Dos Açores para o mundo

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Fazem parte de Portugal, mas existe um oceano a separar-nos. O sotaque é diferente, tal como o clima. Falamos da Região Autónoma dos Açores, o conjunto de nove ilhas onde a paisagem é do mais natural que existe e os produtos têm outro encanto. As marcas açorianas têm vindo a ganhar espaço nos lineares e reconhecimento internacional, fruto não só do crescimento do turismo, como também de um forte trabalho de comunicação das empresas. A conhecida marca de chás Gorreana e a Lactaçores são dois exemplos de sucesso e do melhor que se faz nos Açores.

Corvo, Flores, Faial, Graciosa, Pico, São Jorge, Terceira, Santa Maria e São Miguel. Ao todo são nove as ilhas que constituem o arquipélago dos Açores. Uma região autónoma que se tem feito valer de inovação e qualificação para afirmar os seus produtos no mercado nacional e internacional. Se algumas das empresas têm já um longo caminho percorrido, como é o caso dos queijos Terra Nostra e Limiano, para outras, esta aposta é mais recente. É através da comunicação das marcas como um todo, sob a chancela Marca Açores, que o caminho tem sido facilitado.

Unindo esforços e apregoando as mais valias das ilhas, a Marca Açores tem conseguido evidenciar-se e destacar os seus produtos em diversas categorias. Em 2017, registou-se um aumento de 22% nas vendas, mérito do trabalho do Governo Regional dos Açores, da SDEA – Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores e das respetivas empresas. Mais do que nunca, os Açores estão a mostrar-se ao mundo, nomeadamente em eventos promovidos pelo próprio governo regional, como o Taste Azores, que realizou recentemente, no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, a sua segunda edição, ou a participação em grandes eventos, como o SIAL, em Paris, ou a Web Summit.

Também os retalhistas têm tido aqui um papel importante, promovendo os produtos açorianos e dedicando-lhes semanas inteiras. Num mundo cada vez mais “pequeno”, aproximado pela tecnologia e meios de comunicação, os Açores estão cada vez mais perto, o que vem facilitar o trabalho às empresas, que não sentem hoje as dificuldades de outros tempos.

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Gorreana

Uma das empresas mais reconhecidas dos Açores, e que é inclusive ponto de paragem obrigatório para quem visita a ilha de São Miguel, é a Gorreana. Trata-se da mais antiga e atualmente a única plantação de chá da Europa. Foi em 1883 que Ermelinda Gago da Câmara e o seu filho, José Honorato, abriram a fábrica e venderam a primeira produção de chá sob o nome Gorreana. O negócio mantém-se, até hoje, na família, o que lhe confere uma responsabilidade acrescida. “Ser um negócio familiar acresce a responsabilidade, temos que dar o nosso melhor para honrar e fazer perdurar o trabalho e sacrifício dos nossos antecessores para a Gorreana existir até aos dias de hoje. A minha avó, Berta Meirelles Hintze, e a minha mãe, Margarida Hintze, ainda continuam à frente da fábrica e eu e a minha irmã, Madalena Mota, efetuamos a parte executiva do negócio”, explica Sara Mota, gestora da Gorreana.

Não conseguindo qualificar o total de visitantes que recebe, a verdade é que a fábrica de Chá Gorreana é visitada por uma grande parte das pessoas que visitam a ilha de São Miguel. O segredo deste chá começa no solo açoriano e na proximidade ao mar, mas não são só estes fatores que lhe atribuem características únicas. “O nosso processo de fabrico utiliza o método ortodoxo, produzimos chá preto e chá verde, fazendo a escolha das três novas folhas do rebento, tendo como resultado chás com características diferentes”, explica.

Os campos de chá da Gorreana
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Com os mercados regional e nacional a serem os principais destinos da produção, a aposta na internacionalização tem também vindo a dar frutos, com a Alemanha e França a serem dos mais importantes no que à exportação diz respeito. Também a loja online da empresa tem vindo a facilitar este processo, recebendo encomendas de várias partes do mundo.

A localização da Gorreana não é para a empresa um entrave ao seu sucesso, apenas um desafio, até porque, como diz Sara Mota, “manter uma marca é difícil em qualquer parte do mundo”. Com valor por si só e força e reconhecimento no mercado, é indiscutível que, à semelhança de outras marcas conterrâneas, o selo de qualidade superior da Marca Açores é uma mais valia para todos.

Com cerca de 33 toneladas de chá produzidas por ano e uma plantação com 32 hectares de dimensão, a Gorreana vai, em breve, sofrer algumas reestruturações. “Vamos fazer remodelações no edifício da fábrica e no interior da loja de vendas ao turismo”, indica a gestora. Além disso, em parceria com a Universidade dos Açores, num projeto apoiado pelo fundo Portugal 2020, está a desenvolver um novo tipo de chá, “daí a necessidade de aumentar a área”.

Reconhecida internacionalmente como produtora de chá de primeira classe, a empresa tem muito projetos em curso para o futuro. O objetivo é claro: “continuar a trabalhar para a marca Gorreana e estar presente no mercado com a mesma qualidade, no mínimo, mais 100 anos”, remata Sara Mota.

Lactaçores

Outro caso de sucesso do arquipélago, numa categoria diferente, é o da Lactaçores. Criada em 2004, trata-se de uma cooperativa que reúne quatro associados: a Unileite, em São Miguel, a CALF, da ilha do Faial, a Uniqueijo, da ilha de São Jorge, e, a mais recente, a Leite Montanha, da ilha do Pico. Com cada cooperativa a ter as suas marcas individuais, a Lactaçores existe como uma união de forças para comercializar os produtos dos seus associados. O objetivo parece ser o do ditado popular: “a união faz a força”. “O trabalho é mais fácil quando existe uma união de forças. Existem cooperativas mais pequenas que outras e não seria fácil se cada uma tivesse a sua própria estrutura comercial, administrativa e financeira. Depois, também há a questão dos recursos humanos, uma vez que não é assim tão fácil ter recursos humanos qualificados nas ilhas. É muito mais fácil estruturar uma empresa comercial no continente, uma vez que é onde estão as maiores empresas e grande parte do nosso volume de vendas”, explica Nailah Tayob, export manager da Lactaçores.

É no entreposto logístico, em Vila Franca de Xira, que, diariamente, se receciona a carga vinda dos Açores, não existindo qualquer tipo de manipulação no continente. Tudo é fabricado no arquipélago, rececionado no entreposto e depois expedido a nível nacional e a nível internacional.

Na empresa há cerca de dois anos, Nailah Tayob já consegue apontar algumas diferenças no comportamento do mercado. “Sinto que, cada vez mais, as pessoas reconhecem os Açores e os produtos açorianos. No meu caso especificamente, trabalhando com a exportação e a área internacional, nas primeiras viagens que fiz, tinha de apontar no mapa onde ficavam os Açores. Hoje em dia já não é assim. As pessoas já começam a reconhecer, principalmente pelo turismo que tem vindo a aumentar, não só em Portugal Continental, mas também nas ilhas, e isso vem ajudar à notoriedade da marca, dentro e fora de portas. As pessoas reconhecem a qualidade dos produtos dos Açores, o que é extremamente importante para nós”, sublinha.

Presente, de forma direta ou indireta, nos cinco continentes, a aposta da Lactaçores na exportação só recentemente começou a ser feita de forma mais vincada. Aposta essa que começa a dar frutos, sobretudo ao nível de reconhecimento. “O leite dos Açores é, por exemplo, muito reconhecido na China e isso é espetacular. A exportação ainda não tem a dimensão que gostaríamos, mas já começa a ter bastante peso. Costumo dizer que a exportação é um namoro constante e é mais difícil trabalhar esse namoro por e-mail e telefone do que se estivéssemos numa reunião presencial. Mas, passo a passo, já começamos a ser bastante reconhecidos lá fora como uma empresa que tem potencial para se internacionalizar. Existem muitos produtos de qualidade nas ilhas”.

Com uma oferta de produtos que engloba leite, manteiga, queijo flamengo, queijo São Jorge e queijo da ilha, a Lactaçores opta por adaptar a sua estratégia e os seus produtos em função do mercado em que se insere. No caso do Queijo São Jorge DOP, e ao contrário do que acontece com o leite, a empresa consegue lucrar com o mercado da saudade, sobretudo em destinos como os Estados Unidos da América e o Canadá, locais para onde emigraram diversas comunidades açorianas. O Queijo São Jorge DOP é um dos produtos estrela da união de cooperativas. Com diversos prémios internacionais conquistados e presença em várias feiras internacionais, o produto reúne diversos requisitos obrigatórios e necessários para se conseguir bater com gigantes internacionais.

Num país tão rico em termos de queijo, com inúmeras tipologias do mesmo que mudam de região para região, como é Portugal, a Lactaçores tem feito por comunicar de forma mais vincada o Queijo São Jorge DOP. Por se tratar de um produto de valor acrescentado, a empresa tem optado por apresentar aos consumidores as suas características únicas. “Percebemos, há cerca de ano e meio, que havia aqui, de facto, uma lacuna em relação ao Queijo São Jorge. As pessoas conhecem o Queijo São Jorge como sendo um queijo da ilha, mas há diferenças. Há a questão de ser um queijo DOP, Denominação de Origem Protegida, o que, só por si, tem um caderno de encargos associado, processos de fabrico obrigatórios e curas obrigatórias. O que nós tentamos fazer é educar e formar as pessoas sobre o facto de este ser, sobretudo, um produto verdadeiramente diferenciador. Este é um queijo com mais de 500 anos de história e, felizmente para nós, em termos de Queijo São Jorge não temos concorrência direta”, explica.

Tratando-se este de um produto produzido na ilha de São Jorge, com cerca de 53 quilómetros de comprimento e 10 mil habitantes, também o fator emocional associado ao produto é de enorme relevância para a Lactaçores. A juntar às características do produto, o que está por detrás do pano e é invisível tem sido comunicado de forma acentuada. “Este é um queijo com uma enorme responsabilidade social. Costumo dizer que, por cada roda de queijo, ou seja, por cada 10 quilos de queijo, estão centenas de famílias a depender da sua comercialização. Um dos nossos associados, a Uniqueijo, é uma das principais empresas da ilha de São Jorge, falamos de centenas de famílias, desde a produção do leite à fábrica, que dependem deste produto. Falamos de uma ilha onde existem mais vacas do que pessoas. Todas estas informações são importantes de comunicar ao consumidor, para que ele esteja consciente daquilo que esta a adquirir no ponto de venda”, defende Nailah Tayob.

Com as vendas no mercado nacional a aumentarem, a ajuda de conhecidos chefs tem sido importante, trabalhando cada vez mais com este produto e tornando-o premium. O segredo da qualidade parece residir, para além da forma de confeção, nas características únicas dos Açores, que lhe conferem uma matéria-prima diferenciadora. A localização no meio do Atlântico dá a estas ilhas um microclima muito próprio, onde num só dia se podem viver as quatro estações do ano. Também os pastos em altura e a pastagem livre 365 dias por ano conferem a estes produtos um sabor rico, diferente e com uma qualidade constante ao longo do ano.

Presente, atualmente, em cerca de 45 mercados diferentes, de forma direta ou através de parcerias, a Lactaçores vive um momento feliz que quer prolongar para os próximos anos. Com 2018 na reta final, os olhos estão já estão postos no próximo exercício, no qual se advinha um longo trabalho, sobretudo ao nível do leite. Com a crise evidente no sector, e o cada vez mais claro decréscimo no consumo deste produto, o desafio prevê-se difícil. “Este foi um ano positivo em várias vertentes e que fica muito marcado para nós e para os nossos parceiros. O mercado é muito inconstante neste sector, mas felizmente conseguimos, de um modo geral, encarar todos os desafios como oportunidades e é por isso que podemos dizer que foi um ano de muitos desafios, mas sobretudo de muitas conquistas a vários níveis. Em 2019, o objetivo passa por conquistar mais mercados e também consolidar a nossa presença naqueles onde já estamos. Temos potencial, produtos de qualidade e cada vez mais nos sentimos confiantes e seguros a concorrer com as marcas internacionais. Temos conseguido várias auditorias com reconhecimento internacional que vêm abrir muitas portas. No que diz respeito ao mercado nacional, temos o nosso lugar, mas queremos crescer em quota de mercado e sensibilizar para o consumo de produtos açorianos, sobretudo para o nosso leite”, explica.

Se os 1.641 quilómetros que separam os Açores de Portugal Continental poderiam ser um inconveniente para a afirmação dos seus produtos e para o sucesso das suas empresas, a distância é compensada pelas características singulares do arquipélago e por todo o trabalho desenvolvido pelos vários agentes. E se o clima e os solos não fossem suficientes para o sucesso da sua produção, Nailah Tayob consegue ainda encontrar outro aspeto diferenciador, o fator humano. “Os Açores têm uma paisagem com muito pouca intervenção humana e têm tentado preservar ao máximo aquilo que têm de único e de belo. Aprendi a gostar muito dos Açores e a ser uma grande embaixadora. Nos Açores, é tudo muito natural e genuíno, não só nos produtos e nos animais, mas sobretudo nas pessoas”, conclui.

Este artigo foi publicado na edição n.º 54 da Grande Consumo.

“Não temos medo de cometer erros”