portugal está a acelerar e a perceção do seu impacto é cada vez mais forte. No entanto, o impacto no trabalho ainda está longe de se materializar por completo”, afirma Pedro Pereira, managing director & senior partner da BCG em Lisboa. Para o responsável, captar este valor exige investimento contínuo em formação prática, acesso a ferramentas seguras e integradas e uma liderança ativa que promova uma adoção responsável.

A perceção de impacto futuro dispara

Apesar das limitações atuais, a perceção do impacto futuro da IA mudou de forma significativa. Quase metade dos portugueses (46%) acredita que a tecnologia terá um impacto muito significativo nas suas vidas, mais do dobro do registado no ano passado. Em contraciclo, a percentagem de quem antevê um impacto apenas moderado caiu para 25%.

O estudo revela também um aumento do interesse e do entusiasmo em torno da IA generativa: 54% dos inquiridos diz sentir curiosidade ou entusiasmo, mais 12 pontos percentuais do que em 2024. Ainda assim, 37% mantém uma postura de cautela ou preocupação, refletindo receios relacionados com emprego, privacidade e fiabilidade das ferramentas.

Impacto no emprego divide opiniões

No que diz respeito ao futuro do trabalho, as opiniões continuam divididas. Cerca de 41% dos portugueses acredita que o seu emprego não irá desaparecer nos próximos dez anos devido à IA, enquanto 48% antecipa uma redução da carga horária. Estes dados sugerem que a tecnologia é vista mais como um fator de transformação das funções do que como uma ameaça direta ao emprego.

No entanto, a maioria reconhece não estar preparada para essa transformação. Cerca de seis em cada dez portugueses (61%) considera imprescindível receber mais formação em IA para integrar estas ferramentas no dia a dia profissional. Apenas 20% afirma ter tido acesso a formação específica, um valor que, apesar de ter aumentado ligeiramente, continua a ser residual face à velocidade de adoção.

Formação, ferramentas e liderança como prioridades

O estudo da BCG identifica três prioridades essenciais para acelerar o impacto da IA no trabalho. A primeira passa por reforçar a formação, capacitando os profissionais para utilizarem a tecnologia de forma confiante e eficaz. A segunda consiste em garantir o acesso às ferramentas certas, evitando usos dispersos ou soluções improvisadas que podem gerar riscos de segurança e frustração. Por fim, a consultora sublinha a importância de uma liderança ativa, capaz de definir prioridades claras e criar um ambiente favorável à adoção responsável da IA.

Num país onde a maioria da população já contacta regularmente com Inteligência Artificial, o desafio deixou de ser o acesso à tecnologia. O verdadeiro teste, conclui o estudo, será transformar essa utilização crescente em impacto real, sustentável e mensurável no trabalho e na economia.

Metodologia:

O estudo “Consumer Sentiment Survey” tem como base um inquérito a 1.000 portugueses em todo o território de Portugal continental, conduzido em agosto de 2025, com base em 44 perguntas relacionadas com o sentimento dos portugueses para com os seus hábitos de consumo este ano.

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